Os Estados Unidos criaram 57 mil vagas de trabalho fora do setor agrícola em junho, resultado bem abaixo das 113 mil esperadas pela mediana das projeções (110 mil na pesquisa Reuters). Os dados de abril e maio também foram revisados para baixo, abril de 179 mil para 148 mil e maio de 172 mil para 129 mil, corte conjunto de 74 mil postos.
Já a taxa de desemprego caiu, mas acompanhada de forte encolhimento de 720 mil pessoas no mês, reflexo principalmente de um recuo na participação de trabalhadores entre 25 e 34 anos, a maior queda mensal fora do período da pandemia em toda a série histórica do indicador.
Com esperança de que o dado pudesse aliviar projeções de altas de juros nos EUA, o Ibovespa subiu e o dólar passou a recuar após a divulgação. No entanto, analistas ainda não apontam consenso sobre o potencial efeito sobre a política monetária americana.
Um dos motivos é a distribuição setorial do dado cheio. Lazer e hotelaria perderam 61 mil vagas no mês, mais que revertendo o avanço de 40 mil registrado em maio, período de maiores reservas para a Copa do Mundo e com o feriado de Memorial Day. Do lado positivo, o Goldman Sachs cita saúde na liderança, com 47 mil vagas, seguida por serviços profissionais e empresariais, com 36 mil, e educação privada, com 22 mil. Também houve perdas em informação, varejo e mineração.
Chamou atenção do banco o fato de a folha de educação estadual e municipal ter avançado apenas 3 mil vagas, rompendo o padrão dos primeiros números divulgados em junho nos anos anteriores, que costumavam vir mais fortes nessa leitura inicial.
Os mais otimistas
“Para o Fed, o relatório retira um possível risco de aquecimento do mercado de trabalho, mas não a ponto de gerar preocupações com a atividade econômica”, avalia a economista Andressa Durão, do ASA.
O economista-chefe da Suno Research, Gustavo Sung, segue linha parecida. “O resultado de hoje reforça a leitura de um mercado de trabalho acomodado, condição que permite ao Fed concentrar sua função de reação na dinâmica inflacionária”, afirma. Sung cita como sustentação o fato de a razão entre vagas abertas e desempregados seguir acima de 1,0 no dado de maio do JOLTS.
No Inter, o economista sênior André Valério chega a conclusão semelhante e associa a queda do desemprego ao controle migratório mais rígido do governo Trump, que reduz a oferta de mão de obra disponível no país, leitura sustentada pelo próprio recuo de 720 mil pessoas na força de trabalho. “O dado de emprego de junho reafirma a narrativa de um mercado de trabalho em equilíbrio, sem grandes sinais de reaceleração da economia, tampouco de enfraquecimento”, diz.
JPMorgan destoa e vê mercado “decente”
Nem todos leem o payroll como sinal de fraqueza da força de trabalho. Em relatório assinado pelo economista Abiel Reinhart, o JPMorgan classifica o resultado como “decente” e argumenta que a própria média de três meses que antecedeu a divulgação, de 188 mil vagas, já era considerada alta demais para o ritmo real de criação de empregos. Na visão do banco, a queda para a casa de 111 mil é menos um sinal de alerta e mais um ajuste esperado.
O banco também relativiza a queda na participação da força de trabalho, tratando parte do movimento como ruído estatístico. Para o JPMorgan, o dado mais relevante do relatório é outro, a queda contínua da taxa de desemprego. “Não descartaríamos esse dado, mas parte dele provavelmente é ruído, e a queda contínua do desemprego parece ser a informação mais relevante do relatório”, escreve Reinhart.
Na Stratton Capital, o sócio e analista de investimentos Vinicius Flores projeta juros parados por todo o ano. “Estamos diante de um mercado de trabalho que adicionou, na média, mais de 100 mil postos de trabalho por mês nos últimos três meses, mesmo considerando o último dado divulgado abaixo das expectativas”, afirma.
Já o C6 Bank adota tom mais negativo, e mantém a aposta em nova alta de juros ainda em 2026, apoiado no ritmo firme dos salários, que subiram 3,52% em 12 meses, e na leitura de que o mercado de trabalho segue aquecido o suficiente para sustentar pressão inflacionária.
Dúvida sobre próximos passos
Parte da atenção ao payroll de hoje vem da estreia dura de Kevin Warsh à frente do Fed. Na reunião de 17 de junho, primeira sob seu comando, o novo presidente surpreendeu o mercado com uma postura mais rígida do que a esperada e abriu espaço para novas altas de juros ainda em 2026. Na última quarta-feira (1), Warsh reforçou o tom em fala pública na Europa, afirmando que a inflação americana segue “alta demais”. Por isso, o payroll fraco de hoje foi lido, num primeiro momento, como alívio.
Para José Alfaix, economista da Rio Bravo Investimentos, o quadro é mais delicado que um simples alívio. Segundo ele, o payroll de junho reduz o espaço de manobra que o dado de maio dava para Warsh considerar tanto manutenção quanto alta de juros, mas isso não resolve o dilema do Fed. “Atividade enfraquecendo com preços ainda pressionados não é o tipo de cenário que se resolve com uma direção só”, diz.
Ainda assim, o mercado via CME FedWatch reduziu a aposta em uma alta de juros já em setembro, empurrando parte dessa expectativa para outubro.
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