As transformações geopolíticas em curso podem colocar o Brasil entre os principais beneficiários da nova configuração econômica global. Mas aproveitar essa oportunidade dependerá menos da abundância de recursos naturais e mais da capacidade do país de resolver gargalos históricos de governança, educação e execução de projetos.
A avaliação é de Gustavo Montezano, CEO da YvY Capital e ex-presidente do BNDES, durante participação no programa O Clima na Faria Lima, apresentado por Marina Cançado.
Segundo ele, a combinação entre tensões geopolíticas, busca por segurança energética, segurança alimentar e resiliência climática está mudando a forma como governos e investidores enxergam valor. “Você ter acesso a materiais produtivos, a minério, mineral, pode ser mais importante do que você ter um câmbio estabilizado ou um juro controlado no país”, afirma Montezano.
Para o executivo, o movimento representa uma mudança estrutural que deve se estender pelas próximas décadas e favorecer regiões ricas em recursos naturais, como a América do Sul.
América do Sul pode viver nova valorização de ativos
Na visão de Montezano, a região reúne atributos cada vez mais escassos no mundo, como disponibilidade de água, terras agricultáveis, biodiversidade, energia e minerais estratégicos.
Por isso, ele acredita que o mercado ainda não precificou adequadamente o potencial desses ativos. “A América do Sul vai passar por um processo geracional de repricificação”, diz.
Segundo o executivo, além da abundância de recursos naturais, a posição geopolítica do Brasil cria uma vantagem adicional. O país mantém relações com o Ocidente, mas também possui forte integração comercial com a Ásia, especialmente com a China.
O executivo compara o momento atual a uma nova versão do ciclo de commodities vivido pelo Brasil nos anos 2000, mas agora impulsionado por fatores mais amplos, como transição energética, Inteligência Artificial, reorganização das cadeias produtivas e disputas geopolíticas.
Infraestrutura volta ao centro da economia
Para Montezano, a infraestrutura será um dos principais pilares dessa nova fase.
Segundo ele, temas que hoje aparecem sob diferentes nomes, como data centers, segurança alimentar ou transição energética, têm uma base comum: a necessidade de infraestrutura física.
“A infraestrutura vai voltar à moda, só que ela não vem chamada de infraestrutura. Ela vem chamada de data center, ela vem chamada de segurança alimentar”
Na avaliação do ex-presidente do BNDES, o Brasil ainda possui uma extensa agenda de investimentos básicos em rodovias, saneamento, portos, logística e mobilidade. Ao mesmo tempo, começa a surgir uma nova geração de oportunidades ligadas a combustíveis sustentáveis, captura de carbono, eletrificação da mobilidade e data centers.
Essas frentes, segundo ele, podem dar origem a novas empresas de grande valor nos próximos anos. “Quem olhar isso como um portfólio e pensar que não precisa acertar se é hidrogênio, SAF ou data center, mas apostar em um conjunto dessas oportunidades, pode ganhar muito dinheiro”, acredita.
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O principal problema do Brasil não é econômico
Apesar do otimismo com o potencial do país, Montezano argumenta que os maiores obstáculos não estão na economia. Para o executivo, o Brasil precisa avançar principalmente em governança, segurança pública e educação para conseguir transformar oportunidades em investimentos concretos. “O principal problema do Brasil hoje é segurança e corrupção”, diz.
Na mesma linha, ele defende que o debate sobre desenvolvimento sustentável precisa começar pela qualidade das instituições. “No Brasil, o ESG começa pelo G de governança”, afirma.
Montezano ainda argumenta que a falta de capital humano qualificado também pode se tornar um entrave para o crescimento. “Precisamos de engenheiros, técnicos, licenciadores ambientais, advogados e empreendedores capazes de colocar esses projetos de pé”, explica.
Pensar além do próximo semestre
Para o ex-presidente do BNDES, um dos maiores desafios do empresariado brasileiro é conseguir equilibrar as demandas do curto prazo com a construção de projetos de longo prazo.
“O nosso grande desafio é conseguir tirar o horizonte do semestre e colocar no horizonte de cinco, sete ou dez anos”
Ele conta que setores ligados à transição energética, combustíveis sustentáveis, biometano, mobilidade elétrica e novas cadeias produtivas exigem anos de preparação antes de se transformarem em investimentos efetivos.
Por isso, acredita que as empresas que começarem a se posicionar agora terão vantagem quando o ciclo de investimentos ganhar escala. “Quem fizer esse dever de casa e estiver pronto para pegar o vento de cauda vai voar muito longe”, acredita.
Uma janela que não pode ser desperdiçada
Ao olhar para os próximos anos, Montezano avalia que o Brasil possui uma oportunidade rara de combinar recursos naturais abundantes com novas tecnologias e demanda global crescente por ativos reais. Mas alerta que a janela não ficará aberta indefinidamente. “A gente não pode perder isso”, diz.
Para ele, o sucesso dependerá da capacidade do país de formar mais empreendedores, melhorar a governança e criar condições para que projetos estruturantes saiam do papel.
Caso isso aconteça, a combinação entre infraestrutura, agricultura, energia e inovação poderá colocar o Brasil em uma posição estratégica na economia global das próximas décadas.
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