O relatório trimestral de inflação do Banco Central publicado nesta quinta-feira (25) ajudou a explicar a decisão de cortar os juros na semana passada, mas pintou um cenário difícil para a inflação brasileira nos próximos anos. Ao estender em um trimestre o prazo para convergir à meta, o BC mostra, nas próprias projeções, a inflação se aproximando de 3% sem nenhum ajuste adicional na Selic. O problema, segundo analistas, é que o quadro é mais difícil do que parecia, com a inflação acima da meta até 2028.
A principal contribuição do relatório foi expor, em números, o argumento do Copom para estender o horizonte relevante da política monetária do quarto trimestre de 2027 para o primeiro trimestre de 2028. A diferença de um trimestre é suficiente para a projeção do IPCA cair de 3,7% para 3,2%, levando a inflação para perto da meta sem nenhum ajuste adicional na trajetória de juros, conforme análise da XP.
Em nota, Beto Saadia, economista-chefe da Nomos, avalia que o relatório confirmou a hipótese que havia formulado a partir da “comunicação confusa” da ata: o Copom optou por um “descasamento pontual do horizonte relevante” para acomodar o corte de juros, postergando o compromisso de convergência para 2028. A tabela trimestral completa do relatório, ausente na ata, mostra que a inflação só se estabiliza em 3,1% a partir do terceiro trimestre de 2028.
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O Bradesco aponta que a dissipação do El Niño é o mecanismo central por trás dessa trajetória. O BC passou a considerar um fenômeno climático forte no cenário-base, o que pressiona os preços de alimentos nos próximos trimestres. Com a normalização, esses preços passam a contribuir para trazer a inflação em direção à meta a partir de 2028.
Meta fora do alcance mesmo em 2028
O Goldman Sachs lê o relatório com ceticismo. Em nota assinada pelo diretor de pesquisa macroeconômica para a América Latina, Alberto Ramos, o banco ressalta que a meta inalcançada mesmo no horizonte estendido que o Copom escolheu como referência representa um “foco excessivo em projeções para um 2028 distante e incerto”.
A revisão do PIB de 2026, de 1,6% para 2,0%, torna o cenário ainda mais desafiador. Com a atividade mais forte, o hiato do produto permanece positivo por mais tempo, pressionando a inflação de serviços. Para o Goldman, “para preservar a credibilidade acumulada nos últimos dois anos, o Copom deveria considerar interromper a normalização da taxa de juros”.
O Bradesco destaca ainda um estudo de riscos de cauda incluído no relatório que reforça a assimetria do cenário. Choques de demanda e de inflação importada deslocam a distribuição de probabilidades para cima de forma expressiva, elevando as chances de inflação mais alta. Na atividade, o efeito médio de choques financeiros sobre o crescimento é limitado, mas a cauda recessiva se amplia com intensidade, reforçando o peso do balanço de riscos altista que o Copom já havia sinalizado na ata.
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