Em uma noite iluminada pela lua, em abril de 1775, Paul Revere percorreu Massachusetts levando um aviso — “Os britânicos estão chegando” — enquanto tropas inglesas avançavam em direção a Lexington e Concord.
O episódio tornou-se uma das histórias mais emblemáticas da fundação dos Estados Unidos. No entanto, a cavalgada de Revere teve sucesso por um motivo mais profundo do que a coragem de um único mensageiro. As colônias compreendiam a ameaça britânica. O aviso de Revere forneceu urgência e sincronização, não persuasão. Os americanos agiram coletivamente porque, em grande medida, compartilhavam a mesma percepção da realidade.
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Durante boa parte da história do país, as instituições americanas funcionaram com base em uma premissa simples: se um número suficiente de pessoas recebesse as mesmas informações, a maioria chegaria a uma compreensão semelhante dos acontecimentos.
Essa compreensão compartilhada da realidade tornou-se uma espécie de infraestrutura nacional. Os mercados dependiam dela para precificar riscos e alocar capital. As empresas dependiam dela para planejar e investir com confiança. As democracias dependiam dela para sustentar sua legitimidade e a confiança pública.
Os Estados Unidos sobreviveram ao jornalismo sensacionalista, à demagogia política, à propaganda e às teorias da conspiração. O que tornou o sistema resiliente não foi a ausência de mentiras, mas a existência de uma base factual amplamente compartilhada. Essa base agora está se fragmentando.
O perigo já não é a velocidade com que a informação circula. É que a desinformação agora se propaga mais rapidamente do que as instituições conseguem interpretar, verificar ou responder.
O resultado é uma incerteza crescente sobre o que é real — e essa incerteza vem produzindo consequências econômicas cada vez mais significativas.
Toda revolução nas comunicações da história americana remodelou a política, o comércio e a cultura. Jornais e panfletos coloniais alimentaram o debate revolucionário e ampliaram a participação política. Filadélfia e outras capitais coloniais abrigavam publicações concorrentes, expondo os cidadãos a argumentos políticos bastante distintos. Discursos e sermões circulavam amplamente, ajudando a criar uma identidade política nacional antes mesmo da existência formal da nação.
O telégrafo acelerou os mercados financeiros e reduziu as distâncias. O telefone transformou a coordenação dos negócios. O rádio sincronizou a atenção nacional. A televisão centralizou a cultura em torno de um pequeno grupo de grandes redes. A internet eliminou praticamente todo o atrito na publicação e na distribuição de conteúdo.
Cada revolução das comunicações ampliou o acesso à informação. Mas cada uma também concentrou influência — primeiro nos editores, depois nas emissoras e, por fim, nas plataformas digitais. Essas plataformas substituíram o julgamento editorial por algoritmos otimizados para gerar indignação e engajamento. Os benefícios foram enormes. Os riscos também.
O rádio talvez tenha representado o auge da experiência nacional compartilhada. Em 7 de dezembro de 1941, os americanos souberam do ataque a Pearl Harbor por meio de boletins que interromperam a programação regular. As famílias reuniram-se em torno dos aparelhos de rádio e receberam os mesmos fatos no mesmo instante.
Hoje, as plataformas digitais recompensam a indignação, a emoção e o imediatismo em detrimento da verificação. A inteligência artificial está acelerando esse problema ao tornar a fraude mais rápida, barata e escalável. A IA está mudando a economia da enganação.
Deepfakes, áudios sintéticos e vídeos manipulados já não são riscos teóricos. São realidades operacionais. As instituições já não enfrentam apenas o desafio de distribuir informações. Elas lutam para preservar sua credibilidade enquanto mercados, reguladores, consumidores e algoritmos reagem simultaneamente a versões concorrentes da realidade.
Isso deixou de ser apenas um problema de comunicação. Está se tornando um problema de governança, com implicações diretas para os mercados, o desempenho corporativo e a estabilidade democrática.
O Fórum Econômico Mundial já classifica a informação falsa e a desinformação entre os riscos de curto prazo mais significativos para a economia global. A própria confusão tornou-se uma força de mercado. A erosão da confiança não é apenas um fenômeno tecnológico. A cultura política passou a tratar os próprios fatos como instrumentos partidários.
Donald Trump popularizou a expressão “fake news” como uma arma política contra coberturas desfavoráveis. Mas a defesa feita por Kellyanne Conway dos “fatos alternativos”, em 2017, marcou algo ainda mais relevante: a normalização de realidades concorrentes construídas em torno de alegações comprovadamente falsas.
Desde então, os americanos testemunharam narrativas oficiais conflitantes sobre fiscalização da imigração, ameaças à segurança nacional, processos relacionados ao ataque de 6 de janeiro e os arquivos Epstein.
Autoridades públicas passaram a descartar informações prejudiciais como invenções, ao mesmo tempo em que apresentam alegações sem comprovação como se fossem fatos. O efeito cumulativo é a erosão institucional. Os americanos questionam cada vez mais se órgãos governamentais, organizações de mídia, empresas ou líderes políticos estão fornecendo informações verificáveis.
Essa erosão produz consequências econômicas diretas. Os mercados conseguem absorver más notícias. O que têm dificuldade em absorver é a incerteza sobre o que é verdadeiro.
O colapso do Silicon Valley Bank serviu como um alerta inicial. Os depositantes não esperaram o jornal do dia seguinte nem o relatório trimestral dos analistas. Reagiram instantaneamente a capturas de tela, especulações e comentários nas redes sociais. As informações — corretas ou não — circularam mais rapidamente do que a resposta institucional. Essa aceleração está remodelando a gestão de riscos das empresas.
A comunicação não resolve falhas operacionais. Mas decisões lentas e coordenação deficiente podem transformar rapidamente problemas operacionais em crises financeiras e de reputação. Um vídeo manipulado de um executivo, um falso anúncio de resultados financeiros ou um áudio sintético podem movimentar os mercados antes que os mecanismos de verificação consigam reagir.
A Deloitte alertou que as perdas decorrentes de fraudes habilitadas por IA podem alcançar dezenas de bilhões de dólares por ano nos próximos anos. A Gartner prevê um aumento dos casos de falsificação de identidade gerada por IA contra executivos, funcionários e investidores. O perigo não é apenas a desinformação. É o colapso da confiança na autenticidade das próprias evidências.
Quando as partes interessadas passam a presumir que qualquer imagem, vídeo ou declaração pode ser fabricado, a confiança institucional enfraquece em todos os níveis. Nesse ambiente, as organizações perdem velocidade justamente quando os mercados exigem clareza.
Para os CEOs, três prioridades estão se tornando inevitáveis.
Primeiro: tratar a confiança como infraestrutura operacional, e não como um aspecto secundário da reputação. Em um mundo de deepfakes e desinformação gerada por IA, as empresas competirão cada vez mais por sua capacidade de estabelecer o que é real antes que informações falsas movimentem os mercados ou prejudiquem sua credibilidade.
Durante dois séculos, a vantagem institucional frequentemente dependia do controle da distribuição da informação. Na era da IA, a vantagem competitiva pode depender cada vez mais da capacidade de verificação.
Segundo: reduzir drasticamente o tempo de tomada de decisões. As estruturas tradicionais de resposta — nas quais equipes jurídicas, de comunicação, de cibersegurança e de relações com investidores atuam em sequência — foram criadas para ciclos de mídia mais lentos.
Esse modelo está se tornando obsoleto. Hoje, mercados e plataformas sociais reagem em minutos, enquanto muitas instituições ainda levam horas ou dias para responder. Nas crises futuras, o próprio atraso poderá se transformar em um risco de mercado.
Terceiro: a credibilidade tornou-se uma arma competitiva. A informação circula globalmente em uma velocidade sem precedentes. Sem credibilidade, até mesmo informações corretas têm dificuldade para recuperar o controle quando narrativas falsas se consolidam.
Durante gerações, as instituições acreditaram que os fatos seriam capazes de estabilizar a incerteza. Cada vez mais, acontece o contrário. Narrativas concorrentes agora movimentam mercados, moldam resultados políticos e redefinem o valor das empresas em tempo real.
O que torna este momento diferente é a velocidade com que a tecnologia comprime a criação de mentiras, sua amplificação e suas nconsequências.
O desafio não é restaurar uma era idealizada de concordância perfeita que nunca existiu. Democracias são, por natureza, espaços de debate e divergência. Mas democracias funcionais e mercados estáveis ainda exigem um amplo consenso sobre o que constitui evidência, verdade e realidade. Sem esse alicerce, a confiança se deteriora, as instituições enfraquecem e a instabilidade se espalha.
Há mais de dois séculos, o Pai Fundador James Madison escreveu ao estadista de Kentucky W.T. Barry: “Um governo popular, sem informação popular, ou sem os meios de adquiri-la, não passa de um prólogo para uma farsa ou uma tragédia.”
Madison compreendia que um governo democrático não poderia sobreviver sem informações públicas confiáveis. Na era da inteligência artificial, esse alerta vai muito além da política. Quando as sociedades deixam de concordar sobre o que é real, os mercados se desestabilizam, as instituições enfraquecem e a confiança pública torna-se extraordinariamente difícil de restaurar.
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