Últimas

Análise: A guerra dos EUA contra o Irã alterou de forma permanente a economia global

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 3 horas)
Análise: A guerra dos EUA contra o Irã alterou de forma permanente a economia global

LONDRES — O acordo-base entre Estados Unidos e Irã abre caminho para o fim dos surtos de violência e da interrupção severa no fornecimento de energia e no comércio no Golfo Pérsico. Mas não espere que as economias ao redor do mundo simplesmente retomem o ponto em que estavam antes de Estados Unidos e Israel começarem a bombardear o Irã, em 28 de fevereiro.

A guerra desencadeou mudanças que serão difíceis de reverter.

A ordem global da energia está sendo redesenhada

A quase paralisação das entregas de petróleo e gás do Oriente Médio, somada ao salto dos preços, está provocando uma mudança no equilíbrio de forças. Produtores de energia, do Golfo às Américas, disputam espaço para manter ou ampliar sua influência, enquanto os consumidores tentam reduzir a dependência e reforçar a segurança do abastecimento.

Com isso, o mercado de energia está mudando, a matriz energética está mudando e os protagonistas do setor também estão mudando.

A forte vulnerabilidade de países da Ásia, da Europa e de outras regiões dependentes de energia importada acelerou a busca por alternativas. Em alguns lugares, como Coreia do Sul e Japão, isso levou ao maior uso de combustíveis mais poluentes, como o carvão.

No prazo mais longo, porém, esse choque energético — o segundo em apenas quatro anos — deve acelerar a transição para fontes renováveis, como solar e eólica, além da energia nuclear.

Avanços na tecnologia e na eficiência das baterias elétricas tornam essa mudança mais viável do que era quando a invasão da Ucrânia pela Rússia provocou um choque energético global em 2022, afirma Daan Walter, da Ember, grupo de pesquisa em energia sediado em Londres.

Em muitos lugares, por exemplo, os veículos elétricos estão cada vez mais acessíveis. E, em abril, a energia eólica e solar geraram mais eletricidade no mundo do que o gás pela primeira vez.

“Isso representa uma grande virada”, disse Walter. “O que há cinco anos talvez mal fosse competitivo agora já é, com clareza, mais barato.”

Segundo ele, os investimentos em renováveis também passaram a parecer uma aposta melhor, com retorno potencial em cerca de dois anos, e não mais em 30.

Relações entre produtores também mudam

A guerra elevou as tensões entre Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita e levou os Emirados a deixarem a Opep+, cartel ampliado do petróleo. O impacto dessa saída só será sentido plenamente quando a produção de petróleo na região voltar a crescer. Mas uma Opep enfraquecida pode aumentar a volatilidade no mercado de petróleo.

A ruptura também incentivou os sauditas a se aproximarem mais da Rússia. Neste mês, o presidente Vladimir Putin destacou a Arábia Saudita como “convidada de honra” em um fórum econômico em São Petersburgo.

A Rússia, segunda maior produtora de petróleo cru e gás do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, também foi fortalecida de outras formas pela guerra. O governo Trump suspendeu temporariamente sanções impostas ao país, permitindo que Moscou ampliasse os lucros com as exportações de petróleo em um momento em que sua economia enfrenta dificuldades.

Do outro lado do Atlântico, Brasil, Venezuela, Colômbia, Argentina e Guiana estão ampliando sua capacidade de produção de petróleo, à medida que o mundo busca fornecedores alternativos.

A China é uma das maiores beneficiadas

O esforço para expandir e diversificar as redes de energia deve continuar muito depois do fim da guerra. E a China aparece como a principal beneficiária do avanço esperado das renováveis.

O país está muito à frente do resto do mundo na produção de turbinas eólicas, cabos de alta tensão, transformadores, painéis solares, baterias, softwares de gestão de fluxo de energia e outros equipamentos.

O papel crescente da China em garantir que outros países tenham abastecimento energético confiável amplia sua influência estratégica e sua relevância global.

“A China parece ser uma vencedora incontestável”, concluíram analistas da consultoria global de energia Wood Mackenzie.

Reconstruir a confiança será difícil

Não está claro se o tráfego marítimo voltará algum dia a circular livremente pelo Estreito de Hormuz — a única rota marítima para escoar petróleo, gás natural e outras cargas para fora do Golfo Pérsico.

O Irã tem pressionado para impor taxas aos navios que passam pelo estreito, embora tal plano possa violar acordos internacionais. Mesmo que novas cobranças não sejam formalizadas, o Irã já demonstrou que pode interromper o comércio quando quiser, o que eleva riscos e custos.

“Acho que o estreito nunca mais vai voltar ao nível de certeza de livre passagem ao qual estávamos acostumados”, afirmou Maurice Obstfeld, ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional.

Da mesma forma, a confiança na paz, na estabilidade e na prosperidade crescente da região também foi abalada.

“O dinamismo das economias do Golfo pode ser prejudicado pela vulnerabilidade que demonstraram”, disse Obstfeld, o que “aumenta o poder de barganha do Irã na região”.

A economia entrou em uma trajetória de crescimento mais fraco e inflação mais alta

Quando economistas do Banco Mundial começaram a analisar os dados no início do ano, ficaram positivamente surpresos.

“Estávamos começando a pensar em revisar nossas projeções para cima, entre janeiro e fevereiro, porque as coisas pareciam muito boas”, disse Indermit Gill, economista-chefe do banco. “A inflação estava caindo, o crescimento estava acelerando, o comércio havia levado um golpe, mas seguia de pé.”

Isso mudou.

O banco revisou sua perspectiva econômica e reduziu a projeção. Agora, espera que o crescimento global recue para 2,5% neste ano, ante 2,9% em 2025.

A inflação também começa a ganhar força. Nos Estados Unidos, ela subiu pelo terceiro mês seguido, alcançando taxa anual de 4,2% em maio. E, em vez de se preparar para o próximo corte de juros, Wall Street agora espera que o Federal Reserve eleve os juros ao menos uma vez neste ano. Na semana passada, o Banco Central Europeu elevou a taxa para 2,25%. “A guerra no Oriente Médio está gerando pressões inflacionárias”, afirmou a instituição.

Juros mais altos têm efeitos duradouros e graves tanto para países ricos quanto para países pobres, que já acumulam dívidas públicas elevadas e destinam fatias cada vez maiores da receita apenas para pagar encargos financeiros.

Essas pressões orçamentárias tendem a aumentar ainda mais à medida que governos ampliam a ajuda a famílias afetadas pelo encarecimento da energia e elevam os gastos militares para responder ao agravamento das ameaças de segurança.

As economias asiáticas, as mais atingidas pela crise, já recorreram em peso ao Banco Asiático de Desenvolvimento em busca de empréstimos emergenciais para tentar proteger suas economias e suas finanças dos efeitos da guerra com o Irã.

“A economia global vai acabar ficando mais nervosa”, disse Gill. E isso não é bom para planejamento de longo prazo, investimento ou crescimento.

Este artigo foi publicado originalmente no The New York Times.

The post Análise: A guerra dos EUA contra o Irã alterou de forma permanente a economia global appeared first on InfoMoney.

Análise: A guerra dos EUA contra o Irã alterou de forma permanente a economia global — Radar Olhar Aguçado | Radar Olhar Aguçado