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PIB é uma medida falha de prosperidade, e ONU propõe indicadores de qualidade de vida

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 3 horas)
PIB é uma medida falha de prosperidade, e ONU propõe indicadores de qualidade de vida

Não é segredo que o Produto Interno Bruto (PIB), o número que serve como medida do progresso econômico no mundo todo, dificilmente funciona como um termômetro do florescimento humano.

Ele registra, por exemplo, a colheita de uma floresta como receita de madeira, sem reconhecer a erosão e a degradação da qualidade da água resultantes disso. Mede os gastos com hospitais, mas não a saúde das pessoas. Um regime autoritário pode ter um bom desempenho, mesmo concentrando riqueza e deixando o cidadão mediano na pobreza.

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Há décadas, economistas tentam criar uma métrica alternativa que capture um retrato mais amplo da prosperidade — algo que mudaria os objetivos que os países procuram alcançar. Comitês foram formados e instituições internacionais criaram índices e estruturas para avaliar vulnerabilidade, bem-estar e capital natural.

Mas nenhuma dessas iniciativas conquistou ampla aceitação. Por isso, no ano passado, a Organização das Nações Unidas criou uma comissão para elaborar um conjunto mais focado de indicadores que finalmente pudesse reduzir parte da atenção dedicada ao PIB.

O resultado, divulgado no mês passado, é um painel com 31 métricas agrupadas em quatro categorias: paz e direitos humanos, sustentabilidade, qualidade de vida e desigualdade.

Entre as métricas, estão a parcela da população que se sente confortável para caminhar pelo bairro à noite, a participação da riqueza concentrada no 1% mais rico e o número de mortes relacionadas a conflitos por 100 mil habitantes.

O painel é mais conciso do que as centenas de indicadores que sustentam os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável definidos pela ONU em 2015. António Guterres, secretário-geral da ONU, cujo mandato termina neste ano, chamou o novo painel de complemento ao PIB e pediu aos delegados que o adotassem em seus próprios países.

“O relatório também é um chamado à ação: vamos medir o que realmente importa”, disse.

“É ridículo”

Ainda assim, a proposta está longe de ser um indicador simples e direto como o PIB — e já recebeu críticas.

Semanas antes da divulgação da proposta, uma carta assinada por 58 especialistas, incluindo professores de Oxford, Cambridge, Harvard e Yale e um ex-presidente da Assembleia Geral da ONU, argumentou que a comissão se desviou de sua missão ao selecionar indicadores demais.

“É difícil imaginar qualquer aspecto do bem-estar que plausivelmente ficasse fora de uma estrutura tão ampla”, diz a carta. Os signatários, em sua maioria ligados à economia ambiental, defenderam em vez disso a adoção de uma medida mais holística de riqueza, incluindo elementos como saúde pública e recursos naturais. O Banco Mundial publicou a edição mais recente de um desses sistemas de medição em 2024, como complemento ao foco do PIB na renda.

Robert Smith, ex-diretor de contas ambientais da agência nacional de estatísticas do Canadá e articulador da carta, classificou o esforço da ONU como bem-intencionado, porém sem disciplina metodológica.

“Isso não vai competir com o PIB”, disse Smith. “Os países vão olhar para isso e dizer: ‘Vamos criar nosso próprio conjunto de indicadores’ ou ‘Isso é ridículo, vamos continuar com o PIB’.”

Quando o relatório foi apresentado neste mês pelo grupo de especialistas e por autoridades da ONU, uma representante de uma aliança de pequenos países insulares destacou que outros indicadores alternativos já cumprem objetivo semelhante e estão ganhando espaço.

“Reabrir ou reproduzir esse trabalho sob outro rótulo correria o risco de fragmentar esforços e diluir o impulso político”, disse Ilana Seid, representante de Palau na ONU. Além disso, observou, muitos países pequenos não têm recursos para compilar grandes volumes de dados. “A proliferação de indicadores traz custos reais de capacidade e limitações”, afirmou.

O processo também revelou divergências sobre como uma métrica alternativa seria usada. A Costa Rica, que esteve entre os países que defenderam a criação da comissão, está especialmente interessada em utilizar uma medida alternativa ao PIB para conseguir condições de financiamento mais favoráveis.

O relatório da comissão, no entanto, não afirmou se instituições de desenvolvimento, como o Banco Mundial, deveriam usar esse modelo para conceder empréstimos. Um delegado que falou em nome de Canadá, Austrália e Nova Zelândia disse, no evento de lançamento, que seu grupo se opõe à ideia, considerando os outros indicadores já disponíveis.

Isto não é Bretton Woods

Nora Lustig, economista argentina do El Colegio de México especializada em desigualdade, entende as críticas. Ela contou que ficou cética quando o gabinete do secretário-geral a convidou para ajudar a liderar a comissão.

“Não é por falta de esforço que ainda não temos um concorrente ao PIB”, disse. “É porque não conseguimos chegar a um acordo.”

O relatório é fruto de concessões. Os membros da comissão vieram de diversas áreas e consultaram defensores de diferentes correntes de pensamento sobre como medir melhor aquilo que realmente importa. Tentaram reduzir o número de indicadores, mas cada um tinha defensores fortes.

“Se não há paz nem segurança, se os direitos humanos são violados e o planeta desaparece, não pode existir bem-estar”, disse Lustig. “Esses elementos são fundamentais, em certo sentido.”

Uma divergência central era decidir se deveria existir um painel de indicadores ou se eles deveriam ser agregados em um índice composto — como o PIB — que atribui pesos conforme a importância de cada componente. Lustig disse que passou a acreditar que essa seria a abordagem correta e está dando continuidade às pesquisas com um grupo de acadêmicos que pensam da mesma forma.

Um dos membros da comissão e defensor histórico de uma alternativa ao PIB é Joseph Stiglitz, vencedor do Nobel e ex-economista-chefe do Banco Mundial.

Ele afirmou acreditar que um painel de indicadores é o melhor caminho porque reduzir elementos tão distintos do bem-estar a um único número enfraqueceria o propósito do exercício. Depois de anos de debate internacional, disse ele, uma solução imposta de cima para baixo talvez não seja o melhor caminho.

“É preciso um diálogo nacional para decidir quais são as coisas importantes”, afirmou Stiglitz. “Talvez, depois que vários países fizerem isso, consigamos entender quais métricas realmente ajudam a orientar políticas públicas e mobilizar cidadãos.”

Vários países estão experimentando painéis de indicadores. O Canadá possui uma “estrutura de qualidade de vida” integrada aos processos orçamentários e à comunicação pública.

Kari Wolanski, integrante da agência federal de estatísticas do Canadá, trabalha com outra comissão da ONU para desenvolver métricas sociais e demográficas padronizadas. A ideia é que o Canadá possa escolher indicadores diferentes dos do Chile, mas todos sejam intercambiáveis — como peças de Lego.

“Você pode apresentar isso para diferentes públicos com marcas diferentes, mas produzir por trás um trabalho internamente lógico e coerente”, disse Wolanski.

Mas essa estratégia talvez não leve tão cedo ao sistema universalmente compreendido que tornou o PIB tão poderoso. Kaushik Basu, economista da Universidade Cornell e copresidente da comissão da ONU sobre o PIB, disse temer que os países evitem usar indicadores que os façam parecer mal.

“Você não pode esperar que uma nova medida seja adotada voluntariamente, com todos os países aderindo, porque alguns ganham e outros perdem”, disse Basu.

Segundo ele, a ONU deveria incentivar seus Estados-membros a participar. O PIB só ganhou força porque os Estados Unidos o impuseram na conferência de Bretton Woods, ao fim da Segunda Guerra Mundial, quando os países criaram as instituições financeiras internacionais que continuam existindo até hoje.

c.2026 The New York Times Company

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