O mercado brasileiro de crédito passou por um dos ajustes mais intensos dos últimos anos, mas começa a apresentar sinais de estabilização.
Para Jean-Pierre Cote Gil, sócio e gestor da Vinland Capital, o pior ficou para trás — e quem soube esperar agora colhe os frutos de uma entrada mais cautelosa no mercado de papéis privados.
“A gente estava colhendo ainda o efeito da política monetária restritiva e vamos continuar colhendo ao longo do ano, talvez até durante um pedaço do ano que vem”, avaliou o gestor.
“Essas coisas têm um lag”, completou, referindo-se ao tempo que leva para as mudanças na taxa de juros se traduzirem em impacto real na economia.
A análise foi feita durante entrevista ao Stock Pickers, podcast do InfoMoney apresentado por Lucas Collazo.
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Com mais de duas décadas de experiência em crédito, Gil começou a carreira na agência de classificação de risco S&P, onde ficou por 11 anos.
Passou depois pela gestora Western Asset, onde ajudou a estruturar a área de crédito e assumiu, em 2013, o papel de gestor dedicado — algo que ainda era raro no setor.
Em 2017, migrou para a GPS, hoje Julius Baer. Em 2022, ingressou na Vinland para criar do zero a plataforma de crédito estruturado da casa, que hoje gere cerca de R$ 14 bilhões em estratégias diversas.
Da agência de risco à gestão
A trajetória de Gil no mercado financeiro tem uma influência familiar clara.
Seu pai construiu carreira em bancos comerciais durante mais de 40 anos, passando por instituições como Mercantil de São Paulo e Itaú BBA.
“Era uma referência para mim o que ele fazia”, lembrou.
A porta de entrada para o mercado veio por indicação de amigos da família. Regina Nunes, que presidia a S&P no Brasil quando a agência foi instalada por aqui, no final dos anos 1990, convidou o jovem recém-formado para uma vaga de estágio.
Na S&P, Gil acompanhou de perto o nascimento do mercado de crédito estruturado no Brasil.
Quando migrou para a área de securitização, em 2007, o ambiente era de quase ausência de referências.
“Cada dia um critério novo, tropicalizando coisas de fora para poder analisar”, descreveu.
O desafio era criar metodologias para avaliar instrumentos sem paralelo claro no exterior — como os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios, os FIDCs, de empresas de antecipação de recebíveis.
São os chamados FIDCs multissacado, que Gil compara a “minibancos dentro de um instrumento menos regulado que um banco”.
O retrato do crédito hoje
Para o gestor, o principal erro que o investidor pode cometer no atual cenário é confundir os dados de inadimplência da economia real com o universo em que os fundos de crédito de mercado de capitais efetivamente operam.
“A amostra não significa o universo que você investe”, alertou, referindo-se aos índices de recuperação judicial e de calotes de pessoas físicas.
“Pode não estar pegando a empresa grande ali, que é listada, que tem um balanço bem estruturado e está com a alavancagem controlada. Mas pega o fornecedor dela, pega o cliente dela.”
Ainda assim, o gestor não subestima o problema.
Para ele, o endividamento elevado de famílias e empresas, somado ao custo de capital nas alturas, está na raiz do crescimento medíocre do Brasil na última década.
“O Brasil ficou meio parado. O mundo cresceu, mercados emergentes desenvolveram muito, mercados maduros cresceram muito. Olha o tamanho das bolsas de valores pelo mundo”, disse, fazendo um paralelo entre a estagnação local e o avanço global.
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