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Emirados Árabes e Irã retomam diálogo presencial para reduzir tensões

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 3 horas)
Emirados Árabes e Irã retomam diálogo presencial para reduzir tensões

Emirados Árabes Unidos e Irã realizaram nesta semana a primeira reunião presencial entre autoridades de segurança nacional desde o início da guerra entre EUA, Israel e Teerã, segundo pessoas com conhecimento do assunto.

O encontro representa uma mudança importante na postura dos dois lados e reflete um reconhecimento crescente de que uma relação bilateral menos tensa se tornou necessária, disseram as fontes, que pediram anonimato por se tratar de negociações sensíveis.

Do lado dos Emirados, o objetivo é evitar que a escalada militar comprometa planos econômicos ambiciosos, como os investimentos bilionários em expansão da produção de petróleo e em data centers ligados à inteligência artificial. Para o Irã, a relação também é relevante: antes da guerra, os Emirados estavam entre os principais parceiros comerciais da República Islâmica e funcionavam como uma rota importante para o escoamento do petróleo iraniano sob sanções.

Segundo as fontes, o novo contato de Abu Dhabi com Teerã foi motivado sobretudo pela tentativa dos Emirados de buscar uma distensão com um regime que considera inimigo, mas que avalia não ser possível remover do poder.

Desde o início da guerra, no fim de fevereiro, o Irã atacou os Emirados mais do que qualquer outro país. Abu Dhabi respondeu em várias ocasiões e adotou a postura mais dura entre os vizinhos árabes em relação à República Islâmica. Agora, porém, os Emirados parecem seguir a trilha de Catar e Arábia Saudita, que também foram atingidos pelo Irã e por grupos aliados, mas passaram a apostar na diplomacia para tentar reduzir a tensão.

Riad, que teve instalações de energia e bases militares atingidas, retomou no começo de abril o contato com Teerã no nível de chanceleres. Já o Catar, alvo de um grande ataque à instalação de gás natural de Ras Laffan, tem sido o mais ativo na tentativa de reaproximação. O país recebeu uma delegação iraniana no fim do mês passado e vem ampliando seu papel de mediador entre Washington e Teerã.

Os três países árabes sabem que precisam conviver com um vizinho do outro lado do Golfo Pérsico que tem 90 milhões de habitantes e peso militar relevante, mesmo após os danos provocados pelos bombardeios de EUA e Israel.

Os ataques iranianos colocaram em risco a ascensão de Dubai e Abu Dhabi como polos de hedge funds e outras instituições financeiras. O conflito também afetou as vendas de petróleo e o turismo, dois pilares da economia emiradense.

Uma das fontes disse que a reunião desta semana foi o resultado de várias tentativas do Irã de restabelecer um diálogo de alto nível com Abu Dhabi. Os Emirados vinham resistindo, segundo essa pessoa, até terem certeza de que os interlocutores tinham acesso direto ao novo líder supremo, Mojtaba Khamenei, e à poderosa Guarda Revolucionária Islâmica.

Vários líderes iranianos, incluindo Ali Khamenei, antecessor e pai de Mojtaba, morreram na guerra. Os EUA já afirmaram que é difícil saber com clareza quem está no comando agora.

O único outro contato conhecido entre Emirados e Irã durante a guerra aconteceu em meados de abril, pouco depois de um cessar-fogo. Na ocasião, o vice-presidente dos Emirados, xeque Mansour bin Zayed, conversou com o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, sobre formas de aliviar a tensão regional.

Depois dessa ligação e de uma visita do príncipe herdeiro dos Emirados, xeque Khaled bin Mohammed, ao presidente chinês Xi Jinping, em Pequim, foi aberto um canal de comunicação, disse uma das fontes.

A política externa dos Emirados é guiada pela busca de descompressão e pela redução das tensões no Oriente Médio, além da defesa de uma paz duradoura e de maior estabilidade, afirmou uma autoridade à Bloomberg, sob condição de anonimato, em linha com as regras do governo.

Segundo essa fonte, os Emirados apoiam esforços — inclusive dos EUA — para proteger a população da região dos efeitos da guerra.

A reunião desta semana reforça uma nova inflexão na postura de Abu Dhabi. No fim de maio, o presidente Sheikh Mohamed bin Zayed se juntou aos líderes do Catar e da Arábia Saudita ao pedir ao presidente americano, Donald Trump, que não retomasse hostilidades em larga escala contra o Irã e desse mais uma chance às negociações.

Desde o início da guerra entre EUA, Israel e Irã, Teerã lançou quase 3 mil mísseis e drones contra os Emirados. A imensa maioria foi interceptada por um sistema avançado de defesa, com apoio de aliados como EUA, Reino Unido, França e Israel. Ainda assim, ao menos 13 pessoas morreram, e instalações de petróleo e gás, portos e hotéis sofreram danos de bilhões de dólares.

A liderança dos Emirados tratou os ataques iranianos — incluindo o bombardeio à usina nuclear de Barakah, a oeste de Abu Dhabi, no mês passado, por milícias iraquianas apoiadas por Teerã — como atos de terrorismo sem provocação.

Isso levou o país a adotar uma linha mais dura no início da guerra. Além dos ataques contra o Irã, Abu Dhabi tentou, sem sucesso, convencer Arábia Saudita e Catar a montar uma resposta conjunta para conter Teerã, segundo a Bloomberg News.

Mas o fechamento prolongado do Estreito de Ormuz, a fragilidade do cessar-fogo desde o início de abril e o avanço lento das negociações entre EUA e Irã mudaram o cálculo de Abu Dhabi, disseram as fontes. Neste momento, a prioridade dos Emirados é limitar novos danos e evitar mais disrupções para a economia e a segurança do país.

Há sinais de que a estratégia pode estar surtindo efeito. O Irã não voltou a atacar os Emirados desde o bombardeio à usina de Barakah. Nesta semana, com a intensificação dos confrontos entre EUA e Irã, Teerã passou a mirar Kuwait, Bahrein e Jordânia.

Na quinta-feira, Trump afirmou que atacaria o Irã pela terceira noite seguida, em meio à frustração com o fracasso nas tentativas de costurar um acordo.

Os Emirados mantiveram relações diplomáticas com o Irã, mas fecharam várias instituições sociais, médicas e educacionais ligadas à República Islâmica em seu território. Também cancelaram vistos de residência de alguns iranianos, embora ainda abriguem centenas de milhares deles.

Anwar Gargash, assessor diplomático sênior do líder emiradense, vem dizendo repetidamente que a confiança com o Irã foi rompida. Segundo ele, qualquer retomada efetiva da relação depende da reabertura incondicional do Estreito de Ormuz e do pagamento de reparações por Teerã. Os Emirados também defendem que um eventual acordo entre EUA e Irã inclua o programa nuclear iraniano, os mísseis balísticos e o apoio a milícias na região.

Embora Trump queira conter o programa nuclear do Irã, os EUA parecem cada vez mais inclinados a deixar de fora as milícias e os mísseis balísticos de um eventual acordo de paz.

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