O mercado brasileiro de crédito privado voltou a oferecer oportunidades, mas a hora não é de correr para montar posições sem critério.
Na avaliação de Jean-Pierre Cote Gil, sócio e gestor da Vinland Capital, há espaço para ganhos à frente, inclusive com fechamento de spreads em determinados papéis. Ainda assim, a seletividade será decisiva para evitar perdas relevantes.
A cautela se explica pelo comportamento recente do mercado. Spreads que abriram com força em alguns setores já se fecharam parcialmente, enquanto segmentos como saúde, varejo e infraestrutura passaram a exigir leituras mais específicas.
O setor de saúde chamou atenção pela piora de fundamentos. O varejo, pela falta de garantias sólidas em caso de crise. E a infraestrutura, por ter saído de prêmios historicamente baixos para uma correção que, embora relevante, não repete a magnitude vista após os escândalos de 2023.
Quem fez esse diagnóstico foi Cote Gil em entrevista ao Stock Pickers, programa do InfoMoney apresentado por Lucas Collazo.
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Na conversa, que percorreu desde a análise setorial até os planos de expansão da gestora, o executivo detalhou a lógica por trás das escolhas de crédito da Vinland e sua visão para os próximos anos do mercado.
“Estou vendo ganhos pela frente, não é só carrego, tem fechamento para ter, dependendo do setor e empresa, mas é uma coisa com cautela”, afirmou o gestor.
Para ele, o momento atual não se compara ao período pós-Americanas (AMER3) e Light (LIGT3), quando os prêmios explodiram e voltaram a fechar com velocidade.
“Não é o melhor momento que eu já vivi de oportunidade de crédito, é um momento de oportunidade”, ponderou.
Nesse ambiente, os fundos estruturados de recebíveis, os chamados FIDCs, ganham protagonismo como alternativa que combina prêmio de liquidez com uma estrutura jurídica diferente da dívida corporativa convencional.
Segundo gestores especializados, esses veículos chegam a pagar entre 100 e 200 pontos-base ao ano acima de ativos de risco equivalente. A diferença não reflete necessariamente mais risco de crédito, mas sim menor liquidez e o desconhecimento que ainda cerca esse mercado.
Varejo longe do radar, infraestrutura ainda atrai
O varejo aparece como um dos setores que naturalmente afastam os gestores de crédito.
A lógica é simples: margens apertadas, alta sensibilidade aos juros, dependência de crédito ao consumidor e pouco ativo real no balanço.
As lojas, na maioria dos casos, são alugadas, não próprias. Em um evento de estresse, o credor fica sem garantias concretas para executar.
“Pode pegar as histórias tristes do varejo dos últimos anos: o nível de recuperação de crédito é muito baixo quando acontece”, disse Cote Gil.
O problema se agrava porque as empresas do setor sabem que, ao entrar com pedido de recuperação judicial, os fornecedores param de abastecer e passam a exigir pagamento à vista.
“Se você não tiver capital de giro para rodar, você morre no caminho”
Já a infraestrutura segue como o grande lastro do crédito brasileiro.
O gestor reconhece que os prêmios abriram depois de virem de níveis “absurdamente fechados”, mas avalia que a correção foi mais técnica do que estrutural.
Com centenas de bilhões em investimentos previstos nos próximos anos, o setor continua atraindo quem busca previsibilidade por meio de contratos de longo prazo.
“Infraestrutura é o puxador aqui do nosso carro”, resumiu.
O setor de saúde é outro que merece atenção redobrada.
Cote Gil reconheceu que houve exagero na abertura dos spreads, mas ponderou que parte da deterioração reflete fundamentos reais.
“Teve exagero, mas tem uma parte que fica: quando volta, volta para um novo patamar”, observou.
A seletividade, portanto, é palavra de ordem.
Para o gestor, há oportunidades no crédito privado, mas elas não estão distribuídas de forma homogênea entre setores e empresas. Quem errar na escolha dos ativos pode amargar perdas capazes de comprometer até dois anos de retorno.
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