A inflação voltou a ocupar o centro das preocupações no Brasil. Juros altos, mercado de trabalho aquecido, estímulos do governo, expectativas de inflação em piora e a alta do petróleo formam uma combinação que, na avaliação da XP Asset Management, acende um alerta para os próximos meses.
O diagnóstico foi feito durante live promovida pela XP Asset Management no YouTube, com a participação do economista-chefe Thales Maion, do CIO da XP Inc. (XPBR31), Arthur Wichmann, e do gestor de capital de risco Romero Rodrigues.
Maion não poupou palavras para descrever o cenário. “Todos os vetores estão andando na direção errada e estão atingindo patamares preocupantes”, afirmou.
A projeção da casa é de inflação de 5,4% em 2026 e de 4,5% em 2027 — números próximos ao teto da meta e com riscos adicionais no radar. Para o economista, o quadro reúne pressões domésticas persistentes e choques externos que podem dificultar o trabalho do Banco Central.
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Um pé no freio e outro no acelerador
Segundo Maion, o Banco Central enfrenta um paradoxo. Enquanto a autoridade monetária mantém juros elevados para tentar conter a demanda e trazer a inflação de volta à meta, o governo atua na direção oposta, com medidas de estímulo à economia.
“A gente está num cenário em que tem um pé no freio e o outro no acelerador”, resumiu.
De acordo com o economista, só em 2026 o governo já anunciou mais de R$ 180 bilhões em medidas de estímulo, incluindo corte de imposto de renda, crédito para caminhoneiros, Minha Casa Minha Vida e outros programas.
Na prática, esse impulso fiscal tende a sustentar a atividade econômica e o consumo, justamente no momento em que o Banco Central busca esfriar a demanda. O resultado é um ambiente mais difícil para reduzir a inflação de forma consistente.
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Inflação que não obedece
O ponto mais sensível, segundo Maion, não está apenas no preço dos combustíveis ou nos efeitos da guerra no Irã. A principal preocupação é a inflação de serviços — componente mais ligado ao mercado de trabalho, à renda das famílias e ao ritmo da demanda interna.
Esse tipo de inflação costuma ser mais persistente, porque depende menos de choques pontuais e mais da dinâmica da economia doméstica. Segundo o economista, a inflação de serviços está rodando próxima de 6% ao ano e voltou a acelerar nos últimos meses.
“A gente não consegue ver uma desinflação sustentada de serviços na economia brasileira”, disse Maion.
O mercado de trabalho aquecido ajuda a explicar essa resistência. Com o desemprego perto das mínimas históricas, na casa de 5,5%, os salários crescem quase 5% ao ano em termos reais. A renda maior sustenta o consumo, o que é positivo para as famílias, mas também aumenta a pressão sobre os preços.

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Guerra no Irã piora cenário já pressionado
A guerra no Irã entrou nessa equação como um agravante. O conflito pressiona o preço do petróleo, que afeta diretamente combustíveis e derivados, além de encarecer custos de transporte, produção industrial e itens ligados à cadeia petroquímica, como plásticos.
Para Maion, porém, a piora não começou com o conflito. A guerra apenas intensificou um quadro que já vinha se deteriorando desde a virada do ano.
“A guerra exacerbou apenas a piora que a gente estava vendo na virada do ano”, afirmou.
Esse ponto indica que o problema inflacionário não depende apenas de um choque externo passageiro. Na avaliação da XP Asset, há fatores domésticos e externos sustentando a pressão sobre os preços.
Expectativas também preocupam
Outro sinal de alerta está nas expectativas de inflação. Quando consumidores, empresas e investidores passam a esperar inflação mais alta no futuro, a própria dinâmica de formação de preços pode mudar.
Empresas tendem a antecipar reajustes, trabalhadores buscam recomposição salarial e contratos passam a incorporar uma inflação mais elevada. Com isso, a inflação esperada pode acabar alimentando a inflação efetiva.
“Isso sugere que o choque da guerra está tendo um efeito que o livro-texto diz que deve ser combatido pela política monetária”, disse Maion.
Para o Banco Central, esse é um ponto especialmente sensível. Se as expectativas seguem pressionadas, fica mais difícil adotar uma postura mais branda na política monetária, mesmo em um ambiente de juros já elevados.
Banco Central fica sem espaço para alívio
A combinação de serviços pressionados, mercado de trabalho forte, estímulos fiscais, petróleo mais caro e expectativas elevadas reduz o espaço para um alívio monetário mais rápido.
Esse quadro tende a reforçar a necessidade de cautela do Banco Central, justamente para evitar que a inflação volte a se afastar da meta de forma mais persistente.
O alerta de Maion é que o cenário ainda não representa uma explosão imediata dos preços, mas reúne ingredientes suficientes para preocupação. A bomba-relógio da inflação, na leitura da XP Asset, já está armada.
E, se todos os vetores continuarem andando na direção errada, o trabalho para desarmá-la pode ficar cada vez mais difícil.
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