Um número que, em condições normais, seria motivo de comemoração causou estragos nos mercados nesta sexta-feira (5). Os Estados Unidos criaram 172 mil vagas de emprego em maio, mais que o dobro da estimativa de consenso, que variava entre 80 mil e 85 mil. A reação foi imediata: juros brasileiros dispararam para as máximas do ano, o Ibovespa abriu em queda, o dólar subiu, e Wall Street aprofundou as perdas. Mas por que isso aconteceu?
Para entender, é preciso olhar para a economia americana. Quando muita gente está empregada e ganhando bem, as pessoas tendem a consumir mais, e o consumo em alta pressiona os preços para cima, o que alimenta a inflação. O que problema é que, nos EUA, a inflação já está próxima de 3,8%, acima da meta do banco central, que é de 2%. E o conflito no Oriente Médio agrava o quadro, porque mantém o petróleo acima de US$ 90 o barril e encarece transportes e insumos.
Diante desse cenário, um mercado de trabalho mais aquecido do que o esperado é um sinal de alerta. Ele sugere que a economia americana não está desacelerando o suficiente para que a inflação ceda por conta própria, o que pode forçar o Federal Reserve (o BC americano) a agir, seja mantendo os juros altos por mais tempo, seja voltando a aumentá-los.
O que o Fed tem a ver com a sua carteira
Os juros americanos funcionam como uma espécie de piso global para o custo do dinheiro. Quando o Fed sobe os juros, os títulos do governo americano, os chamados Treasuries, passam a render mais. Isso torna os EUA um destino mais atraente para o capital internacional, e os investidores tendem a migrar de ativos considerados mais arriscados (como ações e títulos de países emergentes, como o Brasil) para essa renda fixa americana mais segura e mais rentável.
O efeito foi visível nesta sexta. Os rendimentos dos Treasuries de dois anos subiram cerca de 10 pontos-base, para 4,15%. Nos mercados de apostas sobre juros futuros, a probabilidade de que o Fed aumente os juros em dezembro saltou de 48% para 65%, e nos mercados monetários, a chance de aperto ainda em 2026 já é precificada em 98%.
A consequência imediata é aversão a risco. Nas bolsas de Nova York, o Dow Jones caía 0,61%, o S&P 500 perdia 1,45% e o Nasdaq recuava 2,42%. As ações de semicondutores sofreram as maiores perdas. Já o Bitcoin (BTC) chegou a recuar 5,5% na mínima do dia, operando a cerca de US$ 60.200, o menor patamar desde outubro de 2024, testando um nível considerado um suporte crítico pelo mercado.
Essa lógica atravessa o Atlântico rapidamente. No Tesouro Direto, os juros prefixados atingiram as maiores taxas do ano. O Tesouro Prefixado 2029, por exemplo, passou de 14,37% na quarta-feira para 14,52% nesta sexta, alta de 15 pontos-base e novo pico desde o início das negociações do papel.
“A principal questão agora é avaliar se o choque inflacionário provocado pelo petróleo terá caráter temporário. Caso esse movimento seja revertido, o Fed poderá manter os juros no nível atual até uma normalização do ambiente internacional”, avalia André Valério, economista sênior do Inter. “Ainda assim, na margem, ganha força o cenário em que o Fed possa ser levado a retomar o ciclo de alta de juros, caso as pressões inflacionárias persistam”, diz.
O Ibovespa abriu em queda, cedendo 0,53% por volta das 10h10, a 169.424 pontos. O dólar, que operava levemente abaixo na abertura, inverteu o sinal e passou a subir, com o dólar à vista avançando 0,42%, para R$ 5,088. O movimento reflete a fuga de capital para ativos considerados mais seguros, especialmente os Treasuries, o que valoriza a moeda americana frente às demais.
Andressa Durão, economista do ASA, pondera que nem todos os componentes do relatório indicam um mercado excessivamente aquecido: a taxa de desemprego ficou estável em 4,3% e os salários desaceleraram para 3,4% em 12 meses. Ainda assim, ela reconhece que o quadro se deteriora.
Todos de olho em Warsh
O dado chega em um momento particularmente sensível: a reunião do Fed marcada para os dias 16 e 17 de junho será a primeira presidida por Kevin Warsh, o novo chairman indicado pelo presidente Donald Trump.
Para Vinícius Flores, analista da Stratton Capital, o encontro “deve dar o tom da condução da política monetária americana pelos próximos meses”. Trump, por sua vez, criticou a reação dos mercados em publicação na Truth Social. “Com um relatório de empregos ótimo, como o que acabou de ser anunciado, as ações deveriam ir para cima, não para baixo. Crescimento não significa inflação”, escreveu o republicano.
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