Os dados do payroll divulgados nesta sexta-feira (5) surpreenderam os economistas e reacenderam o debate sobre uma possível alta de juros nos Estados Unidos. Em maio, foram criadas 172 mil novas vagas não-agrícolas, bem acima da estimativa de consenso do Dow Jones, de 80 mil, e da pesquisa da Reuters, de 85 mil.
A reação foi imediata nos mercados. Os títulos do Tesouro americano sofreram queda expressiva, elevando os rendimentos dos papéis de dois anos em cerca de 10 pontos-base, para 4,14%. No Brasil, as taxas nominais dispararam para as máximas do ano.
O resultado foi puxado pelo setor privado, responsável por 120 mil das vagas abertas. O dado de abril também foi revisado para cima, de 115 mil para 179 mil postos, levando a média móvel dos últimos três meses a 188 mil contratações. Para Claudia Moreno, do C6 Bank, o desempenho sugere aceleração nas contratações, não uma acomodação.
O dado também alterou as apostas sobre o próximo ciclo de juros. Segundo a Reuters, o mercado futuro já precifica 65% de probabilidade de aumento de ao menos 0,25 ponto percentual em dezembro, ante 48% antes da divulgação. Nos mercados monetários, a expectativa de aperto ainda em 2026 já domina, com 98% de probabilidade.
Para a próxima reunião do Fed, marcada para os dias 16 e 17 de junho, a expectativa segue sendo de manutenção dos juros, com 96,2% do mercado apostando nessa direção, segundo a ferramenta FedWatch.
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Boas notícias, má sinalização
A taxa de desemprego ficou estável em 4,3% e os salários desaceleraram para 3,4% em 12 meses, em linha com o esperado. Para Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad, o resultado afasta o risco de recessão, mas abre outra preocupação. “O número afasta o fantasma da recessão nos EUA, mas pode ter um efeito de ‘good news is bad news’, à medida que pode motivar o Fed a apertar os cintos e manter juros altos por ainda mais tempo, conforme um mercado de trabalho aquecido tende a pressionar a inflação”, afirma.
Andressa Durão, economista do ASA, pondera que a estabilidade no desemprego e a desaceleração dos salários não indicam, por si só, riscos inflacionários relevantes, mas reconhece que o quadro está se deteriorando. “O cenário para a taxa de juros segue sendo de manutenção este ano, mas os riscos para a inflação decorrentes do prolongamento do conflito no Oriente Médio aumentam cada vez mais a probabilidade de alta de juros pelo Fed”, avalia.
André Valério, economista sênior do Inter, reforça que os dados não apontam para desaceleração do mercado de trabalho no curto prazo. Para ele, a inflação ainda próxima de 3,8% e as expectativas pressionadas colocam em aberto se o choque do petróleo terá caráter temporário. “Caso esse movimento seja revertido, o Fed poderá manter os juros no nível atual até uma normalização do ambiente internacional e, ainda assim, ganha força o cenário de que o Fed possa ser levado a retomar o ciclo de alta de juros se as pressões inflacionárias persistirem”, diz.
Claudia Moreno, economista do C6 Bank, avalia que mercado de trabalho forte, inflação pressionada e continuidade do conflito no Oriente Médio reduzem o espaço para cortes de juros e elevam a probabilidade de aperto ainda em 2026, embora a projeção base do banco ainda seja de manutenção no patamar atual de 3,5% a 3,75% até o fim do ano.
A próxima reunião tem peso adicional: será a primeira presidida pelo novo chairman do Fed, Kevin Warsh. Para Vinícius Flores, analista da Stratton Capital, o encontro “deve dar o tom da condução da política monetária americana pelos próximos meses”.
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