A diferença (spread) entre os juros pagos pelas debêntures de empresas e os dos títulos públicos, um indicador do nível de risco e do apetite dos investidores por papéis privados, parou de subir em maio e chegou a ceder em alguns casos depois da forte alta em março e abril, mostra levantamento da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) divulgado nesta sexta-feira (5).
A análise leva em conta o spread médio calculado pelo Índice de Debentures Anbima (IDA), e mostra que, apesar do recuo, o diferencial de remuneração para papéis públicos segue em patamar elevado, próximo das máximas do ano.
O spread médio chegou a alcançar maior nível do ano, 1,12%, entre os dias 27 e 29 de abril. Depois, a alta perdeu força nos primeiros dias de maio e o spread terminou o mês em 1%, perto do registrado em 6 de abril.

Após as recuperações extrajudiciais de Raízen (RAIZ4) e GPA (PCAR3) alimentaram temores entre investidores e impulsionaram saques em fundos de crédito, que venderam papeis para honrar os resgates e pressionaram os spreads para cima. Também contribuíram os efeitos da guerra no Irã sobre a inflação, o que levou o Banco Central a reduzir o ritmo de corte na taxa básica Selic, mexendo com as taxas longas de juros.
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Segundo a Anbima, o movimento dos spreads não foi homogêneo, apresentando variações de acordo com as características das diferentes debêntures. Nos papéis com remuneração atrelada ao CDI, reunidos no índice IDA-DI, o movimento foi menos intenso e mais rápido, como mostra o gráfico. O pico aconteceu nos dias 14 e 15 de abril e foi seguido de uma acomodação.

Já nos títulos que pagam a inflação mais juros, que compõem o IDA-IPCA, e, especificamente nas debêntures de infraestrutura, a alta foi mais intensa e a reversão está tomando mais tempo, como indica o gráfico. “É um movimento esperado, já que os investimentos em debêntures IPCA têm expectativa de prazo mais longo quando comparados aos atrelados ao CDI”, diz Leonardo Medina, gerente de Preços e Índices da Anbima. Por essa característica, são títulos com preços mais sensíveis às mudanças das condições de mercado e das perspectivas econômicas.
Gangorra dos spreads
Segundo a Anbima, a disparada dos spreads de papéis privados a partir de março chamou a atenção porque o mercado vinha de um segundo semestre do ano passado com spreads em níveis historicamente baixos. Nesse período, houve uma corrida dos investidores para comprar esses papéis isentos após o governo propor tributar esses ativos pela Medida Provisória 1.303, de junho de 2025, e que acabou não sendo aprovada.
Ao mesmo tempo, o volume de emissões das empresas cresceu para um nível inédito e com remuneração cada vez menor. O total captado via debêntures com incentivo fiscal atingiu R$ 175 bilhões no quarto trimestre de 2025, o maior da série histórica da Anbima, iniciada em 2012. Os spreads caíram tanto que chegaram a ficar negativos, ou seja, os títulos passaram a pagar menos que os juros do Tesouro. Com o grande volume captado, as empresas também reduziram a necessidade de caixa e os spreads continuam baixos mesmo após a rejeição da MP 1.303 e no início deste ano.
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Segundo a Anbima, um exemplo foi o IDA-IPCA Infraestrutura, que manteve spread médio abaixo de zero praticamente o tempo todo entre agosto de 2025 e março deste ano, chegando a alcançar a marca histórica de -0,50% em outubro de 2025.
Para Medina, já existia uma expectativa de que houvesse correção para cima nos spreads, que se acentuou após o conflito no Irã e as dificuldades de empresas emissoras.

Intensidade não impressiona
Mas, se a alta foi forte em relação a 2025, não foi tanto se comparada à média histórica. O spread médio do IDA-DI nos últimos 12 meses foi de 1,36%, uma distância de 0,35 ponto percentual para o pico registrado em 14 e 15 de abril. No IDA-IPCA, o spread médio foi de 0,07% em 12 meses, uma diferença de 0,49 ponto percentual em relação ao patamar mais alto deste ano, atingido em 22 de maio.
Em comparação com outros momentos de volatilidade do mercado de crédito, o movimento foi menos intenso, afirma Medina. Em 2023, por exemplo, o spread do IDA-DI saltou de uma média de 1,53% nos seis meses anteriores à recuperação judicial das Lojas Americanas para 2,66% no auge da crise, em fevereiro de 2023, contabilizando mais de um ponto percentual de diferença.
Em maio, o volume de emissões também foi menor, o que pode ajudar a reduzir os spreads. Segundo levantamento do Bradesco BBI, as emissões totais de debêntures no mês passado atingiram R$ 13,2 bilhões, uma queda de 33% sobre abril e de 64% sobre o mesmo mês do ano passado. As emissões de debêntures incentivadas somaram R$ 5,2 bilhões, queda de 40% no mês, com duas ofertas apenas, com spreads mais abertos e momento de mercado menos favorável.
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