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Crédito bancário lento e alta de custos freiam construção civil e impulsionam FIDCs

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 3 horas)
Crédito bancário lento e alta de custos freiam construção civil e impulsionam FIDCs

A construção civil convive com um estrangulamento operacional que ameaça a viabilidade e o andamento de empreendimentos em todo o país. Operando sob um ambiente de juros e de inflação elevados, o setor lida hoje com prazos longos para a liberação de recursos na rede bancária tradicional, que podem chegar a cerca de 90 dias, segundo fontes ligadas à área. Esse hiato afeta o caixa das incorporadoras, compromete o cronograma físico das obras e redireciona a gestão financeira das empresas para o mercado de capitais.

O cenário reflete nas projeções da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC). Apesar de o setor ter registrado um bom desempenho no primeiro trimestre de 2026, impulsionando a geração de mais de 120 mil vagas e mantendo a marca de 3 milhões de trabalhadores formais, a entidade reduziu a estimativa de crescimento para o ano, de 2% para 1,2%. O diagnóstico aponta para a alta de custos com materiais, influenciada pelo preço do petróleo e tensões no Oriente Médio, que elevou o INCC-M (que mede os custos do setor) em 1,4% apenas em abril. Além disso, a manutenção de uma taxa Selic projetada na casa dos 13% ao fim do ano voltou a ser o principal obstáculo para uma atividade intensiva em capital.

“Na construção civil, crédito não é apenas preço. É prazo, previsibilidade e aderência ao cronograma. Uma taxa aparentemente menor pode sair cara se o recurso chega tarde demais para cumprir uma etapa crítica da obra”, afirma André Caruso, CEO da Pilar Capital.

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O gargalo do financiamento tradicional

Os dados do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE), compilados pela Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip), mostram a inconstância no financiamento para construtoras e incorporadoras nos últimos anos. Em 2024, o volume atingiu o pico recente de R$ 46,2 bilhões (176.838 unidades). No ano fechado de 2025, houve um recuo para R$ 30,8 bilhões (117.104 unidades).

Embora o primeiro quadrimestre de 2026 tenha mostrado uma recuperação no crédito tradicional, alcançando R$ 14,4 bilhões contra R$ 5,6 bilhões no mesmo período de 2025, a lentidão no repasse transforma a burocracia bancária em obstáculo na operação. A espera de três meses força construtoras a paralisar etapas do projeto e a adiar compras essenciais, como aço e concreto. A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) não confirma o tempo médio de espera de concessão de crédito, afirmando que cada instituição bancária lida com seus prazos internos.

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Crédito estruturado na contramão do mercado

A incompatibilidade entre a urgência do canteiro e a morosidade bancária vem aquecendo a busca por alternativas. Segundo a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), o mercado de crédito privado movimentou R$ 192,8 bilhões no primeiro trimestre de 2026, alta de 22,5% sobre o ano anterior.

O destaque vai para os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs). Em abril, a indústria geral de fundos registrou um resgate líquido de R$ 18,1 bilhões. A renda fixa perdeu R$ 19,3 bilhões, enquanto os multimercados perderam R$ 5,4 bilhões. Na contramão, os FIDCs registraram a maior captação mensal do mercado, com entrada líquida de R$ 4,5 bilhões, acumulando saldo positivo de R$ 12,1 bilhões no ano.

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Na prática, o FIDC compra ou estrutura recebíveis — como contratos, parcelas de vendas e duplicatas — transformando esse fluxo futuro em liquidez imediata para as empresas.

“O dado de abril mostra que o investidor está olhando para o FIDC como uma estrutura de crédito conectada à economia real. O FIDC transforma o fluxo em uma carteira acompanhada por regras, controles e governança, permitindo que o capital chegue de forma mais estruturada às empresas e ofereça ao investidor uma exposição diferente daquela encontrada em fundos mais tradicionais”, explica Vicente Guimarães, Diretor de RI do Grupo IOX.

Para as incorporadoras de médio porte, que possuem viabilidade técnica mas esbarram nos grandes bancos, esse modelo pode ser uma boa saída para o fluxo de caixa. “O FIDC ganhou espaço porque responde a duas necessidades do mercado brasileiro. De um lado, empresas buscam alternativas em um ambiente de juros altos. De outro, investidores procuram instrumentos com lastro, previsibilidade e análise de risco mais detalhada”, completa Guimarães.

A Pilar Capital, por exemplo, atua com projetos imobiliários de R$ 5 milhões a mais de R$ 300 milhões. Por meio de um FIDC gerido pela Artesanal Investimentos, a empresa mantém hoje mais de 100 empreendimentos sob monitoramento, viabilizando projetos que somam um Valor Geral de Vendas (VGV) superior a R$ 3 bilhões.

“O setor imobiliário não pode depender de um modelo único de financiamento quando o ciclo da obra exige decisões rápidas”, conclui Caruso.

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