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CDI é livre de risco? Estudo propõe novas referências para investidores no Brasil

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 3 horas)
CDI é livre de risco? Estudo propõe novas referências para investidores no Brasil

Um novo estudo com foco no mercado brasileiro, resultado de parceria da XP com o Atlantiqis, coloca em xeque uma das premissas mais difundidas entre investidores: a ideia de que o CDI representa “o ativo livre de risco”.

De acordo com o estudo “Repensando o ativo sem risco”, essa visão pode não ser adequada para a grande parte dos investidores — e levar à perda de poder de compra ao longo do tempo.

A análise – assinada por Artur Wichmann, Chief Investment Officer da XP Inc., Ruy Ribeiro e Eduardo Marinho, da Atlantiqis Consulting -, conclui que o verdadeiro ativo livre de risco depende do horizonte e dos objetivos do investidor.

Para quem busca preservar riqueza real — como famílias, poupadores ou fundos de previdência —, o papel deveria ser desempenhado por uma carteira de títulos indexados à inflação, e não por aplicações atreladas à taxa CDI.

CDI falha em proteger o patrimônio real

O trabalho apresenta evidências de que o CDI não cumpriu o papel de proteger o poder de compra em momentos recentes. Entre 2020 e 2021, por exemplo, o retorno real foi negativo, em meio ao choque inflacionário da pandemia.

No período mais amplo de 2019 a 2023, o ganho nominal acumulado foi praticamente anulado pela inflação, resultando em estagnação do patrimônio real.

De acordo com os autores, esse comportamento não é pontual. Episódios de estagflação, repressão financeira e crises de liquidez historicamente corroem retornos reais de ativos nominais de curto prazo — categoria na qual o CDI se enquadra.

Títulos atrelados à inflação X CDI

Em contrapartida, títulos indexados ao IPCA — representados por índices como IMAB5 e IMAB5+ — se mostraram mais eficientes na preservação do patrimônio real. Entre 2010 e 2026, esses ativos apresentaram retorno real médio superior ao CDI, inclusive em horizontes curtos.

O estudo aponta ainda uma característica importante: o risco desses títulos diminui conforme o horizonte de investimento se alonga. Isso ocorre devido à previsibilidade dos retornos reais e ao efeito de reversão à média, que tende a compensar perdas de curto prazo no longo prazo.

Um dos pontos relevantes do estudo é a análise de objetivos financeiros específicos. Em simulações de asset-liability management (gestão de ativos e passivos), investimentos em CDI frequentemente não foram suficientes para cobrir compromissos futuros ajustados pela inflação, como o pagamento de uma faculdade.

Nesses casos, uma carteira de títulos públicos indexados com vencimentos alinhados ao prazo do objetivo conseguiu “imunizar” o investidor contra a inflação — reduzindo o risco efetivo quase a zero em termos reais.

O resultado não é exclusivo do Brasil. Nos Estados Unidos, o equivalente ao CDI — os títulos de curtíssimo prazo (T-bills) — apresentou retorno real médio negativo nas últimas duas décadas.

Já os títulos protegidos contra a inflação (TIPS) ofereceram a melhor relação entre retorno e risco no período analisado, reforçando a tese de que ativos reais indexados cumprem melhor o papel de “livres de risco” para investidores de longo prazo.

Investir em títulos indexados à inflação implica, em tese, pagar um “prêmio” pela proteção — refletido na diferença entre juros nominais e reais (a inflação implícita). No Brasil, esse prêmio é elevado: em março de 2026, girava em torno de 1,93 ponto percentual ao ano para cinco anos.

Ainda assim, os autores destacam que esse custo tem se mostrado vantajoso. A inflação realizada frequentemente superou as expectativas, compensando o prêmio pago e resultando em retornos reais superiores.

O CDI ainda faz sentido?

O estudo aponta que o CDI não deve ser descartado. Para investidores cuja riqueza excede amplamente suas necessidades futuras — ou seja, sem passivos relevantes —, o CDI pode funcionar como um ativo de liquidez e base de alocação.

Com isso, a visão é de que não existe um único ativo livre de risco válido para todos.

O conceito depende do objetivo do investidor — e, sobretudo, da necessidade de preservar poder de compra no tempo.

Nesse contexto, o CDI protege valor nominal, mas não necessariamente valor real, enquanto títulos indexados ao IPCA oferecem proteção direta contra inflação, sendo que o risco relevante é o descasamento entre ativos e objetivos futuros.

Com a expansão de instrumentos como Tesouro IPCA+, RendA+ e Educa+, o Brasil oferece hoje ferramentas mais alinhadas a essa abordagem — cenário ainda pouco comum em mercados emergentes.

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