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Nem petróleo caro salva: Rússia luta para fechar as contas da guerra na Ucrânia

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 3 horas)
Nem petróleo caro salva: Rússia luta para fechar as contas da guerra na Ucrânia

Altos funcionários do governo alertaram o presidente russo Vladimir Putin de que os gastos com a guerra na Ucrânia estão em uma trajetória insustentável – o sinal mais sério de divisão interna em Moscou desde o início da invasão em grande escala.

Autoridades do Ministério das Finanças e do banco central da Rússia aconselharam o Kremlin de que o nível atual de despesas militares projetadas coloca o déficit orçamentário em risco de se ampliar perigosamente, segundo pessoas com conhecimento do assunto e documentos revisados pela Bloomberg News.

Esses funcionários, cada vez mais preocupados com a situação da economia russa e das contas públicas nos últimos meses, propuseram novos cortes nos gastos de defesa, disseram as fontes. Eles têm recomendado que será difícil consertar as finanças públicas pressionadas do país sem buscar mais eficiência.

Há, porém, um racha entre formuladores de política: altos funcionários do Ministério da Defesa e alguns integrantes do Kremlin, determinados a perseguir os objetivos de guerra de Putin, insistem em proteger o orçamento militar. Reduzir essas despesas, argumentam, prejudicaria a economia, já que muitas empresas dependem de contratos ligados à indústria de defesa.

Putin pediu aos técnicos do Ministério das Finanças que encontrem cortes em outras áreas do orçamento antes de mexer na Defesa, disseram algumas das pessoas. Todas falaram sob condição de anonimato para discutir preocupações cujo alcance ainda não foi tornado público.

O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, não respondeu de imediato a um pedido de comentário.

O Ministério da Defesa não só resiste a cortes como também exige mais recursos, segundo duas pessoas próximas ao governo russo. Os gastos militares terão de subir para cobrir um buraco que pode chegar a 3 trilhões de rublos (US$ 36 bilhões) neste ano, afirmaram.

O presidente está ciente das pressões orçamentárias tanto no ano passado quanto neste, de modo que os desafios não são uma surpresa, disseram as fontes. A escala de eventuais cortes de gastos dependerá exclusivamente de Putin, já que nenhuma grande decisão orçamentária é tomada sem sua aprovação e ele atua como árbitro final, descreveram, chamando isso de uma “regra de ferro”.

Quando o orçamento de 2026 foi elaborado, os responsáveis entenderam que poderia surgir um déficit de cerca de 1,2 trilhão a 1,5 trilhão de rublos na segunda metade do ano, dinheiro que poderia ser necessário para o setor de defesa.

Naquele momento, havia a expectativa de que a guerra na Ucrânia terminasse após a cúpula no Alasca, em agosto passado, entre Putin e o presidente dos EUA, Donald Trump. Essa hipótese tornaria lógica a suposição de reduzir os gastos militares na segunda metade de 2026, segundo as pessoas próximas ao governo russo.

As discussões ocorreram antes e depois do início da guerra entre EUA e Israel no Irã e continuam em curso entre altos formuladores de política e Putin, disseram pessoas familiarizadas. Elas ganharam força à medida que a economia e as finanças da Rússia enfrentam pressão crescente no quinto ano da invasão em grande escala, e mostram que Putin se vê diante de escolhas difíceis ao lidar com alertas internos sobre o impacto da guerra.

O salto dos preços do petróleo provocado pela guerra no Irã não será suficiente para resolver os problemas, afirmaram as fontes próximas ao governo russo. Segundo elas, o petróleo teria de se manter acima de US$ 100 por barril por pelo menos um ano para que a economia melhorasse de forma significativa – e, mesmo assim, esse ganho não resolve os problemas estruturais que afetam crescimento, inflação e o sistema bancário.

Os gastos com Defesa estavam projetados para permanecer amplamente estáveis no plano orçamentário trienal do Ministério da Economia até 2028. Depois de crescer cerca de 30% nos últimos anos para financiar uma grande expansão da produção de armamentos, os setores ligados às encomendas da indústria de defesa estatal deveriam aumentar apenas 4% a 5% em 2026.

A Rússia está à beira da recessão depois de cortar a projeção de crescimento em maio. O Ministério da Economia agora espera que o PIB cresça 0,4% em 2026, ante previsão anterior de 1,3%. Dados oficiais mostram que a economia encolheu no primeiro trimestre, pela primeira vez em três anos.

A piora da perspectiva veio apesar de Putin ter determinado publicamente, em abril, que autoridades do governo explicassem por que a economia estava performando abaixo do esperado. A admissão de que o país enfrenta dificuldades pareceu sinalizar sua frustração com o fracasso em evitar a desaceleração.

O rombo nas contas públicas atingiu um recorde, apesar do salto na receita de petróleo com a guerra no Oriente Médio. O déficit nos quatro primeiros meses do ano chegou a 5,9 trilhões de rublos, ou 2,5% do PIB – cerca de 50% acima da meta para o ano todo, segundo dados oficiais.

Vale lembrar que o orçamento está no vermelho há quatro anos consecutivos e fechou 2025 com um déficit de 5,6 trilhões de rublos. Embora o desequilíbrio ainda esteja bem abaixo dos 3,8% do PIB registrados no ano de pandemia, em 2020, a economia russa, fortemente sancionada, está hoje mais vulnerável, com as reservas do Fundo Nacional de Bem-Estar cerca de 60% abaixo dos níveis anteriores à invasão.

O orçamento atual foi desenhado com premissas relativamente apertadas: leve redução do déficit e queda gradual dos gastos militares. Para preservar esse arcabouço fiscal e cumprir a regra orçamentária, o governo elevou alguns impostos neste ano, tentando reequilibrar uma economia em “modo de guerra” superaquecida.

Como as esperanças de um acordo de paz não se concretizaram, o governo russo agora precisa decidir como lidar com o déficit — o que, na prática, significa cortar despesas ou encontrar novas fontes de receita.

As autoridades são pessimistas quanto à permanência dos preços do petróleo em patamar elevado. A força do rublo também agrava os problemas fiscais, ao reduzir a receita de exportações em moeda local.

O ministro das Finanças, Anton Siluanov, afirmou em entrevista ao jornal Kommersant em 27 de maio que é necessária “certa contenção” nos gastos públicos, apontando a Defesa e as obrigações sociais do governo como prioridades. “As reservas não são infinitas. Fraqueza nas finanças não pode ser tolerada em um contexto de transformações tão amplas no mundo”, disse, acrescentando: “Precisamos melhorar a eficiência dos gastos orçamentários.”

Os gastos do governo subiram quase 16% em relação ao ano anterior no período de janeiro a abril, enquanto as despesas com compras públicas avançaram 41%, de acordo com dados do Ministério das Finanças divulgados em maio. O governo sacou cerca de 500 bilhões de rublos do Fundo Nacional de Bem-Estar nos dois primeiros meses do ano, já que as sanções reduziram a receita com petróleo e gás.

A Rússia estuda um imposto extraordinário sobre alguns produtores de commodities e bancos para ajudar a fechar o buraco nas contas, informou a Bloomberg anteriormente. O governo da cidade de Moscou anunciou cortes em pessoal e investimentos depois que a arrecadação ficou bem abaixo do esperado.

O aprofundamento do rombo fiscal provocou a irritação de um importante parlamentar da câmara baixa na semana passada, embora Valery Gartung, que preside o comitê de proteção à concorrência, tenha negado reportagens segundo as quais ele teria usado um palavrão ao mencionar a hiperinflação que se seguiu ao colapso da União Soviética.

“O que vamos fazer a respeito?”, questionou. “Imprimir dinheiro ou o quê? Como em 1992, quando os preços subiam 30% toda semana? Nós entendemos que essa não é a solução.”

© 2026 Bloomberg L.P.

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