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Advogado que virou gestor de R$ 17 bi conta como o mercado mudou o Brasil

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 5 horas)
Advogado que virou gestor de R$ 17 bi conta como o mercado mudou o Brasil

Um homem que queria ser filósofo, acabou advogando por acidente e hoje comanda uma das maiores gestoras independentes de crédito do país. João Peixoto Neto, CEO e fundador da Ouro Preto Investimentos, tem mais de 30 anos de mercado financeiro e uma trajetória que passa por escritório próprio no centro de São Paulo, uma distribuidora de valores, um banco e, finalmente, uma gestora com cerca de R$ 17 bilhões sob gestão e 140 fundos ativos.

A história foi contada no programa Stock Pickers, apresentado por Lucas Collazo, e começa bem antes do mercado financeiro — começa numa sala de aula da Faculdade de Direito da USP, a famosa São Francisco, fundada em 11 de agosto de 1827 e berço de 17 presidentes da República.

“Direito era uma coisa fácil para mim. Minha família toda era de advogados, juízes. Estava no sangue”, conta Peixoto Neto, que trabalhou com o pai aos 13 anos e entendia a linguagem jurídica como segunda natureza. Mas o direito nunca foi paixão — era, nas suas próprias palavras, “uma forma de ganhar pão”. O que ele queria mesmo era estudar filosofia, ciências sociais, talvez física.

Da advocacia ao mercado de capitais por acidente

Formado, Peixoto Neto abriu o próprio escritório no centro de São Paulo — sem clientes, sem estrutura — porque não queria ter patrão. “Meu pai não tinha patrão, meu avô não tinha patrão. Eu queria ser um profissional liberal mesmo”, diz. Passou por apertos, mas foi aos poucos atraindo um tipo específico de cliente: investidores com papéis perdidos no sistema.

Era um Brasil diferente. Antes dos anos 1990, ações não eram custodiadas na bolsa de forma automática. Quem comprava um telefone recebia ações da Telebrás. Quem tomava dinheiro emprestado no banco ganhava ações do próprio banco. Muita gente nem sabia que tinha esses papéis — e perdia dividendos, que prescrevem em três anos.

Havia também as chamadas empresas incentivadas, criadas pelo governo militar para desenvolver o Nordeste, a Amazônia e o reflorestamento. Fundos como o FINOR e o FISET permitiam que empresas destinassem parte do imposto de renda para projetos regionais e recebessem certificados de investimento em troca.

“Você tinha milhares de investidores que tinham aqueles papéis e não sabiam o que fazer com aquilo”

— João Peixoto Neto, CEO e fundador da Ouro Preto Investimentos.

O home broker que mudou tudo

Foi advogando para esses investidores que Peixoto Neto foi entrando no mercado de capitais. No final dos anos 1990, o mercado começou a mudar de figura com o surgimento do home broker, plataforma que permitiu pela primeira vez que pessoas físicas comprassem e vendessem ações de casa, com agilidade e custos menores.

“A revolução começou com o home broker”, afirma. Antes, uma corretora cobrava 0,5% por operação. Numa compra de R$ 1 milhão em ações da Petrobras (PETR3; PETR4), isso representava R$ 5 mil só de corretagem — ida e volta, R$ 10 mil. Com o home broker, as taxas despencaram e o número de investidores explodiu. As corretoras tradicionais, porém, sangram: o modelo antigo simplesmente não sobrevivia à nova realidade.

Foi nesse cenário que um cliente seu quis montar uma distribuidora de valores, a DTVM. Peixoto Neto foi advogado da operação e, aos poucos, passou a integrar o negócio. Em 2004 e 2005, lançaram o primeiro Fundo de Investimento em Direitos Creditórios, do FIDC — um produto que captava dinheiro de investidores para comprar créditos de empresas, antecipando uma tendência que só se tornaria popular décadas depois.

Banco em ano de crise e nova largada

Em 2008, com o mundo em colapso financeiro, a DTVM pediu autorização ao Banco Central para se transformar em banco. A lógica era simples: só bancos podiam ser custodiantes de fundos e participar do sistema de pagamentos. Era necessário crescer a estrutura para prestar mais serviços ao mercado de capitais.

O momento, porém, era dos piores. “O mundo veio abaixo ali em 2008”, recorda Peixoto Neto. A gestora tinha uma oferta de um FIC FIDC que seria distribuída pelo JP Morgan e pelo Deutsche Bank, com meta de captar R$ 500 milhões. Captaram cerca de R$ 70 milhões. “Ligava pro cara do JP Morgan e ninguém atendia mais. O cara estava demitido, o cara tinha saído.”

Dois anos depois, desentendimentos entre os sócios levaram cada um a seguir caminhos diferentes. Em 2010, Peixoto Neto fundou a Ouro Preto Investimentos ao lado de um sócio que tinha a autorização da CVM para gestão de recursos — algo que ele ainda não possuía, por nunca ter trabalhado formalmente como gestor subordinado a outro.

“Amigos meus que eram diretores de banco, donos de corretora, também não conseguiram a autorização. A regra era clara: tinha que comprovar que trabalhou sob as ordens de um gestor dentro de uma gestora.”

Crédito privado como aposta de longo prazo

Em 2011, a Ouro Preto lançou seu primeiro fundo. Tentou o multimercado — o sonho de toda gestora da época, inspirado na trajetória de Luiz Stuhlberger — mas seguiu o caminho da maioria: sem o sucesso esperado.

“Montavam 90 gestoras por ano e fechavam 89”, resume. O que acabou se tornando o coração do negócio foi justamente o FIDC, produto que Peixoto Neto conhecia desde os primórdios.

Hoje, quinze anos depois do primeiro fundo, a Ouro Preto gere quase R$ 17 bilhões em 140 fundos, com foco em crédito estruturado. O gestor explica que o FIDC funciona como um veículo que capta dinheiro de investidores para comprar créditos originados por empresas — numa lógica que retira o banco do meio e conecta diretamente quem precisa de crédito a quem tem dinheiro para investir.

“Qualquer operação de crédito que você queira fazer, você consegue fazer e vender para um FIDC”, diz. Para o investidor pessoa física, o produto tem atraído interesse pelos benefícios tributários e pela baixa volatilidade — já que não há mercado secundário ativo para esses papéis, a cota não sobe e desce com o humor do dia. A rentabilidade, em geral, fica rodando de forma mais previsível do que a renda variável.

Na avaliação de Peixoto Neto, o mercado financeiro é uma das poucas coisas que genuinamente deu certo no Brasil. “Pessoas que vêm de fora, de empresas de auditoria internacional, chegam aqui e falam que o mercado é bem desenvolvido, as pessoas são bem capacitadas”, conta.

Os bancos brasileiros, diz ele, são sólidos e sempre investiram pesado em tecnologia — uma combinação rara num país com tantas histórias de projetos pela metade.

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