A alta dos juros longos no mundo desenvolvido recolocou a inflação no centro das decisões de investidores globais e acendeu um sinal de alerta para o crédito no Brasil.
Depois de um início de ano marcado pela expectativa de cortes de juros e maior apetite ao risco, gestores passaram a trabalhar com um cenário mais duro: inflação persistente, curvas longas pressionadas e empresas brasileiras mais expostas ao custo elevado da dívida.
A mudança de cenário aparece no movimento coordenado de abertura das curvas longas nos principais mercados globais — Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido e Japão.
Para os gestores, o fenômeno vai além de um choque temporário de petróleo e reflete algo mais estrutural: uma economia mundial sustentada por um ciclo robusto de investimentos em inteligência artificial, capaz de pressionar a demanda por insumos críticos e alimentar a inflação de forma menos evidente.
O tema foi discutido no AfterMarket, programa do Stock Pickers apresentado por Lucas Collazo, com a participação de Andrew Reider, da WHG Asset, e Christian Keleti, da Alpha Key, além da presença especial de Bruno Serra, gestor da estratégia Janeiro, da Itaú Asset.
Serra chegou direto de Nova York, onde passou quase dez dias conversando com fundos estrangeiros durante a Brazil Week. “Passei quase dez dias lá falando com fundo gringo. O tema principal era essa história da inflação. Era o que mais estava incomodando a turma e me pareceu ser o principal ponto que estava gerando tomada de decisão na ponta”, disse Serra.

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Virada de cenário
A virada de percepção fica clara quando se compara o que o mercado esperava em janeiro com o que está precificado agora. No começo do ano, a leitura dominante era de que o Federal Reserve, o banco central americano, já teria iniciado um ciclo de cortes de juros a esta altura, com a taxa caminhando para 3,6% ao fim de 2025.
Hoje, diante de sinais de inflação mais persistente, o mercado já trabalha com a possibilidade de juros mais altos nos Estados Unidos — e os gestores presentes na conversa avaliam que essa reprecificação pode ainda não ser suficiente.
Parte dessa mudança vem do desequilíbrio entre demanda crescente e oferta restrita em setores ligados ao ciclo de inteligência artificial, com efeitos inflacionários que já começam a aparecer nos preços.
O segmento de computadores e eletrônicos, historicamente deflacionário, viu preços de memória dispararem mais de 100% em algumas métricas — movimento que, segundo Reider, afeta desde celulares e computadores até o custo de baterias para carros elétricos.
Nesse contexto, Reider destacou o ETF DRAM, da gestora Roundhill, como exemplo de como investidores estão tentando se posicionar no gargalo de memória da cadeia de inteligência artificial.
O fundo, lançado há pouco mais de um mês com apenas oito a dez ações — a maioria delas fabricantes de chips de memória, como Samsung, SK Hynix e Micron —, captou US$ 10 bilhões em seu primeiro mês de existência. “A receita que ele gera é maior que qualquer asset no Brasil, em um mês”, disse Reider.
Reider atribuiu boa parte desse movimento ao ciclo de investimentos em inteligência artificial, que estaria longe do fim. Na sua avaliação, em comparação com outros grandes ciclos históricos — como os das ferrovias, da eletrificação e da fibra óptica —, o mundo ainda está na fase de construção da infraestrutura básica.
“A gente está muito no começo. O problema não é a demanda, que é quase infinita. O problema é a oferta”, afirmou.
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