Últimas

Como é o conglomerado militar que domina a economia de Cuba e virou alvo dos EUA

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 3 horas)
Como é o conglomerado militar que domina a economia de Cuba e virou alvo dos EUA

A entidade mais poderosa de Cuba não é o Partido Comunista. É um conglomerado sigiloso administrado pelos militares, conhecido como GAESA, que se estima controlar entre 40% e 70% da economia cubana.

Originalmente criado por Raúl Castro para fortalecer o setor de defesa de Cuba, o GAESA evoluiu para um império comercial e se tornou um dos principais alvos da campanha de pressão de Washington contra Cuba.

Leia também: Negócios com Cuba na mira: Suprema Corte dos EUA decide contra cias. de cruzeiro

Seu alcance vai dos melhores hotéis da ilha e boutiques de alto padrão até centros de mergulho recreativo.

Controla centenas de postos de gasolina, empresas de transferência de dinheiro, a única operadora de internet da ilha, casas de câmbio e supermercados — tudo por meio de uma vasta estrutura empresarial chamada CIMEX.

O GAESA também controla um dos maiores bancos comerciais do país, o Banco Financiero Internacional, o que provavelmente dá ao conglomerado domínio sobre as reservas de moeda estrangeira de Cuba.

O GAESA funciona como um Estado dentro do Estado. Não permite que o governo cubano audite suas contas. Todo lucro gerado fica com o próprio GAESA, acumulando recursos fora do banco central cubano e redirecionando o dinheiro para a elite militar que governa o país.

O diretor da CIA, John Ratcliffe, visitou Cuba neste mês para exigir grandes mudanças econômicas e de segurança do governo. A visita ocorreu justamente quando o governo cubano admitiu que suas reservas de petróleo se esgotaram e coincide com esforços de promotores federais para obter uma acusação formal contra Raúl Castro por tráfico de drogas e pelo abatimento de aviões humanitários em 1996.

Neste mês, o presidente Donald Trump assinou uma ordem executiva para ampliar as sanções contra Cuba e atingir o GAESA. A ordem afirma que as receitas do conglomerado “provavelmente superam em mais de três vezes o Orçamento do Estado”.

O secretário de Estado Marco Rubio aumentou a pressão, chamando o GAESA de instrumento da elite política cubana para reprimir a população enquanto enriquece.

O GAESA “é essa empresa privada que tem mais dinheiro do que o próprio governo”, disse Rubio durante uma viagem ao Vaticano na semana passada. “Nada desse dinheiro é usado para construir uma única estrada, uma única ponte, fornecer um único grão de arroz a um único cubano que não faça parte do GAESA.”

“É uma sanção contra essa empresa que está roubando do povo cubano em benefício de poucos”, afirmou, antes de acrescentar: “vamos fazer mais”.

O presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, classificou a ordem executiva como “coercitiva”.

O GAESA nasceu por desespero após o colapso da União Soviética em 1991, mas suas raízes remontam aos anos 1980. Raúl Castro, então ministro da Defesa, convenceu seu irmão mais velho, o presidente Fidel Castro, a permitir mudanças nos interesses empresariais dos militares, segundo Frank Mora, que atuou como subsecretário adjunto de Defesa no governo Obama.

Quando a URSS caiu, Cuba perdeu seu maior parceiro comercial e financiador. As Forças Armadas estavam em ruínas e tinham dificuldades para pagar suas tropas. Fidel permitiu que os militares assumissem setores estatais da economia, como o turismo, em uma tentativa de salvar o país.

No início, o experimento funcionou, dizem analistas, e os militares provaram ser gestores mais eficientes do que outras áreas do Estado. A economia se recuperou no fim dos anos 1990, com os militares reinvestindo os lucros no país para apoiar hospitais, educação e programas governamentais de distribuição de alimentos.

O controle do GAESA se tornou ainda mais dominante quando Raúl Castro assumiu a presidência no lugar de seu irmão Fidel em 2008. Hoje ele supervisiona muitos setores da economia, grandes e pequenos. O GAESA também possui empresas em Angola, gerando centenas de milhões de dólares em lucros anuais com educação, saúde, construção e outras áreas.

Críticos dizem que o GAESA agora é apenas mais uma ferramenta da família Castro para consolidar seu poder.

Hoje ele está mais poderoso do que nunca, mas a pobreza na ilha também atingiu níveis sem precedentes.

“Os militares sempre foram o braço mais pragmático da revolução, mas isso não significa que defendam uma liberalização política”, disse Mora. “Trata-se tanto de um empreendimento econômico quanto de uma instituição militar”, acrescentou. “Por isso, têm menos incentivo para alterar o status quo, a menos que isso os beneficie.”

As finanças do GAESA são secretas e não aparecem em lugar algum do Orçamento do governo, o que torna incerto se o Estado recebe parte de seus lucros. Quando a controladora-geral do governo admitiu, em uma entrevista de 2024, que não tinha acesso às finanças do GAESA, ela foi demitida após 14 anos de serviço.

A família Castro aproveitou sua autoridade sobre o GAESA para manter firme controle sobre a economia cubana como um todo. Em 2011, pouco depois de assumir a presidência, Raúl colocou seu genro, o general Alberto Rodríguez Lopez-Calleja, no comando do GAESA.

Após a morte de Rodríguez em 2022, uma pessoa sem ligação com a família Castro foi nomeada para liderar o GAESA: a general de brigada Ania Guillermina Lastres Morera, sancionada por Washington neste mês. Mas o filho do antigo chefe do GAESA e neto de Raúl, Raúl Guillermo Rodríguez Castro, parece manter vínculos com Lastres, preservando provavelmente a influência dos Castro.

Registros de voo mostram que, em 2024, eles viajaram juntos em um jato particular para o Panamá, onde o GAESA registrou várias empresas para escapar das sanções dos EUA, segundo investigação de um grupo de veículos de comunicação locais.

O mais jovem Rodríguez Castro, conhecido como el Cangrejo — “o Caranguejo”, em espanhol — surgiu como figura importante nas negociações com Washington, reunindo-se com a equipe de Rubio neste ano.

Outro integrante da família Castro que atua como articulador nessas negociações é Óscar Pérez-Oliva Fraga, sobrinho-neto dos irmãos Castro. Atualmente ele é vice-primeiro-ministro de Cuba e ministro do Comércio Exterior e Investimento Estrangeiro — um pilar importante da economia.

A presença de dois integrantes da família Castro na mesa de negociações lança uma forte sombra de dúvida sobre se o regime está realmente disposto a abrir mão de seu monopólio econômico, como exige o governo Trump.

Embora o governo cubano frequentemente atribua suas dificuldades financeiras às sanções e ao embargo comercial de Washington, analistas dizem que as estratégias de investimento do GAESA também contribuíram para o declínio econômico da ilha.

“O governo reclama do embargo quando é conveniente, mas depois constrói esses hotéis como se embargo não existisse”, disse Ricardo Torres, economista da American University, em Washington, especializado em Cuba.

Depois do acordo de 2015 entre Cuba e o governo Obama, que restabeleceu relações diplomáticas e flexibilizou restrições de viagem, o GAESA apostou fortemente no turismo, esperando uma entrada em massa de americanos.

No início, a aposta deu certo e os americanos correram para a ilha. O GAESA entrou em ritmo acelerado de gastos: até 2025, construiu 121 hotéis, contra 56 uma década antes, adicionando 22 mil novos quartos.

Mas o boom do turismo durou pouco.

Em 2017, Trump restabeleceu sanções e proibiu turistas americanos de visitar a ilha. A economia cubana sofreu outro golpe em 2020, quando a pandemia praticamente paralisou o turismo.

Ainda assim, o GAESA continuou construindo hotéis, enquanto negligenciava outros setores da economia.

A outrora famosa indústria açucareira cubana — que financiou os primeiros anos da revolução comunista — entrou em colapso, à medida que os gastos públicos no setor despencaram.

Cuba teve de importar açúcar nos últimos anos para consumo interno, inclusive dos Estados Unidos.

Segundo os dados mais recentes do governo, em 2024 Cuba destinou quase 40% do orçamento ao turismo e à hospitalidade, o que dá cerca de US$ 1,5 bilhão. Ainda assim, a ocupação hoteleira naquele ano ficou em um decepcionante patamar de 30%.

O orçamento do turismo foi cerca de 11 vezes maior do que o destinado conjuntamente à educação e à saúde em 2024. Os gastos com educação caíram 26% em relação a 2023. Observadores afirmam que o fato de o governo gastar mais com turismo enquanto os cubanos ficam sem itens básicos mostra o quanto a revolução comunista se degradou.

“A Constituição cubana diz que nós, o povo, somos donos de todos os meios de produção”, disse Torres, o economista cubano. “Mas não existe fiscalização sobre as finanças nem sobre as decisões empresariais do GAESA, não existe controle social.”

No ano passado, o GAESA inaugurou o hotel de luxo Iberostar no prédio mais alto de Cuba. O hotel cinco estrelas se ergue sobre o horizonte de Havana, marcado por casas deterioradas. Ainda assim, alguns turistas dizem que o hotel fica praticamente vazio durante suas visitas.

“Esses militares têm lucros que foram acumulados para tempos difíceis”, disse Ricardo Zúniga, ex-integrante do governo dos EUA que ajudou a negociar o acordo da era Obama. “Bem, em Cuba o tempo difícil chegou ao limite. Então onde está o GAESA?”

c.2026 The New York Times Company

The post Como é o conglomerado militar que domina a economia de Cuba e virou alvo dos EUA appeared first on InfoMoney.