A temporada de resultados do primeiro trimestre de 2026 chegou num momento de tensão para quem investe em crédito privado. Com a Selic em 14,5%, spreads em alta e fundos registrando bilhões em resgates, os balanços das empresas emissoras de debêntures funcionaram como teste de campo dos fundamentos. Para analistas, não há crise generalizada, mas as diferenças entre os emissores raramente foram tão relevantes para a decisão de alocação.
O Bradesco BBI mostra que, entre as 200 empresas da sua cobertura, a capacidade de pagar juros com o próprio resultado operacional chegou ao menor nível em quatro trimestres, tradução direta de dois anos de juro elevado corroendo as margens de segurança de quem entrou na temporada com a estrutura financeira mais apertada.
Quem sentiu mais os juros
A Coruripe ilustra com clareza o peso do ambiente adverso. Queimadas e seca reduziram a moagem em quase 10%, e o resultado operacional depois dos investimentos necessários caiu 46,9% em relação à safra anterior. O custo da dívida subiu 55,9% no mesmo período, e a empresa tem R$ 1,7 bilhão em vencimentos de curto prazo. Para cobri-los, anunciou um plano de monetizar créditos judiciais contra o antigo Instituto do Açúcar e do Álcool, com expectativa de levantar R$ 1,5 bilhão ainda nesta safra. A companhia já avisa que a alavancagem deve aumentar na próxima. “O clima adverso impactou o setor como um todo”, registrou a XP.
O Assaí (ASAI3) entregou um trimestre fraco, mas dentro do esperado. As vendas nas mesmas lojas caíram 0,9%, pressionadas pela deflação em alimentos e pelo consumo mais fraco das famílias de baixa renda. O consumo de caixa foi relevante no período, mas a empresa avançou onde importa para o crédito: a alavancagem chegou ao menor nível desde o fim de 2021, e a companhia anunciou recompra de até R$ 200 milhões das próprias debêntures negociadas com desconto no mercado secundário. “Os resultados indicam a resiliência do perfil de crédito do Assaí, mesmo em um contexto operacional mais desafiador”, avaliou o Itaú BBA.
A Minerva (BEEF3) cresceu receita e resultado operacional com as exportações, mas enfrenta o segundo semestre com margens pressionadas pelo custo do boi e a perspectiva de esgotamento das cotas para a China.
Quem passou melhor
Do outro lado da temporada estão as empresas com receita previsível ou exposição ao mercado externo. A Gerdau (GGBR4) foi a maior surpresa positiva: resultado operacional crescendo quase 25% frente ao trimestre anterior, alavancagem de 0,74 vez e controle de custos que o Itaú BBA classificou como inesperado na divisão brasileira, que ainda deve se beneficiar das medidas antidumping implementadas no início do ano.
A Petrobras (PETR4) entregou EBITDA de R$ 61,7 bilhões com produção recorde de 3,23 milhões de barris por dia, e seus bonds no mercado internacional seguiram com spread praticamente estável frente ao soberano brasileiro ao longo do trimestre, segundo o Itaú BBA. PRIO (PRIO3), Localiza (RENT3) e Ultrapar (UGPA3) também entregaram resultados sólidos, com alavancagem em queda ou estável e geração de caixa consistente.
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As empresas de infraestrutura regulada apresentaram dinâmica própria. A Sabesp (SBSP3) registrou crescimento de quase 26% no resultado operacional, com margem próxima a 63%, sustentada por reajustes tarifários e eficiência de custos. O fluxo de caixa livre, porém, ficou negativo em R$ 4,6 bilhões por causa dos R$ 5,3 bilhões investidos no trimestre.
A Neoenergia (NEOE3) teve resultado operacional neutro, mas o evento relevante para o crédito foi externo ao balanço: a renovação das concessões de três distribuidoras por mais 30 anos, que segundo o Itaú BBA “reduz de forma relevante o risco regulatório e amplia a visibilidade de caixa de longo prazo.”
O que significa para o investidor?
Gerdau e Usiminas (USIM5) são as duas siderúrgicas. Mas a primeira saiu com alavancagem de 0,74 vez e a segunda com posição de caixa líquida, enquanto o setor como um todo enfrentava o mesmo macro. É o retrato da temporada: o segmento da empresa importa menos do que sua estrutura de capital e a previsibilidade do caixa.
Com os juros altos por mais tempo e a cobertura de juros das empresas no menor nível recente, a próxima temporada deve aprofundar essa diferenciação. O 1T26 confirmou que os fundamentos sustentam a maior parte dos bons emissores, mas o ambiente não perdoa quem chegou ao trimestre com a casa desordenada.
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