O Ibovespa fechou em queda de 1,8% e o dólar voltou à faixa de R$ 5 na quarta-feira (13), depois que o Intercept Brasil publicou mensagens e áudios mostrando negociações entre o senador Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro para o financiamento de um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Foi o segundo episódio de forte reação dos mercados ligado ao cenário eleitoral em menos de seis meses: em dezembro, a confirmação de Flávio como pré-candidato derrubou o Ibovespa em até 4,2% e fez o dólar saltar 2,28% em um único pregão.
Para especialistas ouvidos pelo InfoMoney, o padrão deve se repetir até outubro, e a resposta mais eficaz está na construção de uma carteira adequadamente diversificada, inclusive com ativos do exterior, segundo o perfil de risco de cada investidor.
“A reação dos mercados locais, com movimentos bruscos e de mesma direção, com perda de valor na bolsa, na moeda e nos ativos de renda fixa, evidencia a alta correlação dos ativos de risco”, avalia Ian Caó, diretor de investimentos da Gama.
Para Paula Sauer, economista, planejadora financeira CFP e professora de Economia da ESPM, o ambiente de volatilidade pré-eleitoral faz com qualquer frase, narrativa ou comportamento amplifique movimentos de preço mesmo quando os fundamentos econômicos não mudaram. “É preciso ter muito claro quais são os objetivos do investidor, para que esse não se sinta impelido a mudar sua carteira a cada mudança na direção dos ventos”, recomenda.
Michael Viriato, estrategista-chefe da Casa do Investidor, ressalta que a decisão de mexer na carteira deve ser guiada pela mudança de cenário, não pelo movimento dos preços. “A hora de mexer na carteira não é necessariamente porque o mercado está movimentando, mas porque o cenário mudou”, afirma.
Para quem não carregava a aposta numa mudança de governo, portanto, o sinal de ontem não justificava ajuste na alocação.
Diversificação como amortecedor
A proteção mais eficaz contra esse ciclo de choques é estrutural e precisa ser construída antes do próximo episódio, não depois, dizem os especialistas. Ativos internacionais, diz Caó, cumprem esse papel porque os vetores que movem os mercados globais são, em geral, distintos dos que afetam o Brasil, permitindo que parte do patrimônio responda a dinâmicas diferentes das que são afetadas pelo ruído político doméstico.
Em momentos de estresse, há ainda um efeito adicional: o real tende a se desvalorizar enquanto ativos em dólar se valorizam em reais, compensando parte da queda da bolsa local. Mas esse argumento não depende necessariamente do nível do câmbio.
“Estruturalmente, os benefícios da diversificação internacional vão muito além dos níveis da moeda e devem ser entendidos de forma independente”, afirma Caó. O dólar próximo a mínimas recentes pode ser um fator tático favorável para iniciar ou ampliar a exposição, mas não é condição necessária.
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Para quem quiser estruturar o investimento sem assumir a variação cambial como variável, Viriato destaca os ETFs com hedge cambial: ao trocar a exposição à moeda pelo diferencial de juros entre Brasil e exterior, esses produtos entregaram, nos últimos 20 a 30 anos, retorno superior aos equivalentes sem proteção, com menor volatilidade.
O estrategista ainda lembra quem tem apenas renda fixa no Brasil e passa a ter também renda fixa internacional está de fato diversificando, distribuindo o risco de crédito entre mercados distintos. Já quem não tem nenhuma posição em bolsa e decide comprar ações americanas não está diversificando, está adicionando uma classe de risco nova à carteira. “Existe uma confusão muito grande entre diversificação e aumento de risco”, diz Viriato.
O que fazer a depender do perfil
O impacto da volatilidade política varia conforme o perfil. O conservador, que carrega apenas ativos pós-fixados atrelados ao CDI, tende a não sentir os movimentos, já que sua rentabilidade não oscila com o mercado. A situação muda para quem já tem risco na carteira. “O investidor moderado e agressivo, esse que tem risco, sem dúvida tem que ter investimento global”, diz Viriato.
Para quem ainda não tem exposição internacional, a entrada não precisa ser feita de uma vez. “Você nunca vai acertar qual é o melhor momento para comprar, isso ninguém acerta”, afirma Viriato, recomendando entradas graduais. Paula lembra que o acesso ficou mais simples nos últimos anos: “Diversificar internacionalmente já foi um drama; atualmente é muito menos burocrático”, diz ela, com BDRs e ETFs como opções disponíveis na bolsa brasileira.
Para perfis mais conservadores que querem dar um primeiro passo além do CDI sem assumir oscilação elevada, Caó indica o crédito global como alternativa com retorno ajustado ao risco competitivo e menor concentração no risco de crédito de empresas brasileiras.
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