Após o Comitê de Política Monetária (Copom) decidir, na última quarta-feira, por um corte de 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros, levando a Selic a 14,5%, os holofotes se voltam para as variáveis que ditarão o ritmo dos próximos passos do Banco Central. Para Daniela Lima, economista da Kinea para o Brasil, uma peça central na economia está sendo negligenciada, a força da moeda brasileira.
Em entrevista ao InfoMoney, a economista destacou que as projeções atuais do mercado focam muito nos choques externos, mas falham em precificar o impacto positivo do câmbio.
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Ela explica que a moeda brasileira tem grande resiliência no cenário atual porque o país é um grande exportador líquido de petróleo e pela taxa de juros elevada em comparação aos seus pares globais. Para muitos investidores estrangeiros, o país é visto como um mercado estratégico para alocação de capital, dado o câmbio historicamente barato e os juros altos, o que atrai divisas, fortalece a moeda e compensa parte do choque gerado pelo cenário de guerra.
“O fator do BRL está sendo pouco considerado nas projeções. A curva de juros no mercado está seguindo rigorosamente o preço do petróleo Brent, mas ignora outros fatores, principalmente o câmbio”, avalia Lima.
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Guerra, câmbio e inflação
Os impactos do conflito internacional já são sentidos internamente, especialmente com o choque nos preços de petróleo e fertilizantes. Lima comenta que, embora a Petrobras não tenha reajustado a gasolina recentemente, os distribuidores elevaram os preços muito além do custo de importação, aumentando suas margens.
“Já vemos efeitos na inflação de diesel e derivados de petróleo, como sabão (que depende de Nafta, derivado do petróleo) e fertilizantes”, diz Lima.
Isso fez com que a inflação via combustíveis já sinalizasse que está chegando aos indicadores de preços, como o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), como mostrou a divulgação mais recente, com dados de março.
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Como reflexo dessa conjuntura, a Kinea revisou sua projeção de IPCA de 2026, que saiu de 4% para 4,6%.
A especialista faz um alerta para um cenário de risco extremo, que ela classifica como de “não linearidade”. “Se a guerra escalar, os estoques de petróleo acabarem e o preço [do brent] chegar a US$ 150, haverá uma aversão ao risco global que faria a moeda brasileira sofrer. Esse cenário de petróleo elevado combinado com um câmbio muito depreciado representa, hoje, o principal risco para que o Banco Central consiga manter o ritmo de cortes em 0,25 ponto percentual”, afirma.
Câmbio em R$ 5 e o impacto na inflação
A economista da Kinea ressalta que o cenário poderia ser mais brando caso o câmbio se mantenha estável. Se o dólar ficar “flat” (estável) na casa dos R$ 5,00, em oposição aos R$ 5,25 projetados pelo boletim Focus, o Brasil terá uma inflação menor do que a prevista pelo mercado, explica Lima.
Por outro lado, caso o câmbio siga as projeções do Focus, a inflação pode encostar em 4,9%.
Juros altos para frear X incentivos à atividade
Avaliando o último comunicado do Copom, Lima opina que o texto ficou “mais duro”, com o Banco Central indicando que observará de perto as próximas informações para ajustar a extensão do ciclo de cortes.
O cenário base da Kinea aponta para a continuidade dos cortes no ritmo de 0,25 ponto percentual, amparado justamente por um câmbio bem comportado.
O contexto macroeconômico, porém, também traz mais complexidade para as decisões de política monetária. Lima explica que, enquanto o Banco Central está “pisando no freio” com juros restritivos, o governo federal está “pisando no acelerador” por meio políticas que injetam mais dinheiro na economia, estimulando a demanda.
“Essa política de aumento de gastos implica juros de equilíbrio e inflação mais elevados. É uma escolha política da sociedade”, explica a economista.
Entre os exemplos dessa política governamental de estímulo, Lima cita o Desenrola 2.0 e iniciativas no Minha Casa Minha Vida, que são tentativas do governo de auxiliar setores sensíveis que sofrem com as taxas restritivas, a exemplo da construção.
Além da frente fiscal, a economista adiciona o fator político à equação monetária. Segundo ela, o Banco Central prefere manter os juros em patamares que lhe garantam mais “gordura” para entrar no período eleitoral, uma fase que sabidamente “traz volatilidade cambial”.
Apesar dos ruídos e da ausência de reformas estruturais, a gestora trabalha com a perspectiva de que o Banco Central conseguirá entregar a taxa Selic em torno de 12,5% ao final do ciclo.
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