Moradores, pescadores e marisqueiros de São Tomé de Paripe, no Subúrbio de Salvador, fizeram uma manifestação na manhã desta terça-feira (3) para cobrar o pagamento de indenizações prometidas às famílias afetadas pela contaminação da praia da região.
Segundo o g1, o protesto ocorreu nas proximidades da Base Naval e bloqueou a passagem de ônibus, carros e motocicletas. O trânsito já foi normalizado.
Durante o ato, os moradores relataram dificuldades financeiras e cobraram respostas das empresas envolvidas no desastre ambiental. De acordo com a comunidade, cerca de 950 pessoas foram impactadas pela contaminação, que comprometeu atividades como pesca, mariscagem e o comércio de alimentos e bebidas na faixa de areia.
"Estamos pedindo justiça, porque são muitas pessoas passando fome, miséria", desabafou a marisqueira Elenita dos Santos ao portal.
Acordo sem pagamento
Em setembro, representantes de órgãos estaduais e federais, entre eles o Ministério Público da Bahia (MP-BA) e o Ministério Público Federal (MPF), participaram de uma reunião com a Gerdau, uma das empresas envolvidas no caso. No encontro, discutiu-se a elaboração de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), que prevê o pagamento de valores aos moradores prejudicados. Os manifestantes afirmaram, porém, que nenhum dinheiro foi depositado até agora.
A falta de renda atinge diretamente famílias que dependem do mar para sobreviver. "Muitos dependem da faixa de areia para trabalhar, levar seu sustento, complementar sua renda. São pescadores, marisqueiras, pais e mães de família que dependem da faixa de areia para comercializar", disse a técnica de enfermagem Daniela Vasconcelos.
Dívidas e prejuízos
Comerciantes que trabalhavam na praia também foram prejudicados. A barraqueira Railda da Paz contou que perdeu equipamentos durante o período sem trabalho. "Estou cheia de boletos, triste. Minhas coisas da barraca acabaram. Cadeiras ressecaram, sombreiros ficaram todos acabados por causa do tempo parado", afirmou.
A barraqueira Vanúbia Lima também relatou acúmulo de dívidas e disse que evita montar sua barraca para não expor crianças à área afetada. "Estou cheia de dívida. Meus cartões já bloquearam, porque não tenho como pagar. Estou sem trabalhar na praia, tudo parado. Algumas pessoas vêm para a praia, mas eu não quero armar minha barraca por causa das crianças, para não prejudicar", disse.
O mergulhador Daniel dos Santos afirmou que a comunidade segue sem respostas sobre a recuperação da praia. "Estamos sofrendo, barraqueiros, marisqueiros, pescadores... Ninguém está conseguindo trabalhar. Contaminaram nossa praia, estragaram o nosso lar e até agora não resolveram. Não descontaminaram nossa praia ainda", contou.
Críticas à assistência
Elenita dos Santos também criticou o auxílio oferecido às famílias. Segundo ela, as cestas básicas distribuídas não bastam para garantir o sustento dos moradores.
"Passaram cestas básicas para a gente. São dez quilos de arroz, dois de feijão, café não vem, duas latas de sardinha e um quilo de macarrão. Me diga se isso dá para uma pessoa que tem cinco ou seis filhos? Quem mora de aluguel? Como estamos vivendo? Eles estão com os olhos fechados, nem aí para a gente", desabafou.
Relembre o caso
A contaminação da praia de São Tomé de Paripe envolve as empresas Gerdau e Intermarítima e passou a ser investigada após um vazamento de substâncias químicas em fevereiro deste ano. Durante uma operação de transporte de materiais, foram identificados cobre e nitrato amoniacal em estruturas de drenagem do terminal marítimo da região.
O episódio causou impactos ambientais, incluindo a morte de animais marinhos, e prejudicou diretamente a população que depende da pesca e da mariscagem. Análises do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema) confirmaram a presença das substâncias contaminantes, e as atividades no local foram interditadas.
O caso também levantou preocupações sobre possíveis impactos no lençol freático e riscos à saúde dos moradores. Uma busca ativa feita por pesquisadores da Universidade Federal da Bahia (Ufba), em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), identificou 45 pessoas com sintomas potencialmente relacionados à contaminação. Os casos estão em análise para verificar uma possível ligação com o episódio.
Empresas foram multadas em R$ 70 milhões
Em junho, o Inema multou as duas empresas investigadas por danos ambientais na região:
- Intermarítima: R$ 20 milhões;
- Gerdau: R$ 50 milhões.
Segundo o órgão, as duas empresas contribuíram para a contaminação, relacionada às atividades de estocagem e movimentação de granéis sólidos no terminal.
Em agosto, a Justiça Federal da Bahia determinou o bloqueio de cerca de R$ 387,6 milhões em bens das empresas investigadas. No mesmo mês, a Prefeitura de Salvador prorrogou por mais 90 dias a situação de emergência na praia, considerando a permanência dos impactos sociais e ambientais causados pelas substâncias químicas.
Outro ponto de conflito é a responsabilidade pelos danos: as empresas discutem entre si quem deve responder pela contaminação, enquanto os moradores aguardam medidas de reparação coletiva.
Um pescador da região obteve uma decisão liminar que obriga a Intermarítima a pagar R$ 2 mil mensais como auxílio financeiro, já que ele não consegue exercer sua atividade.
O que diz a Gerdau
Em nota, a Gerdau informou que segue em diálogo com as autoridades e os órgãos competentes para construir uma solução social e técnico-ambiental para a região. A empresa acrescentou que pretende contribuir para encontrar soluções que amparem a população local e restabeleçam a normalidade o mais rápido possível.

