A Bahia é o segundo estado com mais ocorrências na nova atualização da "lista suja" do trabalho escravo, nome popular do Cadastro de Empregadores que submeteram trabalhadores a condições análogas à escravidão. Dos 82 registros incluídos em todo o país, sete são baianos. Só Minas Gerais (MG) aparece à frente.
Entre os registros do estado, cinco são de pessoas físicas e dois de pessoas jurídicas. As ações da Auditoria-Fiscal do Trabalho resgataram 10 trabalhadores na Região Metropolitana de Salvador (RMS) e no interior.
A atualização foi divulgada na terça-feira (6) pela Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT), vinculada ao Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).
Maioria dos casos é urbana
Quatro das ocorrências foram no meio urbano: dois casos de trabalho doméstico, em Poções e Vitória da Conquista; um na construção civil, em Camaçari; e um em galpão de carvão vegetal, em Lauro de Freitas.
Em Catu de Abrantes, distrito de Camaçari, os trabalhadores de uma obra de condomínio de casas viviam em alojamentos improvisados e precários dentro dos próprios imóveis em construção, sem separação entre moradia e canteiro.
Em Lauro de Freitas, dois trabalhadores foram resgatados em um galpão de ensacamento, armazenamento e expedição de carvão vegetal. De acordo com a fiscalização, eles não tinham registro nem exames médicos ocupacionais e dormiam em lençóis ou redes estendidos direto no chão, em dormitórios improvisados, sem camas, colchões ou armários.
A fiscalização também constatou que não havia água filtrada no local, e os trabalhadores bebiam água da torneira. Faltavam ainda gerenciamento dos riscos da atividade, fardamento e equipamentos de proteção individual.
Na zona rural, os outros três casos foram identificados em duas fazendas de cacau, em Itacaré e Itajuípe, e em uma fazenda de criação de gado, em Itapicuru. "A maioria dos casos baianos desta atualização ocorreu no meio urbano, em residências, em uma obra e em um galpão. Isso mostra que o trabalho análogo ao de escravizado não está só no campo, como por muito tempo se pensou", afirmou a auditora-fiscal do Trabalho Liane Durão, coordenadora do projeto de combate ao trabalho análogo ao de escravizado na Bahia, ao g1.
Cenário nacional
No país, a atualização reúne 82 registros, referentes a 80 empregadores, com ocorrências em 21 unidades da federação. Os casos foram identificados por auditores-fiscais do Trabalho entre 2024 e 2026 e envolvem 553 trabalhadores.
As atividades com mais inclusões foram a criação de bovinos para corte (oito casos), os serviços domésticos (sete), a produção de carvão vegetal e a de café (seis cada) e a construção de edifícios (cinco).
Os nomes permanecem no cadastro por dois anos. Nesta atualização, 151 foram excluídos por terem completado esse período.
Como funciona a "lista suja"
O cadastro existe desde 2003. A inclusão ocorre após processo administrativo em que são assegurados o contraditório e a ampla defesa. O empregador só entra na lista depois de uma decisão administrativa irrecorrível que confirma a ocorrência de trabalho em condição análoga à escravidão.
Segundo o MTE, a atualização é semestral. A publicação anterior foi em 6 de abril de 2026.
Como denunciar
Denúncias de trabalho análogo à escravidão podem ser feitas de forma remota e sigilosa pelo Sistema Ipê, da Secretaria de Inspeção do Trabalho, desenvolvido em parceria com a Organização Internacional do Trabalho (OIT).

