Padres, freiras e diáconos católicos em toda a América Latina estão recorrendo às redes sociais para alcançar as gerações mais jovens, em um cenário de queda na frequência às igrejas e no sentido de identidade religiosa.
O Vaticano adotou as redes sociais como uma nova fronteira de evangelização.
Durante os períodos de confinamento da COVID-19, o conteúdo religioso online cresceu significativamente, e muitos sermões e celebrações passaram a ser realizados virtualmente.
No TikTok, aplicativo de vídeos curtos, o conteúdo varia de reflexões e tutoriais sobre o uso de água benta a momentos de humor e até festas noturnas.
No ano passado, três freiras austríacas octogenárias usaram sua influência online para evitar um despejo, documentando sua fuga dramática de uma casa de repouso administrada pela Igreja.
Durante seu pontificado, o Papa Francisco incentivou as igrejas locais a apoiarem aqueles que realizam missões no ambiente digital.
Embora o Papa — que inicia uma viagem pela América Latina nesta sexta-feira (6) — adote um tom mais cauteloso, encontros católicos que oferecem suporte e treinamento em mídia continuam a se multiplicar ao redor do mundo.
O padre e cineasta mexicano Heriberto Garcia, de 38 anos, natural de Jalisco, acredita que os púlpitos digitais devem ser vistos como uma ponte, cujo objetivo final é levar as pessoas à religião para além das telas.
Garcia aprendeu a montar a cavalo antes mesmo de aprender a andar.
Ele começou publicando vídeos de “charreria” — uma modalidade de equitação mexicana que é uma paixão de sua família — antes de passar a compartilhar reflexões religiosas voltadas para jovens que enfrentam desafios relacionados à saúde mental.
Seu público cresceu rapidamente durante a pandemia.
Ele conta com mais de 2,7 milhões de seguidores em suas plataformas, um grupo que vai de adolescentes a aposentados, os quais acompanham seus sermões — que, embora formais, mantêm um tom íntimo, gravados em planos fechados.
“Há muitas pessoas que não têm por perto um padre, um psicólogo ou alguém de confiança com quem possam conversar, mas elas têm as redes sociais”, afirmou Garcia em uma entrevista.
Apesar do sucesso, ele confessa que ainda se sente mais à vontade no púlpito tradicional.
O diácono colombiano Rafael Beltran integra um comitê do Vaticano, criado após o Sínodo dos Bispos de 2024, com o objetivo de apoiar criadores de conteúdo digital em toda a América Latina.
Segundo ele, o compartilhamento de um mesmo idioma e cultura ajuda esses influenciadores a ultrapassar fronteiras.
O universo dos influenciadores, em grande parte não regulamentado, também deixou alguns líderes religiosos receosos, acrescentou ele: “Qualquer pessoa com um celular pode compartilhar algo sobre a nossa fé, mas surgiram críticas, em parte, porque existe muita liberdade — ou, melhor dizendo, falta de controle.”
Missões digitais
A América Latina abriga mais católicos do que qualquer outra região, segundo o Vaticano.
A religião continua predominante, mesmo após uma série de escândalos de abuso sexual e em um cenário no qual seus ensinamentos tradicionais divergem, cada vez mais, de reformas adotadas em alguns países — reformas que ampliam os direitos de casais do mesmo sexo e flexibilizam as restrições ao aborto.
O Brasil, um Estado laico, possui a maior população católica do mundo; a Igreja mantém uma influência significativa, ainda que o cristianismo evangélico venha ganhando espaço.
Católicos progressistas, como Carla Angelini — que coordena o braço brasileiro da organização “Católicas pelo Direito de Decidir”, uma rede que defende o direito ao aborto —, relatam dificuldades para superar algoritmos desfavoráveis nas plataformas digitais.
Segundo ela, empresas de redes sociais “removem nossas contas e censuram nosso conteúdo se falamos sobre aborto”.
Ela acrescenta que outro grupo católico chegou a mover uma ação judicial contra a organização, exigindo a mudança de seu nome.
No Brasil, o aborto é ilegal, exceto em situações específicas previstas em lei.
Há dois anos, parlamentares tentaram acelerar a tramitação de um projeto de lei que aumentaria, em quase sete vezes, as penas de prisão para quem realiza aborto — chegando a até 20 anos de reclusão, mais que o dobro da pena prevista para o crime de estupro.
A proposta foi barrada após uma mobilização em massa nas redes sociais, que incluiu convocações para protestos feitas por grupos brasileiros de fãs de K-pop.
Este ano, um projeto de lei de combate à misoginia enfrentou resistência de parlamentares que argumentaram que a medida poderia restringir ensinamentos religiosos.
Ao final, o texto foi aprovado por unanimidade no Senado.
“Precisamos pensar estrategicamente, pois, claramente, há pessoas que apoiam nossa causa”, afirma Angelini. “Existem outras formas de compreender a religião; nossa fé nos dá força para denunciar injustiças e promover os direitos humanos.”

