Nesta semana, o Paraguai mergulhou em uma crise bancária que pode gerar o impeachment do presidente Santiago Peña e já provocou a renúncia da autoridade máxima do Banco Central do país.
Na última terça-feira (3), o BC interviu no principal banco digital do país, Ueno Bank, após entender que a solvência de seu sistema era menos da metade do mínimo exigido para a operação de uma instituição financeira.
Os desdobramentos do atual caso do banco paraguaio trazem ainda semelhanças com o ocorrido com o Banco Master, de Daniel Vorcaro, no final do ano passado – instituição brasileira liquidada pelo Banco Central em 2025 por apresentar grave crise de liquidez no conglomerado e pelo comprometimento significativo da sua situação econômico-financeira.
Após a intervenção, as contas dos 3 milhões de usuários do Ueno foram bloqueadas e os ativos e passivos foram congelados. Esse número corresponde a quase metade dos 6,1 milhões de pessoas que habitam no país.
O banco digital ainda era responsável por administrar US$ 850 milhões em fundos públicos do Paraguai, sendo boa parte dos clientes afetados são aposentados.
O Ueno cresceu rapidamente e, nos últimos meses, enfrentou análise regulatória devido a supostos empréstimos excessivos a empresas ligadas ao Grupo Vázquez – responsável pela instituição financeira -, que deixou os investidores apreensivos e afetou negativamente tanto os títulos em dólares da Ueno com vencimento em 2031 quanto os títulos soberanos do Paraguai.
A dissolução da instituição causou pânico na população, assim como falhas em aplicativos, grandes filas para a retirada de dinheiro no dia seguinte da ação do BC paraguaio e o aumento de pressão sobre o governo de Santiago Peña, que era sócio do grupo proprietário do banco até março de 2025.
Como resposta, o presidente paraguaio solicitou a renúncia do presidente do Banco Central, Carlos Carvallo. Nos últimos meses, vários parlamentares pediram a demissão da alta administração do banco central após rejeitarem um relatório sobre a instituição que, segundo eles, estava incompleto.
Além disso, 35 deputados opositores apresentaram oficialmente um pedido de impeachment de Peña e seu vice.
O pedido alega conflito de interesses e cooptação do Estado; manipulação regulatória e desvio de fundos de aposentadorias; superação de limites de créditos para o Ueno e acobertamento institucional pelo Banco Central; indícios de enriquecimento ilícito; e afetação da confiança no sistema financeiro nacional e exposição a um risco sistêmico.
O Ministério Público do Paraguai ainda solicitou uma investigação criminal sobre os eventos envolvendo o banco Ueno, ordenou a prisão de oito pessoas ligadas ao banco e imputou 27 pessoas pelo suposto vínculo com irregularidades financeiras no banco.
Segunda Peña e o Banco Central, o Ueno é um caso isolado e “não do sistema financeiro nacional”, adicionou o presidente paraguaio. Ele acrescentou que os responsáveis ”devem responder perante o Judiciário, sem exceções e sem privilégios”.
A Superintendência de Bancos, por sua vez, nomeará auditores para verificar a situação patrimonial da Ueno.
Já a Asoban (Associação de Bancos do Paraguai) informou que as instituições financeiras estavam trabalhando para atender ao grande volume de clientes que estão transferindo suas contas do banco Ueno e ressaltou que o sistema bancário continuava “operando normalmente”.
No entanto, o caso ainda ameaça a reputação que ajudou o Paraguai a se tornar um dos destinos emergentes da América do Sul para capital estrangeiro, grande parte vindo do Brasil.
Em 2026, o Banco Mundial projeta crescimento de 4,7% no PIB paraguaio, expansão sustentada pela melhora nas condições de segurança, consolidação fiscal e investimento privado.
*Com informações de Luciana Taddeo, da CNN Brasil, em Buenos Aires, e da Reuters.

