As Eleições de Meio de Mandato nos Estados Unidos, neste mês de novembro, fazem o eleitor brasileiro que vê a cobertura do pleito, pode assumir que a “onda azul” no mapa eleitoral é uma vitória para Donald Trump e a direita americana. Contudo, esse é um ledo engano.
As mesmas cores que representam o binário político entre direita e esquerda no Brasil também são usadas no bipartidarismo dos Estados Unidos; mas, desde os anos 2000, elas são invertidas.
Por que movimentos políticos escolhem cores?
A atribuição de significados às cores é característica da arte, da mitologia e das práticas culturais de diversos povos. Embora a psicologia das cores atribua alguns significados comuns a diferentes culturas, como a associação do vermelho ao sangue e do azul ao céu e à água, a maioria das associações varia entre localizações, grupos e períodos históricos.
O poder destas associações é aplicado quando manifestantes, candidatos e estrategistas usam – ou evitam – cores com significados populares como sinal não-verbal de seu alinhamento.
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A história do vermelho com a esquerda
Um dos primeiros registros da escolha da cor vermelha por revolucionários e progressistas remonta à Revolução Francesa. Por volta de 1789, bandeiras vermelhas em Paris representavam a lei marcial. Quando hasteadas, cidadãos não podiam mais se reunir em grandes quantidades, sob ameaça de repressão violenta dos militares a mando do rei Luís XVI.
Em 1791, uma multidão foi ao Campo de Marte, entre a Torre Eiffel e a École Militaire, para demonstrar seu apoio à destituição do monarca. O prefeito parisiense colocou em efeito a lei marcial: bandeiras vermelhas foram estendidas e a Guarda Nacional começou a atirar contra o povo.
O ataque incitou a resposta dos jacobinos, a ala mais revolucionária do movimento antimonarquista francês. Militantes empunharam as bandeiras rubras como forma de se apropriarem do símbolo de poder monarquista, convertendo-o em representação do sangue derramado durante o massacre.

Nos anos seguintes, este grupo ganharia força e até tomaria controle do Estado em 1793. O símbolo vermelho voltaria a ser usado em Paris em insurreições seguintes, como no Levante de Junho de 1832 que inspirou a obra ‘Os Miseráveis’ (1862) de Victor Hugo. Em 1848, republicanos e socialistas que participaram da Revolução Francesa tentaram exigir a adoção oficial da bandeira vermelha pela República, fortalecendo a associação.
Desde então, grupos progressistas, trabalhistas, comunistas e socialistas mantiveram a preferência pelo vermelho. É a cor predominante do Partido Comunista Chinês, das Internacionais do movimento operário e, no Brasil, de partidos à esquerda.
A inversão nos Estados Unidos
A história americana também manteve a relação entre vermelho e esquerda, e entre azul e conservadorismo. A segunda associação é ligada aos uniformes azuis do exército de Abraham Lincoln, na Guerra Civil; o presidente pertencia ao Partido Republicano.
Durante a Guerra Civil, forte rejeição ao comunismo e o chamado “Red Scare” (ou Medo Vermelho, um período em que governos e povos ocidentais temiam a disseminação dos ideais comunistas que dominaram a Ásia) levaram políticos democratas e republicanos a optarem por azul ou outras tonalidades frias em suas campanhas. Mas até o século XX, os tons usados para representar cada partido variavam entre emissoras.
A configuração atual só se consolidou em 2000, durante a cobertura televisiva da disputa presidencial entre George W. Bush e Al Gore. Uma apuração acirrada com duração de um mês começou a complicar a comunicação e os mapas eleitorais; para não confundir a audiência, emissoras decidiram seguir as cores usadas pelos canais mais populares. CBS e ABC já utilizavam vermelho para republicanos e azul para democratas desde os anos 80. Em 1992, a CNN adotou o padrão.
Hoje, os tons viraram sinônimos dos partidos e são aplicados não só a políticos, mas também para descrever as inclinações de cidades e estados americanos. Uma terceira cor, o roxo, passou a significar uma flutuação de apoio entre campanhas e ideias de ambos os lados.

