O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, afirmou nesta quarta-feira (4) que os eleitores nos Estados Unidos rejeitaram políticas que “apenas empobrecem”, bem como o ódio, o sexismo e a negação das mudanças climáticas, após as derrotas dos republicanos nas Eleições de Meio de Mandato nos Estados Unidos.
Sánchez disse que a onda de extrema-direita, que havia impulsionado movimentos conservadores em ambos os lados do Atlântico, está “entrando em colapso” em vez de crescer.
Eleições nos EUA: o que significa a “onda azul” e por que ela aconteceu?
A onda azul prevista pelas pesquisas anteriores às Eleições de Meio de Mandato nos Estados Unidos superaram até mesmo as expectativas mais otimistas do Partido Democrata: candidatos do partido de oposição a Donald Trump conseguiram manter o domínio nos estados mais disputados e viraram mais cadeiras do que o necessário para garantir o controle da Câmara e do Senado.
Os democratas ainda terão grandes desafios pela frente, entre eles unir diferentes alas do partido com visões conflitantes para o futuro da sigla, mas a vitória nas Midterms é uma demonstração de força significativa para um partido que, em 2024, se mostrou fragmentado e incapaz de conter a volta de Trump à Casa Branca. Entenda alguns dos fatores que levaram à chamada “onda azul”.
Rejeição às políticas de Trump
As derrotas do Partido Republicano podem ser interpretadas, até certo ponto, como votos de rejeição às políticas do presidente americano.
Donald Trump se elegeu em 2024 prometendo melhorar a economia e diminuir a alta inflação do governo de Joe Biden, mas mergulhou os Estados Unidos em guerras comerciais e cinéticas que levaram o país na direção contrária. É fato que economia americana mantém um ritmo sólido de expansão, com o crescimento anual do PIB em cerca de 3%, mas os juros elevados e os custos com produtos essenciais, como alimentos e gasolina, pesam no bolso do eleitor.
As Eleições de Meio de Mandato são frequentemente descritas como um termômetro ou um referendo do desempenho do presidente após os dois primeiros anos de mandato. O próprio Trump passou grande parte da campanha pedindo que os eleitores americanos fingissem que ele estava concorrendo, afirmando que isso traria ganhos ao partido.
Diante da baixa histórica na popularidade do líder republicano, que chegou às Midterms com uma média de 32% de aprovação nas pesquisas, não é exagero dizer que, se os cidadãos americanos de fato seguiram o pedido de Trump e votaram como se ele estivesse na cédula, a onda azul reflete as insatisfações do eleitorado com um presidente que não cumpriu suas promessas.
Guerra e tarifas impactam custo de vida
A guerra com o Irã e o subsequente fechamento do Estreito de Ormuz, somados às tarifas e às guerras comerciais, afetaram especialmente eleitores rurais em estados tradicionalmente vermelhos, ou seja, redutos republicanos. É o caso de Iowa e do Kansas, por exemplo, onde candidatos democratas superaram o domínio republicano e conquistaram cadeiras no Senado.
Em paralelo à dor no próprio bolso, o eleitorado americano também acompanhou o crescimento exponencial da fortuna da família Trump e de seus aliados, como o bilionário Elon Musk, nos últimos dois anos, fato que os democratas não deixaram passar em branco.
James Talarico, que será o primeiro senador democrata do Texas desde 1988, passou grande parte da campanha insistindo que a divisão nos EUA não é entre direita e esquerda, mas sim entre o topo e a base da pirâmide. Ele criticou duramente o adversário republicano Ken Paxton por ter a campanha financiada por “megadoadores bilionários”, inclusive o próprio Musk, que investiu centenas de milhares de dólares na disputa.
Voto latino e imigração
O Texas também é um exemplo do peso do voto latino. Se, em 2024, os latinos e hispânicos ajudaram a eleger Donald Trump, a perda de apoio entre essa parcela do eleitorado contribuiu para a derrota do partido Republicano.
Assim como o restante dos eleitores, os latinos e hispânicos também sentem os impactos econômicos das tarifas e da guerra no Oriente Médio. A comunidade hispânica também é parte crítica da cadeia de produção de carne nos Estados Unidos e também sentiu o efeito dos subsídios estrangeiros no setor, que pressionaram os frigoríficos americanos.
Os latinos, sejam eles imigrantes regulares ou não, também compõem a espinha dorsal da mão de obra agropecuária e da construção civil nos EUA. O temor das operações do ICE, a polícia migratória, levou parte desses trabalhadores a se ausentarem do trabalho e causou disrupção no setor. Além disso, a maior parte da população interpreta os métodos agressivos do ICE, que atua sob o Departamento de Segurança Interna, como excessivamente truculentos, afirmando que os esforços foram longe demais.
Votação antecipada
O recorde de votos antecipados também contribuiu para vitória dos democratas, que se manifestaram em peso. Entre democratas, republicanos e independentes, foram mais de 58 milhões de votos antecipados registrados até o dia da eleição, mas o número ainda deve crescer nos próximos dias, quando mais votos por correio chegarem para apuração. Segundo dados da CNN/AP/Catalist, os democratas superam em 13 pontos percentuais os republicanos que votaram antecipadamente, à frente em estados que se revelaram decisivos para a onda azul, como Iowa, Maine, Ohio e Carolina do Norte.
Em muitos estados, os votos antecipados são contados primeiro, alguns até antes do dia de eleição, o que também contribuiu para a vantagem dos democratas que se abriu logo no início da apuração e da divulgação dos resultados.

