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Guerras e “canetadas”: Como Trump deve agir após derrota nas Midterms

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Guerras e “canetadas”: Como Trump deve agir após derrota nas Midterms

O presidente Donald Trump, rejeitado de forma contundente pelos eleitores na terça-feira (3), entra na fase final de sua carreira política com um revés, mas determinado a manter um controle firme sobre o poder. Os últimos anos de sua Presidência devem ser marcados por guerras, ações executivas e projetos de construção, enquanto os democratas se preparam para investigar o governo.

Aliados de Trump admitem que os anos finais de seu mandato podem ser frustrantes. Os democratas prometem abrir investigações que podem atingir o presidente e seus principais aliados, enquanto os republicanos devem começar a definir quem poderá sucedê-lo — possivelmente mais cedo do que ele esperava.

Trump não descartou tentar negociar com os democratas, agora fortalecidos pelo resultado das eleições. Alguns de seus assessores afirmam que a capacidade do presidente de formar alianças improváveis pode ser útil à medida que seu tempo no cargo se aproxima do fim. Fora da oposição, os democratas também estarão sob pressão para demonstrar capacidade de governar, o que poderia incentivar acordos.

Ao mesmo tempo, Trump passou a se chamar de “Sr. Veto” ao comentar como lidaria com os democratas no controle do Legislativo. Seu histórico durante o primeiro mandato, porém, não inspira confiança em uma cooperação entre os partidos.

“Se você tem um Congresso disposto a fazer acordos, ele é um negociador”, afirmou uma fonte envolvida nas discussões internas. “Se você tem um Congresso que vai chegar e imediatamente se concentrar apenas em investigações, então terá uma versão muito diferente de Trump.”

O resultado de terça-feira era aguardado pelo presidente e seus assessores, que se preparavam para essa possibilidade. Trump passou um mês percorrendo estados republicanos na tentativa de preservar as maiorias do partido no Congresso e, ao mesmo tempo, demonstrar sua posição como principal liderança da legenda. A campanha intensa o deixou, segundo ele próprio, exausto e pronto para uma pausa.

Ainda assim, o resultado representou o pior cenário para Trump. Dez anos depois de chegar pela primeira vez à Presidência, a perspectiva de ser visto como um presidente em fim de mandato, sem possibilidade de reeleição, o leva a buscar novas formas de reafirmar sua relevância, segundo autoridades e assessores.

No curto prazo, isso pode significar uma rápida retomada da guerra contra o Irã, que Trump indicou estar preparado para reiniciar após o fim das eleições de meio de mandato. Negociadores americanos e iranianos tentaram, sem sucesso, nos últimos dias chegar a um novo acordo.

A equipe do presidente também passou meses estudando formas de usar amplamente o poder Executivo para avançar em áreas de sua agenda que já não parecem ter chances de aprovação no Congresso, incluindo imigração e gastos federais. Pessoas próximas a Trump afirmam que ele está disposto a testar os limites de sua autoridade para alcançar seus objetivos.

Sem a preocupação com a percepção dos eleitores de que dedica tempo demais à política externa e a seus projetos pessoais, Trump deve se voltar ainda mais para essas duas frentes. Segundo pessoas familiarizadas com o assunto, ele participará de três grandes cúpulas internacionais nas próximas semanas e dedicará mais tempo aos projetos de construção que vem conduzindo em Washington. No dia seguinte à eleição, o presidente convocou um evento improvisado para apresentar as obras do salão de baile da Casa Branca.

Nas horas seguintes à confirmação da vitória democrata nas duas Casas do Congresso, Trump não parecia disposto a assumir responsabilidade pelas derrotas republicanas. Ele citou repetidamente o histórico de derrotas do partido do presidente nas eleições de meio de mandato e reclamou da popularidade e da capacidade de arrecadação de alguns candidatos, embora tenha escolhido muitos deles.

Trump também criticou, em conversas privadas, republicanos que questionaram sua estratégia de transformar as eleições de meio de mandato em uma disputa centrada nele. Em vez disso, atribuiu derrotas anteriores a erros de candidatos ou a supostas fraudes. Ele raramente muda de estratégia após reveses políticos.

Uma eventual reformulação da equipe, no entanto, não foi descartada. Segundo assessores, integrantes do governo já começaram a considerar oportunidades fora da Casa Branca. Seus principais conselheiros políticos atribuem, em particular, o desempenho abaixo do esperado dos republicanos à guerra no Irã, e muitos acreditam que Trump pode procurar alguém para responsabilizar.

À espera das investigações

Os democratas deixaram claro que pretendem usar as maiorias no Congresso para emitir intimações e realizar audiências sobre as ações do presidente e de seus aliados. Durante a campanha, Trump alertou que poderia sofrer um novo processo de impeachment, enquanto pesquisas mostraram que as preocupações dos eleitores com corrupção cresceram antes da eleição.

“Contratem advogados”, escreveu Robert Garcia, futuro presidente democrata do Comitê de Supervisão da Câmara, após o partido conquistar o controle da Casa e, com ele, o poder de emitir intimações.

Advogados do governo se preparam há meses para possíveis investigações. Até setembro, porém, os preparativos mais amplos esperados por parte da ala oeste da Casa Branca para proteger o presidente e seus principais assessores ainda não haviam avançado de forma significativa, segundo conselheiros de Trump, embora alguns funcionários já tivessem contratado advogados.

A chefe de gabinete da Casa Branca, Susie Wiles, costumava interromper discussões sobre uma provável onda de investigações contra integrantes dos mais altos escalões do governo. Segundo um dos assessores, ela acreditava que o tema poderia desviar a atenção da campanha.

“Ela sempre dizia: ‘Nós vamos vencer e vamos colocar toda a nossa energia em vencer’”, relatou o assessor sobre a postura de Wiles nos meses que antecederam as eleições.

Outros funcionários da Casa Branca afirmaram que Wiles havia orientado, em privado, o escritório jurídico da Presidência a se preparar para possíveis ações dos democratas, enquanto dizia aos funcionários para manterem o foco na campanha.

O escritório jurídico também contratou 15 advogados adicionais nos últimos meses para atuar na proteção do governo contra futuras investigações do Congresso.

“Se democratas enlouquecidos quiserem abusar de seu poder, politizar o processo de investigação e de emissão de intimações e tentar destruir vidas, devem ser lembrados de que ainda controlamos o governo federal e todos os seus poderes”, afirmou um funcionário da Casa Branca.

Alguns integrantes do governo contrataram seus próprios advogados ou consideraram adquirir seguros para cobrir os custos que esperam enfrentar caso sejam envolvidos em investigações. Depois que funcionários do primeiro governo Trump enfrentaram despesas elevadas durante a investigação sobre o ataque de 6 de janeiro, membros mais jovens da equipe passaram a avaliar, em privado, se deveriam permanecer em seus cargos.

Também houve conversas entre Trump, o advogado da Casa Branca Will Scharf e outros integrantes do governo sobre a possibilidade de conceder perdões preventivos a funcionários. Uma decisão ainda não foi tomada, mas Trump não descartou a medida.

Muitos integrantes da ala oeste acreditam que o presidente espera o pior das investigações democratas, depois de ter enfrentado dois processos de impeachment durante seu primeiro mandato.

“Ele já passou por isso antes, é claro que espera o pior”, disse uma fonte à CNN.

Em conversas privadas com seus aliados mais próximos, Trump reconheceu a dimensão do que um Congresso controlado pelos democratas poderia representar para seus dois últimos anos de mandato.

“Ele se lembra de como foi ver sua família e seus assessores serem arrastados pela lama, sem falar nos dois processos de impeachment”, afirmou um funcionário da Casa Branca.

Ainda assim, Trump insistiu na quarta-feira (4) que não está “nem um pouco” preocupado com a possibilidade de uma nova investigação para impeachment.

“Acho que isso destruiria o Partido Democrata se fizessem isso. Impeachment sem motivo. O quê? Por ter um país bem-sucedido?”, disse Trump a jornalistas no local das obras do salão de baile da Casa Branca.

Ações executivas sobre imigração, gastos e tarifas

Funcionários da Casa Branca reconhecem que um governo dividido torna praticamente impossível aprovar grandes projetos de lei desejados por Trump. Mas também lembram ao presidente que sua agenda no segundo mandato foi implementada, em grande parte, por meio de decretos presidenciais, sem depender do Congresso.

Assessores afirmam que essa estratégia deve se intensificar com os democratas no controle da Câmara e do Senado.

O uso amplo dos poderes presidenciais por Trump tem sido liderado pelo vice-chefe de gabinete Stephen Miller e pelo diretor do orçamento Russell Vought. Ambos tiveram papel importante no planejamento de algumas das medidas mais controversas adotadas no início do mandato, como o endurecimento da política migratória e cortes profundos em programas do governo federal.

Agora, advogados do governo analisam medidas sobre imigração, gastos federais e tarifas que possam avançar em áreas da agenda presidencial nas quais a ação do Congresso parece improvável. Entre as possibilidades estão endurecer regras para vistos, aplicar novas tarifas sobre importações e flexibilizar determinadas regulamentações.

Uma pequena maioria democrata no Senado pode não alterar de forma drástica a estratégia legislativa de Trump. As regras contra a obstrução exigem 60 votos para a aprovação da maioria das grandes propostas. Uma exceção importante são as nomeações presidenciais, incluindo as de juízes federais. Os democratas poderiam bloquear qualquer indicação à Suprema Corte caso surja uma vaga nos próximos dois anos.

Alguns assessores de Trump acreditam que os democratas, interessados em demonstrar capacidade de governar, buscarão áreas de entendimento, ao menos na janela antes do início do ciclo eleitoral presidencial de 2028.

“Sou uma pessoa que gosta de fazer as coisas acontecerem, e há coisas nas quais podemos trabalhar juntos”, disse Trump à Fox News na terça-feira. Ele citou apenas a imigração como uma possível área de entendimento, sem dar mais detalhes.

Trump prometeu vetar qualquer projeto enviado pelos democratas que entre em conflito com suas promessas. Na terça-feira, publicou uma imagem de um boné vermelho com a palavra “VETO” escrita em letras brancas. Para derrubar um veto presidencial, são necessários dois terços dos votos na Câmara e no Senado.

“Acho que vou me tornar o Sr. Veto”, disse Trump antes da eleição. “E então, em algum momento, provavelmente faremos acordos.”

Mais liberdade na política externa

Depois de passar grande parte dos últimos dois anos concentrado em guerras no exterior, Trump tentou deixar os conflitos no Irã e na Ucrânia em segundo plano durante a campanha das eleições de meio de mandato. Agora, os esforços para encerrar ambos os conflitos devem ganhar novo impulso.

Muitos presidentes, nos últimos anos de mandato, voltam sua atenção à política externa, área na qual seus poderes unilaterais são maiores e o Congresso tem capacidade limitada para restringir suas ações. Essa atuação também pode fortalecer o legado presidencial.

Para Trump, que declara abertamente desejar um Prêmio Nobel da Paz, a situação tem sido frustrante. A guerra no Irã se prolongou mais do que o esperado, e o presidente reclamou, em privado, que o conflito prejudicou significativamente as chances de seu partido nas eleições.

Alguns aliados esperam que Trump encontre alguém para responsabilizar pelo resultado agora que a campanha terminou. O secretário de Defesa, Pete Hegseth, defensor da guerra, é considerado vulnerável por alguns aliados. Democratas e até alguns republicanos já indicaram que ele poderá se tornar um dos principais alvos de possíveis processos de impeachment e outras investigações.

“O ponto principal é que Trump se sente enganado em relação à guerra no Irã — ele foi enganado”, disse um assessor de Trump à CNN. “E alguém deveria pagar por isso.”

Trump disse à Fox na terça-feira que não considera uma mudança no gabinete. Outro integrante de seu círculo afirmou que o presidente deixou claro acreditar que Hegseth deve reagir a possíveis processos de impeachment. Trump defendeu o secretário e classificou como tentativas democratas os esforços para afastá-lo, chamando-o de um “grande guerreiro”.

Em 2006, o então presidente George W. Bush anunciou rapidamente a saída do secretário de Defesa Donald Rumsfeld depois que os republicanos sofreram uma derrota expressiva nas eleições de meio de mandato daquele ano, impulsionada em parte pela impopularidade da guerra no Iraque.

Não está claro se Trump reformularia sua equipe antes de um desfecho definitivo para o conflito com o Irã. Há semanas, seus principais assessores discutem planos para novos ataques ao país, na esperança de encerrar a guerra de oito meses. Nem todos na equipe acreditam que uma ação imediata seria produtiva, e alguns defendem mais tempo para tentar chegar a um acordo.

De qualquer forma, a guerra no Irã se tornou um peso para um presidente que prometeu não envolver os Estados Unidos em conflitos no exterior. Da mesma forma, a guerra na Ucrânia — que Trump prometeu encerrar em um dia após assumir o cargo — passou a representar uma promessa não cumprida.

As negociações entre Ucrânia e Rússia, mediadas pelos Estados Unidos, serão retomadas nesta semana nos Emirados Árabes Unidos. Também estão em andamento os preparativos para uma reunião trilateral entre Trump, o presidente russo Vladimir Putin e o líder chinês Xi Jinping, quando os três se encontrarem em Shenzhen, na China, ainda neste mês.

A escolha de um sucessor

Por mais de uma década, Trump comandou o Partido Republicano com controle rígido, afastando dissidentes e rejeitando aqueles considerados desleais. Mesmo seus aliados admitem que essa era se aproxima do fim.

Segundo alguns republicanos, reafirmar sua relevância diante do resultado eleitoral será um desafio. Se antes Trump era visto como uma liderança partidária difícil de contestar, seu capital político diminuiu e muitos devem passar a enxergá-lo como um presidente em fim de mandato.

Trump, porém, vê a situação de outra forma e não parece disposto a abandonar seu papel de influência enquanto o partido se prepara para as primárias de 2028.

Ao contrário do primeiro ano de seu segundo mandato, quando encerrava rapidamente qualquer conversa sobre um possível sucessor, o presidente passou a demonstrar maior disposição para discutir 2028, segundo seus assessores. Uma fonte próxima afirmou que Trump sabe que, no momento em que indicar um sucessor, sua condição de presidente em fim de mandato estará consolidada.

Os assessores afirmam que conversas mais específicas sobre o tema provavelmente começarão de forma efetiva em janeiro.

“Não quero falar sobre indivíduos porque ainda é um pouco cedo demais para isso”, disse Trump na terça-feira à noite. “Ainda temos um longo caminho pela frente, mas acho que agora será o momento.”

Durante a campanha presidencial de 2024, Trump tratou a escolha de seu vice com uma questão em mente: quem poderia, no futuro, substituí-lo e manter viva a agenda MAGA? Essa consideração teve papel central na decisão de escolher JD Vance.

Mas, ao consultar pessoas próximas sobre quem deveria ser o futuro candidato presidencial republicano, Vance não é o único nome considerado. O secretário de Estado Marco Rubio também aparece com frequência.

Trump afirmou a aliados que quer observar como a campanha das primárias se desenvolverá, especialmente no início. Assessores que apoiam Rubio esperam que o presidente tome uma decisão mais cedo, argumentando que, embora tenha reconhecimento nacional, ele precisaria de mais tempo do que Vance para se tornar conhecido pelo público americano.

Ao percorrer o país no mês passado, Trump falou pouco sobre qual papel pretende desempenhar depois de deixar a Casa Branca. Mas deixou claro que não pretende abrir mão de sua influência.

“Vocês sabem que temos pouco mais de dois anos restantes. Conseguem acreditar nisso?”, perguntou a uma multidão em Sioux City, Iowa, que reagiu com vaias e decepção.

“Mas”, continuou, “vou ter muito poder quando sair.”

Como funciona o sistema eleitoral dos Estados Unidos para as Midterms?