A jornalista e ex-senadora Ana Amélia Lemos e o comentarista da CNN José Eduardo Cardozo debateram, na terça-feira (20), em O Grande Debate (de segunda a sexta-feira, às 23h), se o “presidente Lula (PT) conseguirá governar com Congresso mais à direita?”
Uma semana após a vitória nas urnas, o governo Lula tenta acelerar a aprovação de pautas prioritárias antes da renovação do Congresso, que deve resultar no fortalecimento das bancadas de oposição.
O PL elegeu 121 deputados e 19 senadores, tornando-se a maior bancada nas duas Casas. Já a Federação Brasil da Esperança, do PT, elegeu 88 deputados e nove senadores.
O cenário atual e o desafio de 2027
Ana Amélia Lemos avalia que o momento imediato não representa grande obstáculo para o governo. “Quem tem a caneta na mão e o diário oficial tem muito poder”, afirmou.
Segundo ela, o Congresso que encerra o atual exercício legislativo já é conhecido, o que facilita a articulação política. “Acho que o presidente não terá muita dificuldade. A questão é 2027”, pontuou.
Para Ana Amélia, a partir de fevereiro de 2027, com a posse de uma oposição mais robusta, haverá dificuldades mais concretas. No entanto, ela acredita que pressões externas ao Parlamento poderão influenciar o processo legislativo em pautas de interesse da sociedade. Ela também destacou que Lula já sinaliza para a permanência de Davi Alcolumbre no comando do Senado e de Hugo Mota na Câmara, o que facilitaria a governabilidade.
A jornalista chamou atenção para um ponto considerado prioritário pela oposição: a questão do impeachment de ministros da Suprema Corte. “Um tema que, para o presidente, se mantido Davi Alcolumbre, ele vai certamente, como já prometeu, guardar na gaveta esse assunto que é indigesto”, disse.
Ana Amélia ressaltou que tanto o Poder Executivo quanto uma parcela significativa dos parlamentares preferem evitar esse debate, assim como a própria Suprema Corte.
Sistema político fragmentado dificulta qualquer governo
José Eduardo Cardozo trouxe uma perspectiva mais estrutural ao debate. Para ele, o sistema político brasileiro, da forma como está organizado, gera dificuldades de governabilidade para qualquer presidente, independentemente de sua orientação ideológica.
“O sistema brasileiro, da forma em que ele está, ele traz a ingovernabilidade ou a dificuldade de governar para qualquer presidente da república. Pouco importa se ele é de direita, de esquerda, de centro”, afirmou.
Cardozo apontou o modelo de emendas parlamentares como um dos principais entraves à formação de coalizões sólidas. Segundo ele, ao garantir aos parlamentares uma fatia do orçamento de forma autônoma, reduz-se a margem para negociações programáticas entre o Executivo e o Legislativo. “Eu reduzo a margem de diálogo, de discussão sadia para conseguir-se maioria parlamentar”, explicou.
Apesar das adversidades, Cardozo demonstrou cautela otimista em relação à capacidade de Lula de navegar pelo novo Congresso. Ele avaliou que o bloco de parlamentares eleitos pela direita ou com apoio bolsonarista não necessariamente atuará de forma coesa. “Acho que haverá divisões internas e pesadíssimas”, disse.
Para o comentarista, uma parcela da direita que foi “capturada pelo bolsonarismo” pode agora se libertar e romper com o bloco. “A possibilidade dele não agir como bloco cimentado na perspectiva de uma atuação política é muito grande”, concluiu. Em síntese, Cardozo acredita que Lula pode ter condições de governar, mas enfrentará as dificuldades inerentes ao atual sistema político brasileiro.

