Um novo relatório produzido pelo ICCI (International Cryosphere Climate Initiative) e o Pnuma (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente) nesta segunda-feira (2) alerta que se a temperatura do planeta ultrapassar 1,5°C, perdas irreversíveis no nível de gelo na Terra devem ocorrer.
Isso acarretaria para todo o mundo danos irreparáveis e outros que devem persistir por séculos, como a elevação do nível do mar, sua dessanilização, mudança nos fluxos marinhos, inundações e intensificação de eventos climáticos extremos.
O documento reuniu uma equipe internacional de mais de 80 cientistas especializados em regiões polares e montanhosas, e analisa o chamado “overshoot”. O fenômeno compreende a elevação da temperatura acima do estipulado pelo Acordo de Paris em 2015 por um período, mas o seu resfriamento em seguida.
Tal abordagem defendida para desacelerar a transição energética, no entanto, é apontada pelos especialistas como um mito. Se isso acontecer, o derretimento do gelo global e transformações irreversíveis em escalas de tempo relevantes para a sociedade humana serão inevitáveis.
O relatório serve como complemento ao Limiting Overshoot Spotlight Report do PNUMA, que destacou que o aquecimento deve acontecer já nos próximos anos se ações não forem tomadas. Apresentado em setembro em Nairóbi, foi o primeiro desse tipo produzido por uma agência da ONU (Organização das Nações Unidas).
Consequências do Overshoot
Segundo o relatório o derretimento dos mantos polares na Groenlândia e na Antártida já está seis vezes mais rápido que na década de 1990, e quanto maior for o aquecimento, o ritmo tende a piorar.
Essa perda de massa impacta principalmente a sociedade pela elevação do nível do mar e instabilidades nos oceanos. O aumento deve atingir entre 50 centímetros e 1 metro até 2100, ultrapassando os limites adaptáveis de regiões costeiras.

Além disso, com a maior entrada de água doce nos oceanos, a sua dessanilização é provocada, além da acidificação. Isso prejudica ecossistemas inteiros que dependem de água salgada, como recifes de corais e bactérias que produzem oxigênio.
No pico do chamado overshoot o Ártico deve passar a ter verões sem gelo também. O relatório aponta que mesmo com o resfriamento futuro da lógica, a recuperação será atrasada por décadas ou séculos devido ao excesso de calor armazenado nos oceanos.
Efeitos colaterais como erosão costeira, perda de ecossistemas dependentes de gelo e colapso de plataformas de gelo podem ser irreversíveis, e o fenômenos como o Super El Niño enfrentado atualmente devem se intensificar ainda mais pelo calor retido no oceano que ele libera.
Outra consequência é o descongelamento do Permafrost, camada que deve permanecer congelada. O seu derretimento deve liberar quantidades de CO2 (gás carbônico) comparáveis a países inteiros, e é irreversível. Além disso, essa camada estabiliza o solo e deslizamentos e instabilidades aumentam com a sua perda.
O abastecimento de água de muitos locais também pode ser corretamente comprometido, pela redução das chamadas torres de água, baseadas no gelo glacial. Isso também causará mais desastres naturais súbitos, como inundações, pelo derretimento.

Medidas precisam ser adotadas
Em setembro o Pnuma alertou que o mundo deve ultrapassar a meta estabelecida em 2015 já nos próximos anos, mas que existem medidas para reverter essa tendência. Os cientistas defendem que é essencial os tomadores de decisão entenderem que um aquecimento acima do nível estabelecido pelo Acordo de Paris para desacelerar a descarbonização e depois resfriar o planeta não é gerenciável.
Medidas urgentes devem ser adotadas por governos no mundo todo para manter o aquecimento abaixo de 1,5°C e evitar o overshoot que os cientistas preveêm, pois perdas irreparáveis devem acontecer.
Para isso a transição energética é apontada como primordial, destacando que as nações devem ir além das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) atuais e acelerar a transição dos combustíveis fósseis (energia, transporte e indústria) para atingir emissões líquidas zero (net zero) até meados desse século.
Reduzir drasticamente as emissões no curto prazo é apontada como única forma de manter o pico de temperatura o mais próximo possível da meta, e no pior dos casos ficar em 1,7 °C. Outra prioridade deve ser a redução na emissão de gás metano e fuligem, diretamente ligados ao desmatamento e pecuária.
Também é defendida maiores iniciativas de retirada de carbono da atmosfera para que planeta resfrie ao menos 1°C no próximo século. Porém, os especialistas destacam que o mercado de carbono para compensar emissões não deve ser usado como desculpa para continuar poluindo, frisando uma real descarbonização dos setores.
O relatório destaca que se a meta de 2015 for alcançada, 54% do gelo glacial deve ser preservado, e alguns efeitos podem ser evitados.
No entanto, eles alertam que a meta prevê não piorar ainda mais eventos climáticos extremos como os já presenciados pelo mundo, como o Super El Niño atual, tornados e secas mais severas.
Por isso, sistemas de prevenção e resiliência climática devem ser priorizados nas agendas políticas, além do financiamento para países pobres da transição energética pelos países mais desenvolvidos, que mais contribuem para as mudanças climáticas.
Além disso, os especialistas exigem que a criosfera e os impactos irreversíveis de sua perda deixem de ser um tema secundário e sejam explicitamente incorporados nas negociação de clima da ONU. A próxima COP (Conferência do Clima) está marcada para 9 a 20 de novembro em Antália, Turquia.
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*Sob supervisão de André Rigue

