Lindsay Clancy deve voltar a um tribunal de Massachusetts nesta segunda-feira (2) para uma audiência que poderá determinar a data de um novo julgamento pelas acusações de homicídio dos três filhos — ou até mesmo se ele será realizado.
As partes devem discutir o agendamento de um novo julgamento, enquanto a defesa tenta investigar um jurado dissidente cuja convicção de que Clancy era culpada levou à anulação do julgamento em setembro.
Embora o juiz William Sullivan já tenha rejeitado vários pedidos da defesa, ainda estão pendentes uma solicitação para arquivar o caso com base no princípio que impede que uma pessoa seja processada mais de uma vez pelo mesmo crime e outras questões.
Os promotores ainda não informaram se pretendem julgar Clancy uma segunda vez. Também existe a possibilidade, embora remota, de um acordo judicial que poderia encerrar definitivamente o caso.
A audiência desta segunda-feira é o mais recente desdobramento de um processo por triplo homicídio que se tornou um dos julgamentos criminais mais debatidos dos últimos tempos durante o verão americano, antes de terminar sem uma decisão do júri.
Os promotores argumentaram que Clancy, de 36 anos, “agiu de maneira intencional, racional e rápida” ao estrangular os três filhos até a morte na casa da família, em Duxbury, e tentar cometer suicídio em janeiro de 2023.
A defesa alegou que ela sofria de psicose pós-parto na época e não poderia ser responsabilizada criminalmente pelas mortes de Cora, de 5 anos; Dawson, de 3; e Callan, de 8 meses.
O julgamento de Clancy colocou em evidência a saúde mental materna, a tendência da internet a disseminar teorias da conspiração e o ceticismo persistente em relação à chamada defesa por insanidade mental.
Após mais de um mês de depoimentos, o júri de 12 pessoas não conseguiu chegar a uma decisão unânime devido à posição de um único jurado, que resultou em uma divisão de 11 a 1 a favor de considerar Clancy inocente por ausência de responsabilidade criminal. Sullivan declarou a anulação do julgamento devido ao impasse.
Clancy não prestou depoimento durante o julgamento. Ela está internada no Hospital Tewksbury desde pouco depois das mortes e continua parcialmente paralisada em decorrência da tentativa de suicídio.
Caso seja condenada, poderá receber prisão perpétua. Se os jurados concluírem que ela não pode ser considerada criminalmente responsável, o tribunal provavelmente iniciará o processo de internação em um hospital psiquiátrico.
Pedidos da defesa após a anulação do julgamento
Após a anulação do julgamento, o advogado de defesa de Clancy, Kevin Reddington, apresentou vários pedidos para tentar impedir a realização de um novo julgamento. No fim de setembro, Clancy compareceu ao tribunal pela primeira vez desde o encerramento do julgamento, e as partes discutiram alguns desses pedidos.
Reddington busca obter mais informações sobre o jurado dissidente, incluindo determinados registros de telefone celular e seu questionário de seleção para o júri. Ele também pediu que o juiz o interrogasse sobre algumas de suas declarações prestadas sob juramento, segundo um documento apresentado à Justiça.
O jurado dissidente, Michael Péguy Desronvil, afirmou que sua posição foi distorcida por alguns de seus colegas que conversaram com a imprensa.
Anteriormente, Reddington havia solicitado ao tribunal, por meio de um documento, uma audiência para produção de provas, com o objetivo de interrogar novamente o único jurado dissidente. Sullivan rejeitou o pedido em 21 de outubro, afirmando que ele havia sido apresentado tarde demais e representava uma violação “inadequada” da privacidade dos jurados.
“Este Tribunal conclui que qualquer investigação judicial adicional é inadequada, diante da determinação de que o tribunal não deve investigar o raciocínio subjetivo de um jurado, seu processo de pensamento, sua visão do caso ou sua relação com os demais jurados, nem deve questionar o conteúdo das deliberações, o processo de pensamento coletivo ou qualquer divergência entre os integrantes do júri”, escreveu o juiz.
Em outro documento, Reddington pediu ao juiz que arquivasse as acusações para evitar a violação dos direitos de Clancy que a protegem contra a dupla persecução penal, princípio jurídico que proíbe processar uma pessoa mais de uma vez pelo mesmo crime.
Ele argumentou que o juiz agiu de maneira inadequada ao se recusar a interrogar novamente o jurado dissidente ou o presidente do júri durante as deliberações e ao declarar a anulação do julgamento sem uma “necessidade manifesta”, um critério jurídico rigoroso que significa que todas as outras possibilidades de chegar a um veredicto foram esgotadas.
Em contrapartida, os promotores argumentaram em um documento que o juiz interrogou corretamente os jurados em tribunal e seguiu a lei ao declarar a anulação do julgamento.
Na audiência judicial de setembro, Reddington pediu ao juiz que declarasse Clancy inocente, argumentando que os promotores não apresentaram provas suficientes de que ela havia matado os próprios filhos.
“Onde estão as provas de que ela fez isso?”, questionou.
A acusação classificou o argumento como “risível”, e o juiz Sullivan rejeitou a solicitação da defesa alguns dias depois.

