O ministro dos Transportes da Espanha, Oscar Puente, rejeitou nesta sexta-feira (30) pedidos por sua renúncia após o segundo acidente ferroviário com um grande número de vítimas sob sua gestão neste ano, enquanto as autoridades trabalhavam para identificar as vítimas de uma colisão que matou pelo menos 69 pessoas.
Parlamentares de todo o espectro político criticaram, ao longo desta semana, o ministro após ele ter atribuído o acidente de quarta-feira (28) a uma falha de protocolo por parte dos operadores da central de controle, em vez de assumir a responsabilidade; sindicatos de trabalhadores ferroviários chegaram a exigir sua demissão imediata.
O acidente, ocorrido perto da cidade de Urda, no centro da Espanha, é o segundo do tipo com várias vítimas neste ano; outro episódio envolvendo as mesmas empresas ferroviárias na mesma linha resultou na morte de 46 pessoas em janeiro.
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O caso reacendeu o debate sobre a segurança e a manutenção da rede ferroviária de alta velocidade da Espanha — a mais extensa da Europa —, justamente em um momento em que o país se prepara para eleições, convocadas pelo primeiro-ministro de esquerda, Pedro Sánchez, para o dia 29 de novembro.
“Meu dever, neste momento, não é discutir se permanecerei no cargo, mas sim resolver o problema, determinar exatamente o que aconteceu e oferecer explicações claras”, afirmou Puente em uma coletiva de imprensa nesta sexta-feira.
No local do acidente, grandes guindastes removiam os destroços retorcidos, enquanto a Guarda Civil registrava 64 pessoas como desaparecidas — trata-se do acidente ferroviário mais letal na Espanha desde 2013.
Ainda não está claro se todas as pessoas dadas como desaparecidas já foram contabilizadas no número de mortos.
Até o momento, as autoridades realizaram 49 autópsias e identificaram formalmente cinco pessoas — três mulheres e dois homens —, informou Esther Padilla, porta-voz do governo regional de Castilla-La Mancha, à emissora estatal TVE.
Autoridades não descartam mais vítimas fatais
Nenhum outro corpo foi encontrado quando as equipes de resgate viraram um vagão na quinta-feira (29), relatou Emiliano García-Page, líder regional de Castilla-La Mancha, à TVE.
A identificação dos corpos tem se mostrado complexa, uma vez que muitos foram encontrados desfigurados e despedaçados, explicou ele. Na quinta-feira, as equipes de resgate haviam recolhido restos mortais em 31 sacos.
“Não podemos descartar a possibilidade de mais vítimas fatais”, disse García-Page.
A colisão ocorreu após vários trens terem sido parados automaticamente devido a uma falha no sistema de sinalização, momento em que o centro de controle central, em Madri, assumiu a operação.
Segundo Puente, um trem operado pela estatal Renfe recebeu autorização para seguir viagem, mesmo havendo, logo à frente, um trem da operadora Iryo parado na via.
Áudios das comunicações entre o centro de controle e os maquinistas, obtidos pelo jornal El País, revelaram que um controlador autorizou o trem da Renfe a prosseguir em velocidade normal — o que, segundo Puente, contrariou o protocolo que exige que, nessas circunstâncias, a velocidade não ultrapasse 40 km/h.
Controladores defendem que o foco deve estar na falha do sistema de sinalização
O debate sobre a responsabilidade pelo acidente se intensificou, com sindicatos argumentando que é injusto atribuir a culpa a um “erro humano”.
Raquel Ayllon, representante sindical na Adif — a estatal responsável pela infraestrutura ferroviária —, afirmou que os controladores têm trabalhado sob condições difíceis.
“O erro humano está sendo criticado e questionado muito rapidamente, enquanto, na verdade, não se está focando na questão central: a falha no sistema de segurança”, declarou Ayllon à emissora TVE.
Puente informou que o número de funcionários no centro de controle em Madri quase dobrou desde 2012 e que o controlador responsável pela autorização estava em seu posto há duas horas quando a colisão ocorreu.
“Nunca utilizei o termo ‘erro humano’, embora isso não signifique que não tenha ocorrido um erro humano”, afirmou.
Ele acrescentou que o sistema de controle ferroviário LZB, que apresentou falha na quarta-feira, registra uma média de 170 falhas por ano — um índice semelhante ao observado no restante da Europa.
Documentos públicos indicam que o sistema estava com uma atualização pendente.
Segundo um relatório da UNIFE — associação europeia do setor ferroviário e responsável pelo desenvolvimento do novo padrão —, o ERTMS (Sistema Europeu de Gestão de Tráfego Ferroviário) já foi implementado na maior parte da rede ferroviária de alta velocidade da Espanha.
A Thales España, braço espanhol da fabricante francesa de equipamentos, conquistou um contrato em 2021 para instalar o ERTMS na linha Madri-Sevilha — local dos dois acidentes fatais — até o início de 2026; no entanto, o projeto sofreu atrasos e, em 2024, a responsabilidade pela execução passou para a Hitachi Rail, segundo a Thales.
A empresa optou por não comentar o atraso na implementação.
Puente afirmou que a previsão é que o sistema ERTMS na linha Madri-Sevilha entre em operação no início de 2027, acrescentando que o atraso deveu-se à complexidade de instalar o sistema mantendo a linha em funcionamento.

