A população de Israel foi às urnas na terça-feira (27) para eleger o novo Parlamento do país. As bocas de urna mostram um cenário de indefinição e que nem o bloco de Benjamin Netanyahu, o primeiro-ministro, nem o de Gadi Eisenkot, principal líder opositor, conseguirão maioria.
Esta foi a primeira votação após o ataque terrorista do Hamas de 2023, que desencadeou a guerra na Faixa de Gaza. Ela também acontece após conflitos no Líbano e contra o Irã.
Agora, os partidos políticos negociam e conversam entre si para tentar reunir uma coalizão que consiga formar um novo governo.
O próximo governo de Israel herdará a falta de confiança da população, um orçamento deficitário e o desafio de encerrar conflitos em andamento.
Quais serão os principais desafios do próximo governo?
Falta de confiança da população
O último relatório anual do Israel Democracy Institute, divulgado em dezembro de 2025, mostrou que apenas 29,5% dos israelenses consideram boa a situação do país.
A confiança da população nas instituições israelenses também é baixa: quase metade dos entrevistados (46,5%) disseram que seria melhor “desmanchar todas as instituições políticas do país e recomeçar do zero”.
Entre judeus e árabes, a confiança no governo não passa de 25%, e no Knesset, o Parlamento, de 18%.
“O israelense médio se interessa muito por política. Ele sabe da importância que tem o Parlamento, a democracia, o sistema parlamentarista, mas entende que esse último Parlamento, especificamente, não corresponde àquilo para o que foi eleito e vê uma oportunidade de mudança”, afirma João Miragaya, assessor do Instituto Brasil-Israel e mestre em História pela Universidade de Tel Aviv.
Conflitos inacabados e trauma do 7 de outubro
O próximo governo de Israel ainda terá que enfrentar conflitos que se arrastam há anos.
Apesar do plano de paz apoiado pelos Estados Unidos, as forças israelenses continuam realizando bombardeios na Faixa de Gaza e controlam cerca de 60% de seu território. O Hamas também não desarmou, sendo que isso é uma das principais reivindicações do governo de Israel.
Além disso, uma trégua não impediu novas trocas de ataques no sul do território do Líbano com o Hezbollah, grupo que também recusa a se desarmar e é visto como uma ameaça pela população israelense.
E, apesar da ofensiva conjunta com os EUA, o Irã ainda não abriu mão de suas pretensões de desenvolver um programa nuclear e continua sendo governado pelo regime linha dura.

O professor Michel Gherman, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), também chama a atenção para o desafio de reconstruir estruturas de segurança confiáveis, que ficaram fortemente abaladas depois do ataque do Hamas de 7 de outubro de 2023.
“O 7 de outubro ainda é o grande tema de discussão, o grande trauma”, avalia o especialista, principalmente após uma reportagem do jornal Hareetz afirmar que Netanyahu teria sido avisado pelo líder dos Emirados Árabes Unidos sobre uma ameaça do Hamas com dias de antecedência ao ataque, acusações que ele nega.
Outro ponto que é alvo de grande discussão no país relacionado ao 7 de outubro é a responsabilização pelas falhas de segurança que permitiram o ataque do Hamas.
Samuel Feldberg, doutor em Ciências Políticas pela USP e pesquisador da Universidade de Tel Aviv, explica que foi criada uma comissão de inquérito para apurar essas falhas, mas ela está submetida ao próprio governo, o que levanta questionamentos sobre sua independência.
Assim, parte da comunidade israelense defende a formação de uma comissão parlamentar que possa, eventualmente, responsabilizar o próprio governo, se necessário.
Ultraortodoxos no Exército
Um outro ponto de atrito dentro da população de Israel é a isenção militar aos ultraortodoxos mesmo em um momento com muitos conflitos envolvendo o país.
“Israel tem um governo que se apoia nos partidos ultraortodoxos, que têm como principal demanda para se manter no governo a isenção do serviço militar para aqueles jovens ortodoxos que querem continuar estudando nas escolas religiosas quando fazem 18 anos e, portanto, deixam de se alistar”, explica Feldberg.
O especialista aponta que este é um elemento importante de discussão na sociedade, porque o impacto da guerra e do serviço militar nos últimos anos criou um peso muito grande para o setor laico, havendo demanda para que haja um engajamento maior de outros setores.
Déficit alto e custo de vida
Já na economia, os anos de guerra e os gastos elevados com defesa aumentaram o déficit, que chegou a quase 7% do PIB em 2024 e baixou para 4,7% em 2025.
Um relatório do Banco de Israel estima que os primeiros dois anos da guerra custaram mais de US$ 57 bilhões em perda de produção. O dado ainda não inclui a campanha militar contra o Irã, iniciada em fevereiro de 2026.
“As consequências da guerra — incluindo as restrições à oferta de mão de obra e os custos fiscais do conflito — continuaram a pesar sobre a economia”, afirma o banco central israelense.
“Esses efeitos refletiram-se em uma perda significativa de produção em relação à tendência de crescimento anterior à guerra, em um declínio da renda per capita e em um aumento notável da relação dívida/PIB”, adiciona.
Com isso, o novo governo de Israel também terá que lidar com o aumento no custo de vida no país.
“O custo de vida em Israel subiu muito, especialmente na região central, e está tornando muito difícil a vida dos jovens que têm que iniciar uma carreira profissional”, pontua Samuel Feldberg.
De acordo com a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), o país apresenta um dos “níveis de preços comparativos mais elevados do bloco, o que reduz o bem-estar e acirra as tensões sociais”.
Isolamento internacional de Israel
Outro desafio que o próximo governo de Israel terá que superar é o isolamento internacional do país, visto que a imagem da nação do Oriente Médio saiu arranhada após anos de guerra e de milhares de mortes na Faixa de Gaza.
Uma pesquisa do Pew Research Center de junho deste ano, conduzida em 36 países, mostrou que 67% dos entrevistados têm uma visão desfavorável de Israel, enquanto 25% afirmam ver o país de forma positiva.

Além disso, a relação de Israel ficou estremecida com várias nações, incluindo o Brasil. Tornou-se comum, por exemplo, que diplomatas e chefes de Estado se retirem dos discursos de Israel na ONU como forma de protesto.
Mais recentemente, produtos de assentamentos israelenses na Cisjordânia se tornaram alvos de sanções de um grupo de 12 países, incluindo aliados ocidentais como Reino Unido e França.
A Corte Internacional de Justiça afirmou em 2024 que a presença contínua de Israel nos territórios palestinos ocupados é ilegal e deve acabar “o mais rápido possível”.
Questão do território palestino
E um dos principais fatores do isolamento internacional de Israel é exatamente a disputa em relação à criação do Estado palestino.
“Existem forças dentro do governo atual que pedem a declaração de soberania de Israel sobre esses 60% de território de Gaza que estão ocupados”, pontua João Miragaya.
Mas, além da guerra na Faixa de Gaza, o próximo governo também terá que lidar com a Cisjordânia, território palestino ocupado que tem presenciado o aumento dos assentamentos de colonos israelenses.
Em abril deste ano, a CNN noticiou que o gabinete de segurança de Israel aprovou secretamente a legalização de 30 assentamentos e fazendas na Cisjordânia, segundo três fontes.
Duas dessas fontes explicaram que a aprovação foi mantida em sigilo para evitar críticas internacionais em meio ao aumento da violência de colonos contra palestinos desde o início da guerra com o Irã.
João Miragaya pondera, entretanto, que esta eleição não deve levar à chamada Solução de Dois Estados, que prevê um Estado judeu e um palestino coexistindo pacíficamente.
“Desde o 7 de outubro, a pequena maioria que era favorável aos dois Estados passou a ser uma minoria de um quarto a um terço da população. Então, não é uma eleição que deva gerar esperanças pela criação de um Estado palestino, pela resolução do conflito entre Israel e os palestinos, de forma definitiva”, conclui o especialista.
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