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O homem mais idoso do mundo é do Ceará. Por que o Brasil tem o 2º maior número de supercentenários nas Américas?

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 2 horas)
O homem mais idoso do mundo é do Ceará. Por que o Brasil tem o 2º maior número de supercentenários nas Américas?

O atual homem mais velho do mundo é brasileiro. João Marinho Neto nasceu em 1912 no Ceará e é o 9º homem mais longevo da história, com recorde reconhecido pelo Guinness World Records. Ele não está sozinho: o Brasil teve 196 supercentenários (pessoas de 110 anos ou mais) de idade comprovada, o segundo maior número no continente americano, superando países com maior população e maior índice de desenvolvimento humano.

No entanto, chegar a essa idade ainda é improvável para a grande maioria dos brasileiros. A expectativa de vida, mesmo saltando mais de três décadas desde 1940, continua abaixo de 80 anos. Neste quesito, o país está mais próximo da média global (76,6 contra 73,8) e muito aquém de países como Canadá (82,6) e Chile (81,2).

Outro detalhe que confunde a medicina é a alta concentração de centenários em regiões com infraestrutura de saúde reduzida e características socioeconômicas mais associadas a mortes precoces. Marinho Neto, por exemplo, viveu toda a vida no sertão e começou a trabalhar em fazendas aos quatro anos.

Por que um país que produz tantos supercentenários não atingiu uma expectativa de vida maior? Este é um dos temas investigados por Mayana Zatz, geneticista e diretora do Centro de Pesquisas do Genoma Humano e Células-Tronco da Universidade de São Paulo. Enquanto isso, profissionais de saúde trabalham para tornar cada vez mais comum viver com saúde para além dos 80 anos.

À procura de pistas sobre a longevidade

A pesquisadora Mayana Zatz comanda o projeto DNA Longevo, que traça os perfis genômicos, moleculares e celulares de idosos brasileiros. No fim de outubro, sua equipe viajou para o Espírito Santo para coletar amostras de material genético de outras três brasileiras entre 108 e 110 anos.

“Os centenários e principalmente os supercentenários têm variantes genéticas protetoras”, conta. Ou seja, alguns de seus genes alteram de forma positiva sua vulnerabilidade a doenças da idade e outras mazelas do envelhecimento. “Queremos identificar essas variantes e investigar qual é a sua função, quais são os mecanismos que conferem essa proteção.”

Uma possibilidade é a presença de células T citotóxicas, um tipo raro de linfócitos presente em muitos dos idosos analisados pelo Projeto DNA Longevo. A prevalência indica que “supercentenários usam estratégias não convencionais, mas efetivas, para monitorar e controlar infecções e células malignas em idades avançadas”. Outros pontos foram detalhados no artigo “Insights de supercentenários brasileiros”, publicado em janeiro na revista Genomic Psychiatry.

Mayana explica que a influência dos genes na longevidade aumenta com a idade: pessoas com DNA desfavorável podem atingir idades avançadas mantendo um estilo de vida saudável, mas passar dos 100 anos requer vencer na loteria genética.

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Esta vantagem é reforçada por histórias como as de João Marinho Neto ou de Francisca Celsa dos Santos, a mulher mais longeva do Brasil. Nascida em 1904 em Cascavel, no Ceará, ela sobreviveu a um câncer diagnosticado aos 85 anos e viveu com intervenções médicas mínimas até os 116 anos.

“Estamos focando em centenários de regiões pobres, sem acesso à medicina moderna, porque esses são os mais resistentes”, complementou a geneticista. “Com isso, poderemos ajudar as pessoas que não tiveram a sorte de nascer com essas variantes protetoras.”

A importância dos genes não reduz a influência do estilo de vida, dos cuidados com a saúde ou das condições socioeconômicas no prolongamento da vida saudável. Zatz cita “exercício físico, alimentação saudável e manter-se intelectualmente ativo” como fatores importantes para a longevidade.

Diversidade étnica é vantagem?

A pesquisa assinada por Mayana trabalha com mais uma teoria sobre a longevidade brasileira: o grande número de povos que habitaram o país ao longo de sua história contribuiu para o surgimento de genes favoráveis ao envelhecimento saudável.

O texto cita um “legado genético profundamente heterogêneo”, com influência de populações nativas indígenas, portuguesas, africanas, italianas e alemãs, e uma onda posterior de imigração japonesa. “Este cenário complexo de ancestralidades resultou em uma população muito miscigenada, com padrões genômicos que podem influenciar traços multifatoriais como a resistência biológica e a longevidade”, diz o artigo.

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O cearense João Marinho Neto em seu aniversário de 113 anos • Wikimedia Commons

Dados demográficos revelam outros padrões

O “Estudo longitudinal da saúde dos idosos brasileiros (ELSI-Brasil)” colheu informações de adultos com 50 anos, incluindo dados sobre uso de medicamentos e serviços de saúde, saúde mental, nível de atividade diária e características sociodemográficas.

Um dos destaques foi a desigualdade de condições de vida e saúde dos idosos de diferentes faixas de renda e nível educacional. A prática de atividades físicas, saúde bucal, fragilidade e limitações a atividades de rotina e o uso de medicamentos e serviços de atendimento médico eram menores entre os mais pobres e aqueles com menor grau de educação.

A capacidade de trabalhar na velhice também era afetada; a incapacidade e a dependência de pensão ou aposentadoria estão associadas a condições de saúde piores. Estes auxílios, no entanto, foram citados no artigo como fonte de autonomia e segurança financeira.

Já um estudo de microdados da Pesquisa de Orçamentos Familiares de 2018, feito por pesquisadores interdisciplinares da UFRJ e UFRN (Universidades Federais do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Norte, respectivamente), apontou que idosos que não recebem os benefícios têm mais chances de serem classificados como não-longevos (vivendo entre 60 e 79 anos).

Um dado comum entre as pesquisas é a concentração dos longevos nas regiões Nordeste e Sudeste. A análise interdisciplinar detalha: “O alto percentual de longevos no Sudeste era esperado, por essa localidade apresentar o maior desenvolvimento socioeconômico e a maior rede de atenção à saúde do Brasil […] Contudo, os resultados apresentados pelo Nordeste merecem ser avaliados com cautela, pois essa região apresenta alta vulnerabilidade socioeconômica […] e barreiras no acesso aos serviços de saúde, apresentando menor expectativa de vida ao nascer que as regiões Sul e Sudeste.”

O papel da medicina em prolongar a vida saudável

Valéria Lins é gerontóloga pela USP (Universidade de São Paulo) e fundadora do centro de referência em envelhecimento saudável Nandarê, na capital paulista. Ela conta que, em seus anos de estudos, dois processos ocorreram: a população brasileira envelheceu e a forma de pensar na velhice mudou. “Em 2010, falávamos sobretudo de lifespan, que é o tempo de vida. Hoje sabemos que isso não basta”, diz. “Importa viver com qualidade, autonomia e cognição preservada.”

Idosos durante prática de atividade física no Nandarê
Grupo durante prática de atividade física no Nandarê, em São Paulo (SP) • Divulgação

Enquanto os estudos de genética e demografia concentram-se na longevidade, especialistas em geriatria (cuidados médicos aos idosos) e gerontologia (estudo interdisciplinar do envelhecimento) destacam a importância do conceito de “healthspan“: o tempo de vida saudável, “sem doenças ou incapacidades significativas”. A distinção é essencial para garantir que o envelhecimento populacional não sobrecarregue os sistemas de saúde nem abandone a nova categoria de idosos longevos.

“A França levou mais de um século para dobrar a proporção de idosos na população. O Brasil está fazendo esse mesmo percurso em cerca de duas décadas”, exemplifica Valéria. “Antes, quem se aposentava aos 60 tinha poucos anos pela frente. Hoje, esse mesmo adulto pode viver mais duas décadas ou mais. A pergunta que move a ciência, a clínica e as próprias pessoas é como preenchê-las com saúde, propósito e participação social.”

Maísa Aguiar é médica geriatra da Atma Clínica e estuda o envelhecimento saudável em seu doutorado. Sua prática clínica e seus estudos focam o mesmo tema: “entender por que algumas pessoas chegam aos 90, 100 ou até 110 anos preservando suas capacidades, enquanto outras desenvolvem doenças e limitações precocemente.”

“Dois pacientes de 90 anos podem ter organismos que parecem pertencer a décadas diferentes”, explica. Ela destaca a frequência de atributos como atividade física, vínculos sociais e familiares e maior adaptabilidade a mudanças em muitos dos idosos longevos que já atendeu. “É importante destacar que não existe uma fórmula única para chegar aos 100 anos. A longevidade extrema resulta de uma interação complexa entre fatores genéticos, ambientais, comportamentais e sociais.”

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