Nesta cidade fronteiriça, de cerca de 700 habitantes, não é possível separar os Estados Unidos do Canadá — independentemente da política.
Ao percorrer suas ruas, dois elementos se destacam: uma via que conduz ao posto de controle na fronteira entre os dois países e uma biblioteca que, há mais de um século, personifica o laço duradouro entre as duas nações vizinhas e aliadas.
A Haskell Free Library and Opera House (Biblioteca e Casa de Ópera Haskell) foi inaugurada em 1901, com a fronteira entre os EUA e o Canadá passando exatamente pelo meio do edifício, demarcada por uma linha preta no piso. Algumas partes da biblioteca situam-se em Vermont, enquanto outras ficam no Quebec; contudo, os visitantes podem transitar livremente por ambos os lados.
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No térreo, encontram-se livros em inglês e francês, ao passo que, no andar superior, há um teatro onde os espectadores podem sentar-se nos Estados Unidos, mantendo os pés no Canadá.
“Eu frequentava muito essa biblioteca quando era criança”, contou à CNN Janice Beadle, moradora de Derby Line. Ela relata viver nesta fronteira há 72 anos e, ao pensar nas mudanças feitas na biblioteca, diz sentir apenas “muita indignação”.
A biblioteca foi construída propositalmente sobre a linha de fronteira para promover uma maior compreensão entre os dois lados. Por mais de um século, os canadenses puderam utilizar a entrada principal da biblioteca, situada no lado americano, sem precisar passar por um posto de controle fronteiriço oficial.
Até agora. No ano passado, a administração Trump exigiu que a biblioteca construísse uma entrada separada no lado canadense — obra que foi concluída em junho.
Assim, ao celebrar seu 125º aniversário neste mês, a biblioteca conta agora com duas entradas oficiais: uma para cada país.
“Pensei comigo mesma: ‘que absurdo’”, disse à CNN Sharon Campbell, moradora da região. Ela compartilha uma característica peculiar com a biblioteca: a fronteira entre os EUA e o Canadá também atravessa a casa onde ela mora com o marido — uma dinâmica inevitável nesta cidade incomum.
“O que virá a seguir? Vão colocar um agente da Patrulha de Fronteira lá dentro para verificar quem é dos Estados Unidos?”, lamentou ela.
“Isso já é exagero”, acrescentou.
Nova entrada custou centenas de milhares de dólares
O processo de criação de uma segunda entrada pode ter começado 10 dias após o início do segundo mandato do presidente Donald Trump, quando a então secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, visitou a biblioteca.
Duas semanas depois, Sylvie Boudreau, então presidente do conselho administrativo da biblioteca, disse ter sido convocada para uma reunião com um oficial do Serviço de Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA, um agente da Patrulha de Fronteira e um membro da Polícia Montada Real do Canadá.
Foi nesse momento que Boudreau soube que presenciaria o fim de um dos laços mais singulares entre os Estados Unidos e o Canadá.
Ela relatou ter sido informada de que, em 1º de outubro de 2025, a calçada que permitia aos canadenses o acesso à entrada unificada — situada em território americano — seria fechada. Em vez disso, os canadenses teriam de dar a volta até um posto de controle fronteiriço oficial, entrar nos Estados Unidos por lá e, então, retornar para acessar a biblioteca.
“Não recebemos nada por escrito”, disse ela à CNN.
“Eu disse: ‘Não concordo com isso’, mas sei que não há nada que eu possa fazer”, comentou Boudreau sobre a reunião.
Para alguns, a mudança foi emblemática do que viria a ser um distanciamento ainda maior nas relações — já tensas — entre os Estados Unidos e o Canadá. Além de encerrar uma tradição de longa data, a medida criou um problema imediato para Boudreau.
“Recebemos pessoas, incluindo crianças de escolas de várias partes do Canadá, que chegam à biblioteca em ônibus”, explicou ela.
“A maioria delas não possui passaporte”, disse.
Diante disso, ela e os dirigentes da biblioteca encontraram uma solução.
Tudo começou com uma entrada provisória, adaptada a partir de uma antiga saída de emergência no lado canadense do edifício. Construir algo mais permanente seria caro — cerca de 650 mil dólares, segundo estimativa da biblioteca.
A biblioteca recorreu ao público e “foi um sucesso estrondoso”, contou Boudreau. Os responsáveis pela instituição conseguiram arrecadar mais de 300 mil dólares em doações para a nova entrada, afirmou ela.
“Custou uma fortuna, mas, graças a isso, sinto-me mais segura”, disse Boudreau à CNN.
“Como estão no Canadá, eles entram a partir do Canadá e retornam para o Canadá”, acrescentou.
Ela renunciou pouco depois da conclusão da entrada.
Seu sucessor, Rodger Coupe, disse à CNN: “O objetivo da biblioteca era promover um relacionamento além da fronteira, para que os americanos compreendessem os canadenses, e os canadenses, os americanos”.
No entanto, autoridades do Serviço de Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA insistiram que a decisão de encerrar o arranjo anterior foi motivada por questões de segurança.
Representantes do governo afirmam que as entradas separadas ajudarão a combater o contrabando.
Em um comunicado à CNN, um porta-voz do Serviço de Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA escreveu: “Traficantes de drogas e contrabandistas estavam explorando o fato de que canadenses podiam usar a entrada dos EUA sem passar pela alfândega. Estamos pondo fim a essa exploração por parte de criminosos e protegendo os americanos”.
A CNN não encontrou, de imediato, casos específicos de tráfico de drogas por meio da biblioteca; contudo, em 2011, várias pessoas estiveram envolvidas no contrabando de armas de fogo utilizando as instalações da biblioteca, segundo o Departamento de Justiça.
Armas de fogo compradas na Flórida foram colocadas em pequenas mochilas e escondidas em uma lixeira no banheiro da biblioteca, informou o departamento. Mais tarde, um homem as recolheu para transportá-las ao Quebec. Ele se declarou culpado de exportação ilegal de armas de fogo dos EUA para o Canadá.
Mais recentemente, em junho de 2026, uma mulher chilena comprou um ingresso — válido tanto no lado canadense quanto no americano — para uma apresentação na biblioteca; ela entrou pelo lado canadense, trocou de roupa lá dentro e tentou sair pelo lado dos Estados Unidos, segundo a Procuradoria Federal dos EUA em Vermont. Ela foi presa do lado de fora da biblioteca e declarou-se culpada de entrada ilegal.
Apesar desses exemplos, Boudreau rejeitou o argumento de que a biblioteca seria o problema. Ela afirmou que, ocasionalmente, ocorrem violações de fronteira, mas ressaltou que elas não acontecem, em sua maioria, na biblioteca ou em sua calçada.
“Acontece em outros lugares, do lado de fora”, disse ela, acrescentando que relata as infrações às autoridades de ambos os lados da fronteira. Boudreau contou que trabalhou como agente de serviços de fronteira do Canadá por 20 anos, antes de se aposentar em 2019.
Um problema maior envolvendo a biblioteca, segundo Boudreau, era o fato de famílias e outros grupos, de ambos os lados da fronteira, utilizarem o local para reencontros, refeições compartilhadas ou outras reuniões que não tinham relação com as atividades da instituição.
“Essa foi uma das práticas que interrompemos após a Covid”, explicou ela. É por isso que, no site da biblioteca, consta em destaque o aviso: “Reencontros de familiares/amigos ou visitas transfronteiriças não são permitidos”.
“Estamos sob rigorosa observação tanto da Patrulha de Fronteira dos EUA quanto da RCMP [Polícia Montada do Canadá]”, declarou Coupe à CNN.
As complicações logísticas de um estabelecimento situado exatamente sobre a fronteira são inevitáveis.
“Se alguém quiser cortar a grama no lado canadense, precisamos de autorização”, disse Evelyn Coupe, secretária do conselho administrativo e esposa de Rodger, o presidente do conselho.
No entanto, quando a CNN visitou o local em setembro, esses desafios logísticos não estavam visíveis, e a biblioteca recebia um fluxo constante de visitantes. Alguns deles aproveitaram a oportunidade perfeita para uma foto no local: posicionaram-se sobre a linha de fronteira, com um pé nos Estados Unidos e o outro no Canadá, enquanto seguravam as bandeiras de ambos os países.
É exatamente esse o espírito que Boudreau e os responsáveis pela biblioteca se esforçaram muito para preservar.
“Deu um trabalhão” e “custou uma fortuna”, disse ela à CNN. Mas ela está feliz.
“Foi uma grande conquista”, afirmou.

