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Democratas dos EUA veem chance de avanço no Centro-Oeste conservador

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Democratas  dos EUA veem chance de avanço no Centro-Oeste conservador

Os democratas podem estar prestes a vivenciar uma retomada no coração dos Estados Unidos, uma vez que a indignação com os custos elevados e as dúvidas sobre a disposição do presidente Donald Trump em alterar a trajetória do país ameaçam enfraquecer o domínio do Partido Republicano sobre os eleitores da classe trabalhadora.

Uma década após o início da era Trump — período em que ele transformou antigos campos de batalha políticos do Centro-Oeste em redutos republicanos consolidados —, os reflexos das políticas de seu segundo mandato repercutiram no setor agrícola e na economia em geral, abrangendo tanto a região das Grandes Planícies quanto o “Cinturão da Ferrugem”.

Iowa e Ohio, que deixaram de ser estados competitivos desde que o ex-presidente Barack Obama disputou eleições, voltaram a ser cenários de disputa.

Estados fortemente republicanos, como Kansas, Nebraska e Indiana, também não estão imunes a esse movimento.

A mudança ocorre em todos os níveis da votação, com disputas acirradas para a Câmara dos Representantes, o Senado e os governos estaduais por toda a região central do país.

Do plantio na primavera à colheita no outono, a ansiedade em relação à guerra de Trump com o Irã e às consequências de suas disputas comerciais transformou-se em alarme.

Em conversas por toda a região, os eleitores apontam para a disparada nos preços da gasolina e do diesel, bem como para o alto custo dos alimentos e das taxas de juros.

Uma política tarifária errática forçou os agricultores a pagarem mais por fertilizantes, enquanto alguns fabricantes, confrontados com custos mais elevados de componentes importados, demitiram funcionários.

A decisão de Trump de permitir a importação de carne bovina enfureceu os pecuaristas.

Além disso, cortes de gastos que atingiram a área da saúde e programas de subsídios agravaram ainda mais a situação.

As promessas de revitalizar o setor industrial do país permanecem não cumpridas. E, mesmo antes de a guerra com o Irã provocar uma disparada nos custos, vários desses estados decisivos — os chamados *battleground states* — já enfrentavam um declínio fiscal.

Iowa, por exemplo, registrou a taxa de crescimento anual mais fraca do país em 2025, segundo o *Bureau of Economic Analysis* (órgão federal de análise econômica) — um dado contundente contra os republicanos, que controlam o governo estadual há mais de uma década.

“Acho que, para descrever a situação, a melhor forma seria dizer que todos no setor agrícola estão cansados. Estão simplesmente cansados”, disse à CNN Steve Kuiper, agricultor e presidente da Associação de Produtores de Milho de Iowa (Iowa Corn Growers Association). “Eles se sentem muito desgastados neste momento, desmoralizados.”

Tudo isso alimentou um desejo de mudança — e abriu uma oportunidade para os candidatos democratas.

“Muitas das promessas feitas pelo presidente — de reduzir custos, de não iniciar novas guerras no exterior e de concretizar sua proposta econômica — não se concretizaram”, afirmou Beau Bayh, herdeiro de terceira geração da família política democrata mais famosa de Indiana.

Caso vença a disputa para secretário de Estado, ele se tornará o primeiro membro de seu partido a vencer uma eleição em nível estadual em Indiana nos últimos 14 anos.

Trump sabe, melhor do que a maioria dos presidentes, que as eleições de meio de mandato são um reflexo — e um referendo — sobre o partido que está no poder.

Ele vivenciou isso em 2018, quando os republicanos mantiveram o controle do Senado, mas perderam a maioria na Câmara — incluindo três cadeiras em Iowa.

Integrantes do Partido Republicano disseram à CNN que temem a repetição desse cenário.

Capitólio dos EUA em Washington
Capitólio dos EUA em Washington nesta quarta-feira (22) • Reuters / Eric Lee

Os planos de viagem de ambos os lados revelam o cenário: Trump tem visita marcada a Michigan para este domingo (25), após passar por Ohio, Kansas, Nebraska e Iowa em uma maratona de campanha que durou um mês.

Obama esteve em Michigan e Ohio no sábado (24), buscando angariar apoio em dois estados que ele já venceu no passado.

As pesquisas indicam que os eleitores estão dispostos a punir os republicanos que estão no poder em Washington, ainda que também tenham uma visão negativa da imagem do Partido Democrata.

“Não é que eles tenham sido conquistados pelo Partido Democrata; é apenas que eles estão muito, muito irritados”, disse à CNN Tom Vilsack, ex-governador democrata de Iowa. “Eles querem enviar uma mensagem de descontentamento. Quando você está chateado com alguém, você quer encontrar uma maneira de transmitir uma mensagem. Você não engole o sentimento; você envia essa mensagem.”

Vilsack, que cumpriu dois mandatos como secretário de Agricultura durante o governo Obama, afirmou que as frustrações econômicas nos setores agrícola e industrial vinham crescendo muito antes da era Trump.

Ele acrescentou, contudo, que as promessas feitas pelo presidente ao longo de suas três campanhas — especialmente a de reduzir os preços, feita há apenas dois anos — estão alimentando essa revolta.

“Ele cria a expectativa de que as coisas serão fundamentalmente diferentes”, disse Vilsack. “Isso foi interpretado como uma promessa de que ele traria de volta os bons tempos. Ele não conseguiu fazer isso.”

O ex-governador de Minnesota, Tim Pawlenty — o último republicano a ocupar esse cargo, ao ser reeleito há duas décadas —, afirmou que, para Trump, seria melhor abordar a questão do aumento dos custos e explicar como ele pretende mudar de rumo.

“Vai ser uma ‘onda azul’”, disse Pawlenty à CNN. “Só não sabemos se ela vai chegar à altura dos joelhos, da cintura, ou se vai nos atingir em cheio no rosto.”

É praticamente certo que a Câmara deixará de estar sob o controle do Partido Republicano, afirmou ele, acrescentando, contudo: “A verdadeira chance de os republicanos salvarem algo disso é manter o controle do Senado — e essa é uma possibilidade real.”

Câmara e Senado em jogo

Em Iowa e Ohio, os democratas têm chances de vencer disputas para o Senado que são fundamentais para conquistar as quatro cadeiras de que precisam para obter a maioria — um objetivo que não alcançaram em 2018.

As perspectivas são ainda melhores nas eleições para governador nesses estados, o que poderia dar ao partido uma base de atuação em locais onde os republicanos detêm o controle total — ou seja, dominam os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.

Mas a retomada democrata pode ir ainda mais longe.

A atuação de Adam Hamilton, pastor de uma megaigreja, forçou o Partido Republicano a se mobilizar para proteger a cadeira do senador Roger Marshall, no Kansas.

No Nebraska, o candidato independente Dan Osborn conquistou o apoio dos democratas e complicou a campanha do senador republicano Pete Ricketts, que busca um segundo mandato.

Além disso, várias cadeiras na Câmara dos Representantes, atualmente ocupadas por republicanos no Centro-Oeste, estão em disputa.

Os democratas acreditam que podem conquistar até três cadeiras hoje nas mãos dos republicanos tanto em Iowa quanto em Ohio, além de potencialmente outras quatro em Michigan.

O partido também tem como alvo um distrito que abrange Omaha, no Nebraska, e outro na região de Driftless, no sudeste de Wisconsin.

Se o cenário eleitoral se tornar amplamente favorável aos democratas, uma outra cadeira na Câmara, no Nebraska — bem como uma em Indiana e outra no Kansas —, pode se tornar muito mais competitiva do que qualquer um dos partidos previu no início do ciclo eleitoral de 2026.

Os republicanos não pretendem abrir mão de nenhuma dessas disputas.

Eles acreditam, inclusive, que colocaram os democratas na defensiva no Alto Centro-Oeste — especialmente em Michigan, onde o progressista Abdul El-Sayed, ex-autoridade de saúde pública, trava uma disputa acirrada e dispendiosa pelo Senado contra o republicano Mike Rogers, ex-membro da Câmara dos Representantes.

Em discurso em Sioux City, Iowa, na quinta-feira (22), Trump instou os eleitores a fingirem que ele estava na cédula eleitoral e a votarem para garantir uma “economia em plena expansão em Iowa”.

“Se vocês comparecerem às urnas como fizeram em 2024, venceremos com uma vitória esmagadora — sabem, uma vitória esmagadora”, disse ele.

Embora o presidente se gabe de uma “era de ouro” dos Estados Unidos, com uma economia invejada pelo mundo, ele também deixa claro que compreende os desafios que as pessoas estão enfrentando.

Em praticamente todas as paradas de sua maratona de outubro por estados de maioria republicana, ele ofereceu “agrados” aos eleitores, caso estes continuem apoiando os candidatos do Partido Republicano.

Desde o anúncio de US$ 8 bilhões em novos auxílios aos agricultores, no Kansas, até a promessa de construir a maior siderúrgica do país, no leste de Iowa, passando pelo compromisso assumido no Nebraska de reduzir temporariamente os custos do diesel, Trump fez uma série de promessas — que se somam à sua proposta de dar US$ 5.000 a cada adulto americano, caso os republicanos mantenham o controle em Washington.

Tais promessas mal são repetidas pelos candidatos republicanos, que sabem que, para muitos eleitores, elas soam como palavras vazias.

Os democratas reconhecem que será uma batalha árdua vencer todas as disputas para o Senado — marcadas por um equilíbrio muito apertado — no Centro-Oeste, especialmente considerando os desafios que o próprio partido enfrenta em termos de imagem e popularidade.

Por outro lado, integrantes do Partido Republicano questionam se as frequentes viagens de Trump a muitos desses estados não acabarão prejudicando as candidaturas para outros cargos em disputa.

“Quando nosso líder, o próprio presidente, faz coisas que me deixam constrangido, fica difícil pedir às pessoas que votem em mim”, disse Jim Howell, um republicano que integra o Conselho de Comissários do Condado de Sedgwick, em Wichita, e que também concorre nas eleições de novembro. “Eu realmente gostaria que tivéssemos líderes que não nos causassem esse tipo de constrangimento, mas que, em vez disso, nos ajudassem a encontrar um caminho para a união.”

A mensagem final de Trump

Uma questão que paira sobre a última semana da disputa é se a campanha incansável de Trump conseguiu despertar os eleitores republicanos, levando-os a mobilizar-se em seu apoio mais uma vez, na esperança de reduzir a diferença no nível de entusiasmo.

O Iowa é um estado que merece atenção, dado o histórico de vitórias de Trump na região e sua decisão de realizar dois comícios em extremos opostos do estado nesta reta final.

No entanto, a estratégia do presidente, a pouco mais de uma semana do dia da eleição, tem sido a de reforçar ainda mais as políticas que fizeram com que muitos eleitores passassem a ver com descontentamento a possibilidade de um segundo mandato seu.

Em sua viagem a Michigan neste domingo (25), Trump realizará um comício em Port Huron — na fronteira com o Canadá.

O evento colocará em evidência sua disputa tarifária com o vizinho ao norte dos Estados Unidos, embora o candidato do partido ao Senado, o ex-deputado Mike Rogers, tenha tentado se distanciar de Trump em relação a essas tarifas.

“Aqui em Michigan, sabemos que o Canadá não é nosso inimigo. Precisamos acabar com essa guerra tarifária — já”, afirmou Rogers em um anúncio televisivo lançado por sua campanha este mês.

A melhor aposta do Partido Republicano talvez seja investir nas batalhas culturais que o ajudaram a conquistar eleitores brancos, rurais e da classe trabalhadora em eleições recentes.

Em Michigan, tanto Trump quanto Rogers tentaram associar o candidato democrata, El-Sayed, ao apoio a interesses islâmicos extremistas.

Mas os democratas estão reagindo.

Nos últimos dias, El-Sayed começou a exibir um anúncio que traz trechos de falas de republicanos e figuras da mídia conservadora — incluindo apresentadores da Fox News — expressando opiniões positivas ou favoráveis ​​a ele e à sua campanha.

Antes da exibição desses trechos, ele aponta pautas nas quais sugere haver pontos de convergência com alguns integrantes do movimento MAGA, como a divulgação dos documentos relacionados a Jeffrey Epstein e o combate à corrupção em Washington.

Ohio representa mais uma dor de cabeça para os republicanos.

O candidato do partido ao governo estadual, Vivek Ramaswamy, foi alvo de duras críticas por parte de quem ele pretende substituir — o atual governador republicano, Mike DeWine, que cumpre seu segundo mandato —, por ter veiculado um anúncio polêmico que trazia a mãe de sua adversária democrata, Amy Acton.

Candidato republicano à Presidência dos EUA, Donald Trump, durante discurso.
Candidato republicano à Presidência dos EUA, Donald Trump, durante discurso. • Reuters

Tanto Ramaswamy quanto o presidente mantiveram suas posições, defendendo o anúncio — e, ao fazê-lo, transformaram a disputa em um teste sobre se os eleitores aceitarão táticas ao estilo de Trump vindas de candidatos que não são o próprio Trump.

Por outro lado, perdeu destaque — embora fosse apontada por eleitores de Ohio que conversaram com a CNN nos últimos dias, incluindo republicanos que apoiam Ramaswamy, como a razão da repentina competitividade no estado — a questão do custo de vida.

“Todos nós precisamos abastecer o carro. Eu mesma preciso ir abastecer agora, e isso é difícil”, disse Sheri Vorherr, de 55 anos, mãe de cinco filhos e moradora de Loveland, que trabalhou como voluntária em um comício de Ramaswamy em Cincinnati, na quarta-feira (21).

Ela contou que ajuda sua filha mais velha a fazer as compras de supermercado toda semana e percebe o aperto econômico causado pela inflação.

“Não acho que exista uma solução fácil. São questões que levarão tempo”, afirmou. “Acredito, sim, que Trump está tentando resolver isso — só está demorando muito mais.”

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