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Análise: Zelensky insiste que problema com Trump não é pessoal – mas ele é

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Análise: Zelensky insiste que problema com Trump não é pessoal – mas ele é

Volodymyr Zelensky disse à CNN, na quinta-feira (22), que não há “nada de pessoal” por trás de seu recente distanciamento do presidente Donald Trump.

Infelizmente para o presidente da Ucrânia em tempos de guerra, nada poderia estar mais longe da verdade.

Tudo o que diz respeito à presidência de Trump é pessoal.

Trump substituiu os valores que orientaram presidentes modernos anteriores — que consolidaram a democracia e enfrentaram tiranos — pelos seus próprios valores: a ostentação de domínio, a aproximação com líderes autoritários e a busca por negócios altamente lucrativos.

O resultado é que Zelensky se depara agora com uma das questões mais críticas — e difíceis de acreditar — sobre a guerra: será que o destino da Ucrânia depende, hoje, não apenas da sua capacidade de repelir a agressão russa, mas também da possibilidade de que os Estados Unidos tenham passado para o lado de Moscou?

Trump não esconde sua aversão pessoal por Zelensky, que, sem culpa própria, acabou contribuindo para desencadear o primeiro processo de impeachment contra ele.

Portanto, não é de surpreender que Trump tenha adotado a exigência da Rússia de que a Ucrânia tenha um novo presidente.

Os interesses políticos pessoais de Trump também moldam a política externa dos EUA: o seu acordo envolvendo diesel — que poderia destinar bilhões de dólares à máquina de guerra do presidente russo, Vladimir Putin — surgiu num momento em que ele sofria pressão para demonstrar aos eleitores, nas eleições de meio de mandato, que seria capaz de reduzir os preços elevados dos combustíveis.

O mesmo vale para a sua exigência de que a Ucrânia abrisse mão de uma das suas táticas mais eficazes: os ataques a refinarias de petróleo russas.

E a personalidade política idiossincrática de Trump há muito compromete os esforços de paz.

Seu desejo inabalável de agradar a Putin levou os EUA a pressionar a Ucrânia — e não a Rússia — por concessões.

Longe de favorecer a parte invadida, ele premiou o invasor.

Esse padrão tornou-se mais concreto nas últimas semanas.

Após favorecer retoricamente a posição da Rússia por quase dois anos, Trump começou a tomar medidas concretas para reforçá-la.

Ele convidou Putin para a cúpula do G20; cogita uma reunião entre as grandes potências — incluindo o líder russo e o chinês Xi Jinping — para tentar encerrar a guerra, sem a participação da Ucrânia; e recusa-se a enviar mísseis Patriot para repelir a ofensiva aérea russa.

A Ucrânia afirma que seu acesso a uma versão militar da rede Starlink, de Elon Musk, continua comprometido — o que limita a velocidade de seus drones e, consequentemente, reduz sua eficácia.

Não está claro quem, dentro da administração, é o responsável por isso, embora Trump insista que não foi ele.

O episódio em que Steve Witkoff, enviado de Trump, elogiou Putin — um indivíduo acusado de crimes de guerra — chamando-o de “humanitário” (diretamente em sua presença, em São Petersburgo, nesta semana), exemplificou o oportunismo moral da Casa Branca.

Trump justificou o elogio alegando que ele era necessário para conseguir a libertação de um prisioneiro americano na Rússia, Stephen Hubbard.

No entanto, essa estratégia, que vem se intensificando, de oferecer sucessivas concessões ao líder russo, já se mostrou, na prática, incapaz de encerrar a guerra.

Putin continua a desmentir as garantias de Trump de que deseja a paz, ao realizar ataques letais com mísseis e drones contra a Ucrânia — ações que, recentemente, atingiram ônibus civis e mataram uma criança de um ano que estava em seu carrinho.

Trump não condenou tais ataques.

‘Nós sobreviveremos’

A dor implacável de sua nação estava estampada no rosto de Zelensky durante sua entrevista a Christiane Amanpour, da CNN.

Embora tenha se esforçado ao máximo para evitar um novo embate com Trump, ele jurou jamais abrir mão de seus princípios ou desperdiçar o sacrifício da Ucrânia.

Transmitindo dignidade e determinação, ele, por vezes, apelou implicitamente por um retorno a uma política externa americana fundamentada nos valores tradicionais dos Estados Unidos.

“Nós sobreviveremos e permaneceremos fortes”, disse Zelensky. “Faremos de tudo para aproximar a paz. Mas não daremos a Putin nenhuma chance de vencer esta guerra.”

Zelensky disse a Amanpour que não tem interesse em conflitos pessoais com Trump.

“Não se trata de personalidades”, afirmou ele. “Não é algo pessoal entre mim e o presidente Trump.”

O líder ucraniano não tem outra opção a não ser tentar recompor as relações com o presidente dos EUA, já que ele é o único líder mundial que poderia, se assim o desejasse, exercer pressão em prol de um processo de paz genuíno.

Mas ele deixou clara sua consternação com algumas das medidas recentes de Trump, incluindo o acordo sobre diesel e a isenção da aplicação de uma nova lei de sanções dos EUA voltada contra a Rússia. “Isso só vai dar muito mais dinheiro a Putin para esta guerra. E é por isso que sou contra”, disse Zelensky.

Ele indicou que, mesmo que seja criticado por sua retórica, com a liberdade da Ucrânia em jogo, “preciso falar sobre isso”.

‘Quebrem-nos, destruam-nos, matem-nos’

O atoleiro cada vez mais profundo levanta duas questões graves.

Como terminará esta guerra — que só se torna cada vez mais selvagem?

E o que acontecerá se ela não terminar? O conflito torna-se ainda mais perigoso à medida que o Kremlin abre uma nova frente de guerra híbrida contra os aliados europeus da Ucrânia.

As perspectivas sombrias não deixam outra alternativa senão a de que a Ucrânia e seus aliados europeus permaneçam engajados, mesmo que desconfiem dos esforços de paz desequilibrados de Trump.

Dois acontecimentos de menor escala, ocorridos esta semana, trouxeram um fio de esperança.

Após a visita de Witkoff, a Rússia concordou em participar de negociações de paz trilaterais com Washington e Kiev.

Zelensky, por sua vez, reiterou uma proposta para congelar as linhas de frente atuais, na tentativa de promover um cessar-fogo e abrir caminho para a diplomacia.

Não se trata, contudo, de avanços significativos. As negociações técnicas, das quais a Rússia aceitou participar, só ocorrerão em meados de novembro — o que significa que ainda haverá semanas de combates e mortes pela frente.

Na melhor das hipóteses, isso levará a um processo diplomático prolongado; afinal, a Rússia tem por hábito continuar lutando enquanto negocia.

No passado, Zelensky apresentou diversas propostas de cessar-fogo, iniciativas diplomáticas e caminhos para encerrar o conflito — todas ignoradas por Putin.

Não há qualquer indício de que as novas ofertas da Ucrânia sejam capazes de atraí-lo.

Ainda assim, a expectativa de que as atuais tensões entre a Ucrânia e os EUA não inviabilizem a diplomacia ganha força ao observarmos como atritos anteriores entre Zelensky e Trump arrefeceram com o tempo, graças a uma intensa atuação diplomática europeia para superar as divergências.

Além disso, autoridades americanas informaram que as conversas realizadas esta semana na Noruega — envolvendo Zelensky e parceiros europeus — registraram progressos e criaram um impulso favorável para as negociações trilaterais.

A fórmula geral para qualquer acordo de paz é clara há anos.

Ela envolveria uma trégua na qual, muito provavelmente, a Rússia manteria os espólios de suas apropriações territoriais; garantias de segurança dos EUA e/ou da Europa para Kiev; planos para um amplo programa de reconstrução da Ucrânia no pós-guerra; e uma estrutura para as relações entre a Otan e a Rússia na Europa.

Contudo, Putin não deu qualquer sinal de que aceitará algo menos do que suas exigências máximas. E por que aceitaria, se Trump continua lhe oferecendo concessões?

A Rússia busca negociar a cessão de um território estratégico na região de Donbas, no leste da Ucrânia — território que suas tropas não conseguiram conquistar no campo de batalha, apesar das perdas humanas estarrecedoras.

Zelensky declarou à CNN que jamais poderia aceitar tais condições, pois “muitas pessoas morreram defendendo esta terra, defendendo nossa independência, nosso país”.

Enquanto Trump insiste que Putin deseja um acordo, Zelensky parece ter uma visão mais realista das aspirações de seu adversário. “Putin está jogando, sabe; ele é um jogador”, disse ele. “É lamentável, porque ele brinca com a vida de outras pessoas.” Segundo Zelensky, o objetivo de Putin é “nos quebrar, nos destruir, nos matar”.

Contudo, o inferno vivido pela Ucrânia — somado à crescente possibilidade de que a guerra ultrapasse suas fronteiras — faz com que não reste outra alternativa a não ser, mais uma vez, colocar à prova as reais intenções de Putin.

Isso implica lidar com o temperamento, as queixas e os objetivos pessoais de Trump.

Zelensky não pode permitir que questões de personalidade se tornem um obstáculo.

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