Autoridades do Sudão do Sul afirmaram que as Forças Armadas do Sudão realizaram ataques com drones contra um mercado na região disputada de Abyei, matando mais de 150 pessoas, em um casos mais letais de um conflito que já ultrapassou as fronteiras dos países.
Segundo as autoridades, o ataque ao mercado em Abyei ocorreu por volta do meio-dia de segunda-feira (19).
Yohana Akol Ngor, ministro interino da Informação em Abyei, declarou à Reuters nesta terça-feira (20) que o número de mortos subiu de 73 para 153, com a possibilidade de aumentar ainda mais.
“O fogo ainda está aceso. Por isso, o processo de resgate dos corpos continua. A situação é terrível”, disse Ngor, acrescentando que alguns corpos foram completamente carbonizados.
Um vídeo gravado no local na terça-feira, verificado pela Reuters, mostrava os restos carbonizados e retorcidos de veículos e edifícios. Chamas ainda eram vistas em uma das construções enquanto moradores inspecionavam os danos.
Ngor afirmou que o Exército sudanês foi o responsável pelo ataque, embora não tenha apresentado provas. Um porta-voz das Forças Armadas do Sudão não respondeu prontamente a um pedido de comentário.
Uma testemunha relatou ter ouvido cinco grandes explosões, que fizeram com que o mercado de combustíveis pegasse fogo.
“As pessoas começaram a retirar as vítimas. Elas apresentavam ferimentos causados por estilhaços no abdômen e nas pernas… Em um dos locais, vi 28 corpos carbonizados”, disse a pessoa, que pediu para não ser identificada por motivos de segurança.
A testemunha afirmou não ter visto qualquer sinal de integrantes das RSF (Forças de Apoio Rápido), um grupo inimigo das Forças Armadas do Sudão, ou de outros combatentes uniformizados no mercado, local onde também são vendidas mercadorias — como açúcar, farinha e biscoitos — destinadas ao envio para o Sudão.
Três fontes diplomáticas, um agente humanitário e um especialista no conflito informaram à Reuters que o ataque atingiu um depósito de combustível no mercado.
Segundo as fontes diplomáticas, o local já havia sido utilizado pelas RSF para abastecer suas tropas. Um porta-voz do grupo paramilitar não respondeu de imediato aos pedidos de comentário.
Cerca de 8.000 pessoas são deslocadas pelos ataques
Yohana Akol Ngor, o ministro interino da Informação em Abyei, destacou que que as equipes de emergência estão com dificuldade para recuperar os corpos devido aos incêndios provocados pelos ataques.
Cerca de 8 mil pessoas foram deslocadas em decorrência do bombardeio ocorrido na segunda-feira, acrescentou Ngor.
O Ministério das Relações Exteriores do Sudão do Sul informou, em um comunicado divulgado na noite de segunda-feira, que drones atingiram um mercado ao norte da cidade de Abyei, mas não especificou o número de vítimas civis.
A pasta ressaltou que convocou o embaixador sudanês para apresentar um protesto.
ONU condena ataque mortal
O porta-voz da ONU, Stephane Dujarric, afirmou que a organização condena veementemente a série de ataques com drones em Abyei e em outras áreas.
“Continuamos alarmados com os ataques incessantes com drones por todo o Sudão, bem como com os danos que eles estão causando a infraestruturas críticas — esses ataques têm um impacto devastador sobre comunidades que já enfrentam as consequências de mais de três anos de conflito”, disse Dujarric a jornalistas em Nova York.
Por que há guerra entre o Sudão e o Sudão do Sul?
O Sudão do Sul declarou sua independência do Sudão em 2011. Desde então, ambos os países reivindicam a região de Abyei — rica em petróleo e sob administração conjunta.
A área faz fronteira com a região sudanesa de Kordofan, que se tornou um dos principais palcos de combate na guerra do Sudão.
Essa guerra em si teve início em abril de 2023 entre as Forças Armadas Sudanesas e o grupo paramilitar RSF Forças de Apoio Rápido. O conflito desencadeou uma grave crise humanitária e envolveu milícias locais, além de potências estrangeiras.
Representantes do governo sudanês, liderado pelos militares, afirmaram à Reuters que as RSF mantêm atividades em partes de Abyei. Ngor negou a presença das RSF em Abyei. A Reuters não conseguiu verificar as alegações de imediato.
A Força Provisória de Segurança das Nações Unidas para Abyei alertou, em maio, que a presença das RSF em Abyei havia aumentado a insegurança na região, acrescentando que a demora em definir o status final do território disputado colocava em risco civis e o pessoal da força militar.

