A missão das Nações Unidas no Afeganistão informou, na quinta-feira (15), que a “polícia da moralidade” do Talibã deteve arbitrariamente centenas de pessoas e submeteu dezenas a maus-tratos entre julho e setembro — alegações que o grupo rejeitou.
A UNAMA (Missão de Assistência das Nações Unidas no Afeganistão) declarou ter documentado 443 prisões e detenções arbitrárias, além de 97 casos de maus-tratos cometidos pela polícia da moralidade durante esse período de três meses.
Segundo a UNAMA, os incidentes estiveram relacionados a supostas violações de normas sobre o uso do hijab por mulheres, restrições a barbas e estilos de cabelo, a obrigatoriedade de comparecimento às orações e a proibição de música.
Quando o Talibã retornou ao poder, há cinco anos — em meio à retirada dos Estados Unidos e de seus aliados —, o grupo prometeu governar de forma mais liberal do que fizera no final da década de 1990 e início dos anos 2000.
No entanto, segundo grupos de direitos humanos, essas promessas logo se mostraram vazias, dando lugar a restrições abrangentes impostas a mulheres e meninas.
O relatório também registrou quatro assassinatos e 14 detenções arbitrárias de ex-membros das forças de segurança afegãs, apesar de uma anistia geral anunciada após o retorno do Talibã ao poder, em 2021.
O porta-voz do grupo, Zabiullah Mujahid, rejeitou as conclusões, afirmando que as detenções foram legais e acusando a UNAMA de promover propaganda contra o governo.
A UNAMA informou que casos transfronteiriços resultaram na morte de 13 civis e deixaram outros 20 feridos durante o trimestre.
A missão também relatou a suspensão de diversos veículos de imprensa e afirmou que as mulheres afegãs continuam impedidas de acessar as instalações da ONU.
Volta do Talibã ao poder no Afeganistão
A volta do Talibã ao poder no Afeganistão completa cinco anos neste sábado (15), após a tomada de Cabul, capital do pais, e o estabelecimento do que o grupo descreveu como segurança em todo o território sob um sistema islâmico, em 2021.
Após um ataque relâmpago, realizado enquanto forças estrangeiras lideradas pelos Estados Unidos se retiravam após 20 anos de uma guerra inconclusiva, o Talibã entrou na capital em 15 de agosto de 2021.
Ao mesmo tempo, forças de segurança afegãs, estruturadas com anos de apoio ocidental, se desintegraram e o presidente Ashraf Ghani, apoiado pelos EUA, fugiu.
O novo governo tem como objetivo declarado construir uma sociedade islâmica baseada na lei da Sharia, sucedendo 20 anos de um governo comparativamente liberal e apoiado pelo Ocidente.
Em 2026, o Afeganistão enfrenta mais desafios, à medida que prosseguem os confrontos letais entre forças afegãs e paquistanesas e a desnutrição atinge níveis críticos em um terço das províncias do país.

