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Precificar soja pela proteína pode ser caminho para novo comércio com China

Radar Olhar Aguçado(há cerca de 3 horas)
Precificar soja pela proteína pode ser caminho para novo comércio com China

O Brasil precisa olhar além do volume exportado e investir na qualidade da soja para enfrentar uma possível redução das compras da China, principal destino do grão brasileiro. Para isso, um caminho factível é precificar a soja por meio do teor de proteína, de olho em segurança familiar, segundo especialistas.

No futuro, contratos baseados em qualidade – e que diferenciam a soja para consumo humano da soja usada para ração animal – pode ajudar o Brasil a atender demandas específicas da indústria de ração e preservar espaço no mercado chinês.

A análise é de Guilherme Bastos, coordenador do FGV Agro, que participou de evento sobre as relações bilaterais da China e Brasil para segurança alimentar do futuro, que acontece nesta quinta-feira (15), em São Paulo.

A discussão ocorre diante de projeções de queda da demanda chinesa até 2030, mas ainda há divergências sobre a intensidade e a direção desse movimento. Analistas prevêm uma redução de 20% na demanda de soja até 2030, algo equivalente a 25 milhões de toneladas, das quais 20 milhões são brasileiras.

Mudanças no consumo, na produção pecuária e na adoção de tecnologias no país asiático tornam o cenário mais complexo para os exportadores brasileiros.

Leandro Giglio, pesquisador do Insper Global Agro, lembra que, ao mesmo tempo, ponderou que dados de mercado indicam possibilidade de crescimento de cerca de 2% na demanda associada ao consumo de ração para a pecuária. Os sinais, segundo ele, mostram que existem efeitos distintos em curso.

Para Bastos, a perspectiva de o principal comprador demandar menos soja provocou apreensão no setor, mas o debate precisa incorporar as características do produto e as transformações do mercado consumidor.

“Estamos falando de volume, mas não estamos falando de qualidade de produto”, afirmou.

Segundo ele, a soja destinada à alimentação humana e aquela utilizada na produção de ração estão inseridas em estruturas produtivas diferentes na China.

No Nordeste do país asiático, o avanço da escala de produção e a incorporação de novas tecnologias são fatores que precisam ser acompanhados, exemplifica. O efeito sobre a demanda externa dependerá, também, da velocidade de adoção dessas mudanças.

Projeções brasileiras para orientar decisões

Bastos defende ainda que o Brasil amplie a capacidade de produzir suas próprias projeções, em conexão com organismos internacionais, mas com modelos capazes de captar melhor as particularidades da produção e do mercado.

Segundo ele, equipes do FGV Agro, da Esalq e de outros institutos de pesquisa estão coordenando esforços de modelagem para reduzir a fragmentação das análises e melhorar a previsão de resultados. O foco é em estratégia de médio e longo prazos.

Na avaliação do especialista, os dados públicos disponíveis ainda não permitem compreender plenamente a dinâmica das transformações locais. Essa limitação dificulta antecipar como ganhos de produtividade, mudanças tecnológicas e alterações no consumo podem afetar a relação comercial entre Brasil e China.

No médio e no longo prazo, Bastos também vê espaço para discutir a diversificação produtiva brasileira. Ele citou oportunidades em café, frutas e produtos da pecuária, como miúdos e carne com osso, com atenção a segmentos que possam complementar a oferta chinesa.

O plano B de sucesso está na expansão de plantas de biocombustíveis, destaca Eduardo Bastos, CEO do Instituto Equilíbrio, para absorver uma eventual perda de mercado para a soja brasileira.

O executivo avaliou que outros compradores não teriam capacidade para absorver integralmente o volume de soja que a China projeta deixar de comprar como parte do plano quinquenal do país asiático.

Para Eduardo Bastos, uma retração dessa dimensão teria efeitos sobre a geração de riqueza e a arrecadação no Brasil. A ampliação do uso do óleo de soja em combustíveis seria uma forma de sustentar a demanda pela produção nacional.

Essa saída, porém, também exigiria encontrar mercado para o farelo resultante do processamento do grão. O executivo apontou a produção de proteína animal como uma das possibilidades para absorver esse excedente.

Ele também destacou o potencial dos combustíveis destinados à aviação e ao transporte marítimo. Em sua avaliação, o crescimento futuro desses mercados exige planejamento e novos projetos para que o Brasil consiga transformar a demanda por energia em uma alternativa para a cadeia da soja.

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