Nesta quinta-feira, 15 de outubro, é celebrado no Brasil o Dia do Professor, como forma de reconhecimento do trabalho dos educadores. A data também reflete sobre desafios que os docentes podem enfrentar diariamente como, por exemplo, o crescente desgaste nas relações com as famílias dos alunos e a sobrecarga emocional.
A 3ª edição do Relatório Anual de Saúde Mental & Bem-Estar Escolar, feito pelo Great Place to Study Brasil, revelou que a relação com os pais se tornou o principal ponto de desgaste para um em cada quatro professores da rede privada, segundo levantamento com mais de 5 mil docentes.
Na educação infantil, o cenário é ainda mais expressivo: o índice chega a 37,6%.
Entre os fatores apontados pelos educadores estão as cobranças excessivas, as dificuldades de comunicação e os questionamentos à autoridade pedagógica. O quadro se soma a outros indicadores preocupantes: 26,8% dos professores relatam desgaste contínuo, enquanto 27,5% afirmam não conseguir descansar adequadamente.
Para Ivan Pereira, CEO da Mind Lab e especialista em educação, parte desse cenário está relacionada à transformação da maneira como as famílias se relacionam com a escola e com os profissionais responsáveis pela aprendizagem das crianças.
“A profissão docente foi, provavelmente, uma das primeiras impactadas por constantes questionamentos de pais, bombardeados por conteúdos genéricos e sem nenhuma profundidade em redes sociais, mas que geram a sensação de domínio de determinado conteúdo. Quando a linha pedagógica da escola não atende ao padrão que pai ‘entende’ ser o melhor, o professor sofre primeiro”, afirma Ivan.
Na avaliação do especialista, a circulação de conteúdos superficiais nas redes sociais pode alimentar a percepção de que os responsáveis dominam determinados assuntos pedagógicos, ampliando os questionamentos sobre as decisões dos educadores. Quando as expectativas das famílias entram em conflito com a proposta pedagógica da instituição, o professor pode se tornar o primeiro alvo das cobranças.
Os impactos desse ambiente vão além dos conflitos cotidianos. Segundo Pereira, quando o professor passa a trabalhar sob pressão e receio de reclamações, sua autonomia pode ser comprometida, afetando diretamente o processo de aprendizagem.
“Professor que trabalha com medo para de ensinar e passa a se proteger. Evita a avaliação mais exigente, a conversa difícil e a decisão pedagógica que pode gerar reclamação. Quem perde é o aluno. Cada contestação isolada parece pequena, mas, somadas, transformam a sala de aula num ambiente de vigilância. Autoridade pedagógica não é autoritarismo. É a legitimidade técnica de quem foi formado para conduzir a aprendizagem, e ela não se sustenta sozinha”, complementa.
Ivan Pereira ressalta que preservar a autoridade pedagógica não significa afastar as famílias das decisões escolares, mas estabelecer uma relação de confiança na qual os papéis de cada parte sejam respeitados. Para isso, considera fundamental que as instituições não deixem os docentes sozinhos diante de situações delicadas.
“Construir um acolhimento institucional seguro e definir papéis claros desde o início do ano letivo são passos importantes para transformar esses atritos em cooperação, e não só quando chega a primeira reclamação. Sem um alinhamento socioemocional e institucional bem estruturado entre a escola e a família, essa convivência diária contínua tende a gerar ruídos operacionais e divergências sobre o desenvolvimento da criança”.
Na prática, isso significa que a escola deve estabelecer, desde o início do ano letivo, expectativas claras sobre a comunicação, as responsabilidades dos envolvidos e a condução de possíveis divergências. O alinhamento entre família e instituição, segundo Pereira, precisa ser preventivo, e não ocorrer apenas quando surge um conflito.
Comunicação entre escola e família
A facilidade de contato proporcionada pelas ferramentas digitais também exige atenção. Aplicativos de mensagens, como o WhatsApp, podem aproximar responsáveis e educadores, mas, sem regras definidas, acabam ampliando a exposição dos professores e dificultando a separação entre vida profissional e pessoal.
A proposta de uma comunicação entre as escolas e as famílias, portanto, envolve não apenas estabelecer canais oficiais e horários para o contato, mas também preparar toda a comunidade escolar para lidar com divergências de maneira respeitosa.
“Para isso, a escola deve se posicionar como uma rede integradora de proteção e desenvolvimento, que apoia o educador enquanto conversa com as famílias sobre a proposta da escola”, opina Ivan.
Sobrecarga emocional
Embora a relação com as famílias seja um dos principais fatores de desgaste, ela não é o único desafio enfrentado pelos profissionais. O levantamento do Great Place to Study também aponta o desinteresse e a falta de engajamento dos alunos, mencionados por 23,7% dos professores, a indisciplina, citada por 21,2%, e a sobrecarga de burocracia, indicada por 18,6%.
Os números revelam que o sofrimento profissional está associado a diferentes aspectos da organização do trabalho escolar. Além das demandas em sala de aula, os docentes precisam lidar com tarefas administrativas, dificuldades de engajamento e exigências de diferentes grupos da comunidade escolar.
De acordo com Pereira, os dados também evidenciam reflexos sobre a satisfação profissional e as perspectivas de carreira.
Dentre os entrevistados, um em cada sete professores vive sofrimento profissional constante, marcado por esgotamento, falta de descanso e perda de sentido no trabalho. Além disso, 17,1% gostariam de ter escolhido outra profissão, enquanto 26,5% afirmam sentir-se estagnados na carreira.
“Prevenir o esgotamento começa por incluir os professores nessa rede [de proteção] e por não deixá-los sozinhos na mediação com as famílias. A coordenação deve assumir as conversas mais duras, e o professor precisa saber a quem recorrer”, indica Pereira.
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*Publicado por Mariana Valbão, da CNN Brasil

