Autoridades ucranianas afirmaram que restrições aos serviços de internet via satélite Starlink, da SpaceX, prejudicaram operações militares e a logística do país. A medida ocorre em meio ao aumento das tensões entre Kiev e o governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Segundo autoridades ucranianas, as forças militares foram surpreendidas pelas limitações à versão do serviço voltada ao uso militar, chamada Starshield. O conselheiro presidencial Serhiy Beskrestnov afirmou que não houve aviso prévio.
“Nossas forças de defesa não receberam nenhum aviso sobre essa restrição, e isso levou à interrupção de várias missões”, escreveu Beskrestnov nas redes sociais. “Está claro que essa medida não pode ser uma coincidência e está ligada à situação política atual.”
Uma fonte militar ucraniana com conhecimento direto das operações afetadas disse à CNN que as complicações são significativas. Segundo ela, os problemas de conexão podem afetar a linha de frente e os territórios ocupados pela Rússia.
“Estamos investigando detalhadamente os problemas de conexão. Estávamos nos preparando para isso”, afirmou a fonte.
Uma fonte do Ministério da Defesa da Ucrânia também disse à CNN que a situação dificulta a logística, as operações com sistemas não tripulados e os ataques de médio alcance, entre outras atividades. O ministério afirmou que ainda investiga as causas do problema.
A CNN procurou a SpaceX para comentar.
Tensões com o governo Trump
A interrupção ocorre em meio a relatos recentes de dificuldades no compartilhamento de informações de inteligência entre a Ucrânia e seus aliados.
No último fim de semana, o governo Trump advertiu Kiev de que poderia suspender o compartilhamento de inteligência e as compras europeias de armas americanas destinadas à Ucrânia caso o país não interrompesse os ataques de longo alcance contra instalações energéticas russas.
As informações fornecidas pelos Estados Unidos e por outros parceiros ajudam a Ucrânia a se defender de ataques russos com mísseis balísticos, incluindo dados sobre a localização de lançadores e a trajetória e o momento dos ataques.
Na terça-feira (13), o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, afirmou que o país não recebeu alertas antecipados dos aliados antes de um ataque com mísseis balísticos que atingiu uma importante usina de energia em Kiev e danificou um edifício residencial.
Mais cedo naquele dia, Trump havia negado que os Estados Unidos tivessem interrompido o compartilhamento de informações de inteligência com a Ucrânia.
“Estamos ajudando e compartilhando informações de inteligência. Queremos que a guerra termine, por isso estamos trabalhando com eles e com a Rússia para pôr fim ao conflito”, declarou.
No sábado (10), o presidente-executivo da SpaceX, Elon Musk, criticou Zelensky em uma publicação na rede social X. “Zelensky foi longe demais”, escreveu Musk, em referência aos ataques ucranianos contra instalações de combustíveis russas.
A CNN também procurou a Casa Branca, o Pentágono e o Ministério da Defesa da Ucrânia para comentar o caso.
O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, afirmou nesta quarta-feira (14) que a Rússia não tinha informações adicionais sobre as restrições ao Starlink na Ucrânia. Ele disse que o governo russo acompanha atentamente os relatos de mudanças no apoio de Washington a Kiev, mas considerou prematuro tirar conclusões mais amplas.
Impacto na defesa aérea
As dificuldades com o Starlink surgem enquanto a Rússia intensifica os ataques contra a infraestrutura energética ucraniana.
Um novo bombardeio russo deixou mais de 600 mil pessoas sem eletricidade na manhã de quarta-feira, segundo Zelensky. De acordo com o presidente, a Rússia lançou mais de 120 drones e 39 mísseis balísticos contra Kiev e Kharkiv, atingindo instalações de energia e provocando apagões generalizados, além de danos significativos a estruturas de petróleo e gás.
Zelensky afirmou que os alvos estavam entre aqueles abrangidos pelo cessar-fogo energético anunciado por Trump no domingo (11). A trégua, apresentada de surpresa, aparentemente pegou tanto Kiev quanto Moscou desprevenidos.
O presidente ucraniano declarou na segunda-feira (12) que a Rússia já havia violado o suposto acordo com novos ataques, mas disse que a Ucrânia estava disposta a respeitá-lo caso Moscou também o fizesse.
Questionado na terça-feira sobre uma possível violação russa, Trump respondeu: “Vou informar vocês sobre isso mais tarde”, segundo a Reuters.
Na quarta-feira, o Kremlin finalmente comentou a proposta de cessar-fogo energético, após dias de silêncio. O governo russo questionou os termos da iniciativa e afirmou que “o trabalho nessa direção continua”.
Zelensky pede há meses que os aliados reforcem as defesas aéreas ucranianas, especialmente com o fornecimento de interceptadores capazes de derrubar mísseis balísticos que viajam mais rápido que a velocidade do som.
Beskrestnov alertou que o Starlink também é utilizado no funcionamento de drones interceptadores que ajudam a proteger o espaço aéreo ucraniano contra drones de ataque russos movidos a jato.
“Na prática, com suas ações, nossos parceiros estão nos privando de uma das poucas oportunidades que temos de defender o país contra drones Shahed movidos a jato”, afirmou o conselheiro nesta quarta-feira.
Rússia e Ucrânia intensificaram os ataques contra as infraestruturas energéticas uma da outra nos últimos meses, enquanto as linhas de frente permanecem praticamente inalteradas. O Ministério da Defesa russo também afirmou ter derrubado 902 drones durante a noite, segundo a agência russa Interfax.
*Por Victoria Butenko, Jessie Yeung, Lauren Kent e Svitlana Vlasova, da CNN
Catástrofe demográfica: Ucrânia está virando nação de viúvas e órfãos

