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Quais fatores podem definir as eleições em Israel e o futuro de Netanyahu?

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Quais fatores podem definir as eleições em Israel e o futuro de Netanyahu?

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, enfrentará uma eleição que definirá o futuro de seu governo no dia 27 de outubro.

A votação para o Parlamento será a primeira desde 2022 e desde o ataque do Hamas, em outubro de 2023.

Samuel Feldberg, doutor em Ciências Políticas pela USP e pesquisador da Universidade de Tel Aviv, avalia que essa eleição será praticamente um “plebiscito” de aprovação ou reprovação do governo de Netanyahu.

Com isso, temas que tomaram conta de Israel nos últimos anos, em especial os conflitos com países da região, devem gerar impacto direto no resultado.

Ataques do Hamas de 2023

Um dos principais pontos que devem influenciar as eleições parlamentares de Israel é o ataque do Hamas de 2023, que deixou mais de 1.200 mortos no país, segundo contagens israelenses, e culminou em uma guerra que devastou a Faixa de Gaza.

O conflito e as críticas devido às falhas de segurança que permitiram ao Hamas fazer a ofensiva também tiveram impactos diretos no governo de Netanyahu.

Durante este período, o ministro da Defesa, o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas e os diretores da inteligência militar, do Mossad e do Shin Bet renunciaram, foram afastados ou concluíram seus mandatos.

As famílias de reféns que foram sequestrados também criticaram o governo pelo que classificaram como demora para fechar um acordo com o Hamas para libertação dos presos e para o início de uma investigação das falhas de segurança.

Além disso, o grupo pressiona pela criação de uma comissão independente de apuração sobre as responsabilidades do 7 de outubro. Até o momento, apenas um órgão ligado ao governo foi montado, gerando dúvidas sobre sua atuação.

Netanyahu e seus aliados culpam os chefes de segurança por não o terem acordado na noite anterior ao ataque, apesar de haver indícios de inteligência de que uma ofensiva do grupo armado era iminente.

Braço armado do Hamas, Brigadas Izz ad-Din al-Qassam seguram bandeira palestina enquanto destroem tanque das forças israelenses na Cidade de Gaza em 7 de outubro
Braço armado do Hamas, Brigadas Izz ad-Din al-Qassam seguram bandeira palestina enquanto destroem tanque das forças israelenses na Cidade de Gaza em 7 de outubro • Foto de Hani Alshaer/Anadolu Agency via Getty Images

Além disso, no começo de setembro deste ano, Netanyahu enfrentou críticas após uma notícia de que o presidente dos Emirados Árabes Unidos o havia alertado sobre uma grande operação do grupo palestino.

O gabinete do primeiro-ministro classificou a informação como uma “mentira absoluta”, mas líderes de quatro partidos da oposição divulgaram uma rara declaração conjunta exigindo investigação completa do caso.

Monique Sochaczewski, professora de Relações Internacionais do IDP e doutora em História, Política e Bens Culturais, avalia que a divulgação da informação e questionamentos sobre se Netanyahu não agiu previamente ao ataque do Hamas terão muito impacto no pleito.

“A especificidade desse caso, desse tipo de informação, isso está gerando muita mágoa, muita raiva, e isso vai ter certamente um peso nessas eleições agora do final de outubro”, comenta.

Sochaczewski também pontua que o impacto demográfico — de pessoas que saíram de Israel nos últimos anos após os ataques — e de posicionamento na população também pode ser um grande diferencial nas eleições de Israel.

“Eu acho que o panorama político israelense, hoje, está à direita. E eu acho que uma alternativa ao Netanyahu não seria, por exemplo, alguém da esquerda, embora a esquerda esteja tentando se reconstruir”, pondera.

Desta maneira, a professora comenta que Gadi Eisenkot, um dos rivais do atual premiê, se destaca como um nome proeminente com políticas de direita e com forte relação ao conflito em Gaza, pois perdeu um filho durante os combates no território palestino.

Guerra contra o Irã pode impactar a eleição?

A guerra contra o Irã visava proporcionar uma vitória decisiva sobre o regime dos aiatolás. Mas, mesmo com a morte do então líder supremo do país, Ali Khamenei, o sistema iraniano permanece semelhante ao que era antes do conflito, com grande influência da Guarda Revolucionária Islâmica.

Além disso, não houve um acordo definitivo para o fim da guerra, muito menos uma rendição por parte do Irã, que se nega a abrir mão de seu programa nuclear e de mísseis.

Monique Sochaczewski destaca que houve apoio entre a população israelense para os ataques coordenados com os Estados Unidos, mas que a retaliação iraniana, com fechamento do Estreito de Ormuz e ataques aos países do Golfo, por exemplo, fez com que a agenda israelense “fugisse do radar”.

“Acredito que hoje a ameaça iraniana ainda segue percebida como uma questão, e talvez a interpretação seja que esse gesto de Netanyahu perdeu, não foi eficiente, muito pelo contrário, fez com que Israel se tornasse enfraquecido frente a Trump, frente ao Oriente Médio”, comenta.

Samuel Feldberg, pesquisador da Universidade de Tel Aviv, avalia que esse é outro conflito que será utilizado tanto pela oposição como pelo atual governo.

O especialista ressalta que os aliados do premiê usaram a narrativa de que Israel conseguiu um bom resultado com os ataques contra o Irã e a operação no Líbano, inclusive enfraquecendo o Hezbollah.

Enquanto isso, os críticos dizem que isso é fruto de um trabalho feito por profissionais — os militares — e não necessariamente por ações da administração federal.

“O fracasso é sempre órfão, e o sucesso tem uma enorme disputa por quem é o responsável”, destaca.

Segurança de Israel

Desta maneira, a segurança de Israel como um todo em uma região com diversas frentes de batalha — ou, ao menos, ameaças — é um dos definidores da campanha.

Karina Calandrin, professora de Relações Internacionais do Ibmec-SP, ressalta que essa “talvez seja menos uma eleição sobre uma guerra específica e mais uma eleição sobre o balanço de três anos de guerras”.

“Netanyahu vai tentar transformar Irã, Gaza e Líbano numa narrativa de que Israel mudou o equilíbrio regional e que ele é o líder capaz de garantir a segurança do país. A oposição vai tentar transformar exatamente os mesmos acontecimentos numa discussão sobre responsabilidade pelo 7 de outubro, guerras prolongadas, resultados inconclusivos e desgaste econômico e social”, prossegue.

Além disso, Amos Harel, analista sênior de segurança do jornal Haaretz, afirmou à CNN Internacional que uma nova crise de segurança pode alterar o cenário político.

“Sabe-se que Netanyahu acredita que uma emergência de segurança é uma opção de último recurso capaz de embaralhar as cartas e aumentar suas chances de sobreviver a estas eleições”, disse.

Donald Trump

Outro fator que pode influenciar, ao menos parcialmente, as eleições de Israel é a relação entre Benjamin Netanyahu e Donald Trump, presidente dos Estados Unidos.

Os EUA foram os principais apoiadores de Israel nas lutas contra o Hamas, o Hezbollah e o Irã — neste último caso, inclusive, participando ativamente dos combates.

Fernanda Magnotta, analista de Internacional da CNN Brasil, pondera que o apoio de Trump poderia ajudar o atual premiê em uma parcela da população, mas que não seria o único definidor do pleito.

“Um endosso poderia reforçar um candidato junto a parcelas da direita e do eleitorado que valorizam a relação com Washington, mas dificilmente seria capaz, sozinho, de reorganizar uma eleição dominada por questões muito mais domésticas, como segurança, responsabilidade pelo 7 de Outubro, duração das guerras e capacidade de formar uma coalizão”, avalia a analista.

O presidente Donald Trump com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, no Knesset, em Jerusalém
O presidente Donald Trump com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, no Knesset, em Jerusalém • 13 de outubro de 2025 Evan Vucci/Pool via REUTERS

Karina Calandrin também enxerga efeitos variados em parcelas diferentes do eleitorado.

“Para parte da direita, uma manifestação de Trump poderia reforçar a velha narrativa de Netanyahu. Para outros eleitores, porém, a própria deterioração dessa relação pode enfraquecer essa mensagem, especialmente se Trump parecer estar pressionando Israel em questões de segurança”, explica.

Apesar do efeito incerto, relatos de que a oposição tenta se aproximar do governo americano indicam que o apoio de Trump ainda é considerado influente.

“Naftali Bennett, Gadi Eisenkot e Yair Lapid teriam enviado mensagens ao círculo de Trump pedindo que ele permanecesse neutro. Isso mostra que os adversários de Netanyahu, aparentemente, levam a possibilidade de uma intervenção de Trump a sério, mesmo sem sabermos qual seria seu efeito eleitoral”, afirma Calandrin.

Leis polêmicas

Neste ano, projetos de lei controversos foram aprovados em Israel, visando, principalmente, preservar o bloco político de Benjamin Netanyahu.

O elemento de maior carga política foi a isenção de jovens ultraortodoxos do serviço militar.

“O impacto da guerra e do serviço militar ao longo dos últimos anos criou um peso muito grande para o setor laico da sociedade e, portanto, há uma demanda para que haja um engajamento maior de outros setores”, explica o professor Feldberg.

Um outro projeto de lei que reformula a regulamentação da radiodifusão também foi aprovado, assim como uma legislação que expande programas acadêmicos com segregação por gênero.

Esta última iniciativa provocou duras críticas de universidades e alguns grupos, que argumentam que ela exclui as mulheres, compromete a igualdade e ameaça os padrões acadêmicos.

Uma fonte ligada ao partido de Netanyahu pontuou que o premiê se mostrou “indiferente” mesmo diante de uma possível intervenção dos tribunais, uma vez que uma batalha jurídica pode reforçar a retórica contra o Judiciário, que já é central em sua campanha.

Custo de vida em Israel

Por fim, um ponto que pode influenciar a votação em Israel é o custo de vida no país.

“O custo de vida em Israel subiu muito, especialmente na região central, e está tornando muito difícil a vida dos jovens que têm que iniciar uma carreira profissional”, pontua Samuel Feldberg.

De acordo com a OCDE, Israel apresenta um dos “níveis de preços comparativos mais elevados do bloco, o que reduz o bem-estar e acirra as tensões sociais”.

*com informações da Reuters, da CNN e de Mariana Catacci, da CNN Brasil

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