Autoridades turcas nomearam um administrador judicial indicado pelo governo para gerir a Halk TV, emissora alinhada à oposição; a medida foi anunciada por promotores na quarta-feira, enquanto a polícia realizava uma operação no escritório da emissora em Istambul, intensificando a repressão à oposição e gerando novas preocupações sobre a liberdade de imprensa.
A Procuradoria-Geral de Istambul informou que sua unidade de crimes financeiros investigou o presidente da Halk TV, Cafer Mahiroglu, por suspeitas de “suborno, fraude em licitações e lavagem de ativos provenientes de atividades criminosas”.
A medida desta quarta-feira (14) torna a Halk TV o quinto grande veículo de notícias turco a ter um administrador judicial nomeado, seguindo decisões judiciais semelhantes envolvendo a Flash TV, a Eko Turk, a Haberturk e a Tele1.
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Os promotores ordenaram a detenção de 17 pessoas, incluindo Mahiroglu — das quais 11 foram presas —, determinaram o confisco de empresas ligadas a ele e nomearam o Fundo de Seguro de Depósitos de Poupança (TMSF) como administrador judicial.
Mahiroglu encontra-se atualmente fora da Turquia e está sendo procurado pelas autoridades.
A transmissão ao vivo do canal foi interrompida às 6h30 no horário local, passando a exibir conteúdo pré-gravado. “Centenas de policiais” estavam no local, e a entrada nas instalações não estava sendo permitida, segundo informações divulgadas no site da emissora. Um membro da equipe de programação da Halk TV afirmou que as negociações com a delegação de administradores judiciais para manter as transmissões no ar não surtiram efeito.
A medida ocorre dias depois de Kemal Kilicdaroglu — presidente do CHP (Partido Republicano do Povo), a antiga principal legenda de oposição da Turquia, reconduzido ao cargo por decisão judicial — ter criticado publicamente a Halk TV e Mahiroglu pela cobertura jornalística da emissora. Ele afirmou que o CHP havia apresentado queixa ao RTUK, o órgão regulador de televisão da Turquia, mas nenhuma providência foi tomada.
Kilicdaroglu havia perdido a liderança do CHP para Ozgur Ozel em 2023, mas foi reconduzido ao cargo por uma decisão judicial em maio, em meio a uma repressão jurídica sem precedentes contra a oposição. Ele se recusou a convocar novas eleições partidárias, ao mesmo tempo em que sua retórica passou a se alinhar mais ao governo.
Posteriormente, o CHP criticou a operação policial na Halk TV, classificando-a como um exemplo “vergonhoso” de “pressão sistemática” sobre a mídia de oposição.
O relator do Parlamento Europeu para a Turquia, Nacho Sanchez Amor, criticou a medida na rede social X, afirmando que o governo “não está satisfeito em controlar 90% da mídia” e “visa alcançar os 100%”. “Em meio a detenções de jornalistas e ampla censura online, a liberdade de imprensa e de expressão logo será apenas uma memória.”
Repressão à liberdade de imprensa
Nos últimos anos, as autoridades nomearam administradores para assumir o controle de muitos municípios, tendo anteriormente tomado aqueles administrados por prefeitos de oposição pró-curdos no sudeste da Turquia e, mais recentemente, grandes municípios — incluindo Istambul e seus distritos — conquistados pela oposição, o que levou alguns prefeitos a aderirem ao partido governista AK, do presidente Tayyip Erdogan.
Grupos de direitos humanos e países ocidentais criticaram o governo pelo uso do Judiciário, pelo seu histórico em relação aos direitos e pela repressão à liberdade de imprensa nos últimos anos, à medida que o governo estabelece um controle mais rígido sobre a grande mídia. Vários veículos de oposição ou independentes sofreram bloqueios de acesso, multas e outras restrições.
O governo afirma que o Judiciário da Turquia é independente. Não houve comentários públicos sobre as medidas mais recentes contra a Halk TV.
Ozel, que agora lidera o principal partido de oposição, o Novo Partido, condenou a medida de quarta-feira, assim como o partido de oposição pró-curdo DEM.
“Uma operação policial ao amanhecer em uma emissora de televisão, a nomeação de um administrador judicial — apenas ditadores fariam tal coisa”, disse Ozel na rede social X.
“Aqueles que nomeiam administradores para municípios e pisoteiam a vontade do povo agora nomearam um administrador para a Halk TV, assistida por milhões. Porque ELES SÃO IMPOTENTES E COVARDES!”, acrescentou.
A operação na Halk TV ocorreu no momento em que se esperava que o maior rival político de Erdogan, o prefeito de Istambul — Ekrem Imamoglu, que enfrenta processos judiciais — iniciasse sua defesa na quarta-feira em um amplo julgamento por corrupção envolvendo mais de 400 réus ligados à administração municipal de Istambul.
“Em um dia como este, um administrador judicial foi nomeado para a Halk TV, um dos canais de notícias mais assistidos da Turquia”, disse à Reuters o presidente do Sindicato dos Jornalistas da Turquia, Gokhan Durmus, acrescentando que o país enfrenta mais um “capítulo sombrio” em termos de liberdade de imprensa e de expressão. “Continua incerto qual será, daqui para a frente, o destino dos nossos 200 colegas que trabalham na (Halk TV) e de sua linha editorial.”

