Durante interrogatório de mais de oito horas, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, réu pelo feminicídio da esposa, a soldado Gisele Alves Santana, declarou à Justiça que não é assassino e que segue preso injustamente há mais de 200 dias por um crime que não cometeu.
A CNN Brasil obteve acesso a íntegra do depoimento, prestado na última segunda-feira (5), no Fórum Criminal da Barra Funda, na zona oeste de São Paulo. Na audiência, estiveram presentes representantes do Ministério Público, o advogado da família de Gisele e a defesa do oficial.
Ao longo do relato, Neto relembra o relacionamento com Gisele e afirma que, após o ocorrido, foi criada uma narrativa de que ele era um homem agressivo e violento com ela.
“Porque até o dia 18 de fevereiro de 2026 [dia da morte da soldado], se eu colocasse o meu nome no Google, tinha tantas coisas boas de mim, tantas ocorrências boas, 35 anos de serviço […] Eu não sou um assassino“, afirma.
“Parece um pesadelo”
O oficial foi preso preventivamente no dia 18 de março, um mês após a morte de Gisele Alves. Ele segue sob custódia no Presídio Militar Romão Gomes, localizado na zona Norte de São Paulo.
Durante o interrogatório, Neto relata sua rotina na prisão e diz que “todo dia parece um pesadelo”. Segundo o oficial, ele está há 202 dias preso injustamente por um crime que não cometeu.
“Eu não matei a minha esposa […] E eu estou aqui, preso, sem ter feito isso”, diz.
Veja trecho:
Durante o depoimento, o tenente-coronel reforça, diversas vezes, que não matou a esposa e que a soldado tirou a própria vida. No dia dos fatos, ele afirma que havia comunicado a decisão de separação, que, conforme depoimento, Gisele era controversa.
A versão de suicídio, no entanto, foi descartada pela perícia após uma nova análise do Instituto de Criminalística de São Paulo. O laudo, obtido pela reportagem, descreve a impossibilidade de Gisele ter atirado contra a própria cabeça.
O documento identificou divergências materiais determinadas entre a versão inicialmente apresentada e os vestígios físicos encontrados e apontou para a intervenção de uma segunda pessoa na morte da soldado.
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Os peritos realizaram a verificação da capacidade física e mecânica da vítima, um teste de visibilidade e a medida técnica do padrão e do sentido em que o sangue da soldado escorreu.
Tentativa de separação
Segundo o tenente-coronel, ele tentava se separar de Gisele há meses devido ao comportamento supostamente agressivo dela. De acordo com a versão do oficial, Gisele não queria o divórcio e que as mensagens divulgadas, as quais ela cita a vontade de separação, eram “blefes”.
No inquérito policial, foram anexadas trocas de mensagens entre Geraldo e Gisele. Em algumas conversas, a soldado manifestou a vontade de se separar do marido, contrariando, portanto, a versão apresentada por ele em interrogatório.
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A extração de dados ao longo da investigação também recuperou uma mensagem em que Gisele afirma que não conseguiria superar a traição e que a separação seria o caminho, já que não confiava mais no companheiro.
“Quero me separar. Vou ser ex, não corna”, escreveu Gisele em uma das mensagens enviadas.
Réu por feminicídio e fraude processual
Geraldo Leite Rosa Neto responde pelos crimes de feminicídio e fraude processual. Segundo a investigação, o tenente-coronel interferiu na cena do crime e no curso do caso.
Para o Ministério Público, o homicídio foi praticado por motivo torpe, relacionado ao sentimento de posse e à recusa do acusado em aceitar o fim do relacionamento. A denúncia também afirma que Gisele foi surpreendida, sem possibilidade de defesa, circunstância que qualifica o crime.
Após o interrogatório de Neto, ocorrido no dia 5 de outubro, o oficial e a defesa da família de Gisele devem apresentar as alegações finais do caso. Finalizado esse processo, a juíza do caso avaliará os autos e decidirá se o caso será submetido ou não a júri popular.

