Para 2027, a previsão também foi reduzida em 0,3 ponto percentual. Segundo o fundo, o patamar elevado das taxas de juros é um dos principais fatores que contribuem para a desaceleração da economia brasileira.
Em entrevista ao CNN Money, o ex-diretor do FMI Otaviano Canuto avaliou que a revisão reflete um movimento que já está em curso no país. “A economia brasileira está em uma fase de desaceleração.
Em grande medida, o impulso fiscal que puxou para cima nos anos anteriores começa a se exaurir”, afirmou. Segundo ele, o enfraquecimento desse estímulo tende a resultar em taxas de crescimento mais baixas nos próximos anos.
Dependência fiscal e desafios estruturais
Canuto destacou que o desempenho econômico brasileiro tem dependido excessivamente do impulso fiscal, o que, em sua avaliação, representa um risco estrutural de longo prazo. Para o economista, superar esse cenário exige enfrentar o que chamou de “doença dupla da economia brasileira”: o baixo crescimento da produtividade e o excesso de gastos públicos.
“O setor brasileiro gasta muito e mal”, afirmou, citando os investimentos em infraestrutura, que, segundo ele, permanecem abaixo do necessário.
O economista também ressaltou que a taxa de investimento privado no Brasil continua baixa, em parte devido às perspectivas pouco favoráveis de produtividade e rentabilidade. Nesse contexto, Canuto avalia que o país tem oportunidades de reverter esse quadro por meio da exploração de suas vantagens competitivas em energia limpa, minerais críticos e terras raras.
Para ele, porém, é necessário avançar no processamento desses recursos em território nacional e desenvolver cadeias produtivas de maior valor agregado, seguindo um modelo semelhante ao adotado pela China.
Riscos globais e o papel da inteligência artificial
No cenário internacional, Canuto observou que o relatório do FMI apresenta uma perspectiva relativamente otimista, ao destacar a resiliência da economia mundial diante dos choques de preços.
Apesar disso, o economista chamou a atenção para riscos apontados pelas instituições, entre eles uma possível revisão das expectativas de retorno dos investimentos em IA (inteligência artificial), que poderia provocar o estouro de uma bolha de supervalorização financeira.
Canuto também alertou que o Brasil não está entre os principais beneficiários diretos do avanço da inteligência artificial, uma vez que não concentra a produção dos equipamentos e componentes de hardware utilizados nessa tecnologia. Países asiáticos, como Coreia do Sul e Tailândia, por outro lado, têm se beneficiado desse movimento por sua participação na cadeia produtiva desses insumos.
Além disso, a revisão para baixo da projeção de crescimento da China, principal parceiro comercial do Brasil, representa um risco adicional para a economia brasileira. Uma desaceleração maior da atividade chinesa pode afetar a demanda por produtos brasileiros e, consequentemente, o desempenho das exportações nacionais.

