A abertura do mercado livre de energia pode frustrar consumidores que esperam uma redução expressiva na conta de luz, avalia a Copel. Em entrevista ao Alta Voltagem, Diogo Mac Cord, vice-presidente de Estratégia, Novos Negócios e Transformação Digital da companhia, afirmou que o peso dos subsídios e encargos do setor elétrico reduziu a vantagem econômica de trocar o mercado regulado pelo livre.
A ampliação do acesso ao mercado livre de energia será gradual. Consumidores industriais e comerciais atendidos em baixa tensão poderão escolher o fornecedor de energia a partir de novembro de 2027. Para os demais consumidores, incluindo os residenciais, a possibilidade estará disponível em novembro de 2028. O cronograma, previsto em lei, foi regulamentado por decreto.
O executivo explica que parte da vantagem histórica do ACL (Ambiente de Contratação Livre) sobre o ACR (Ambiente de Contratação Regulada) vinha de diferenças na cobrança de encargos e subsídios. Segundo ele, essa possibilidade de arbitragem deixou de existir, porque os consumidores do mercado livre passaram a arcar com volumes equivalentes dessas despesas.
“Hoje no ACL paga volumes equivalentes de encargo. E como o preço tem uma distorção muito grande para os dois lados, o preço no ACR hoje é menor do que o preço no ACL”, afirmou.
Na avaliação do vice-presidente da Copel, esse cenário oferece pouco incentivo para que o consumidor migre motivado apenas pelo preço da energia. Questionado se a abertura poderia frustrar as expectativas de redução de preços, o executivo foi categórico: “No patamar atual, sim”.
A migração para o mercado livre de energia já apresenta perda de ritmo. Segundo dados da CCEE (Câmara de Comercialização de Energia Elétrica), foram registradas 11.891 migrações entre janeiro e setembro de 2026, uma queda de 35,4% em relação às 18.404 contabilizadas no mesmo período de 2025.
Em 2025, os subsídios embutidos nas tarifas de eletricidade somaram cerca de R$ 57 bilhões, conforme dados do Subsidiômetro da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica).
Mac Cord ressalta, porém, que olhar apenas para a CDE (Conta de Desenvolvimento Energético), que reúne grande parte dos subsídios do setor, não permite dimensionar todos os custos transferidos aos consumidores.
Entre os benefícios implícitos, ele cita descontos no uso da infraestrutura elétrica, cujo custo acaba recaindo sobre outros consumidores: “Aqueles de fio, que eu não pago, mas outro paga por mim”.
Em sua estimativa, ao considerar também os subsídios implícitos relacionados ao uso das redes e os pagamentos pela reserva de capacidade já contratada, os encargos podem alcançar R$ 120 bilhões por ano em 2031. Segundo o executivo, é nesse horizonte que o custo dessas contratações será percebido de forma mais intensa.
O executivo classifica esse conjunto de despesas como pagamentos por ineficiências do setor e defende uma revisão da forma como os investimentos são realizados. Para ele, sem enfrentar esses custos, a abertura terá alcance limitado sobre a conta de luz.
“A gente precisa reinventar a forma como o setor elétrico protagoniza os seus investimentos. Se não, não tem abertura de mercado que vai resolver”, afirmou.
