Depois de passar pelo gospel e se jogar na música pop, o ator e cantor João Lucas, 26, estreia no teatro musical no papel de Percy Jackson, na primeira montagem brasileira da saga. A sessão de estreia ocorre neste sábado (10), no Teatro Liberdade, em São Paulo.
Ao se preparar para interpretar o clássico semideus, João Lucas contou, em entrevista à CNN Brasil, que encontrou no protagonista semelhanças com a própria história. Diagnosticado com Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) ainda na infância, ele conta que enfrentou bullying, passou por diferentes escolas e cresceu com a sensação de não pertencer a determinados grupos — experiências que também marcam a trajetória do personagem criado por Rick Riordan.
O ator também falou sobre os desafios de construir um herói imperfeito, a pressão de protagonizar uma franquia de sucesso e os elementos que prometem diferenciar a montagem brasileira das adaptações para o cinema e a televisão.
“Percy Jackson – O Ladrão de Raios: O Musical” acompanha a jornada de Percy, um adolescente que descobre ser filho de Poseidon e precisa embarcar em uma missão para impedir uma guerra entre os deuses do Olimpo.
Confira a entrevista completa abaixo:
CNN Brasil: você já passou por diferentes fases na sua trajetória musical, do gospel ao pop, e agora assume o protagonismo de um musical. Como surgiu essa vontade de explorar o teatro e por que escolheu “Percy Jackson”?
A minha primeira experiência foi assistindo à primeira montagem de “Hairspray” aqui no Brasil. Eu tinha, no máximo, nove anos, e minha professora de inglês me levou. Ela falou para os meus pais: “Acho que ele gosta tanto de filme musical, de música, de dança”. E pediu para me levar ao teatro.
Lembro que saí de lá completamente impactado, apaixonado. Em algum lugar, acho que plantou uma sementinha de um dia querer viver isso. Quando comecei na música, foi de forma muito natural. Cantava na igreja, comecei a receber convites e apareceram pessoas na minha jornada que me ajudaram a profissionalizar isso. Comecei a viver disso.
Quando comecei a trabalhar profissionalmente como cantor gospel, não imaginava seguir atuando. Achava que tinha que focar em uma coisa só. Com o tempo e a maturidade, você vai vendo que pode viver outras coisas também, desde que estejam de acordo com seus sonhos.
O teatro musical sempre foi um sonho meu. Quando surgiu o convite para fazer a audição de Percy, não pude negar, porque era um personagem que já conhecia, um livro que já tinha lido, já tinha assistido ao filme e gostava muito da história.
Achei que seria a oportunidade certa para tentar. Fiz o teste e passei. Foi muito gratificante. Não estava buscando isso, batendo na porta das produções. O convite chegou, fiz a audição e passei. Sinto que era para ser.
CNN Brasil: O que essa nova experiência fez você descobrir sobre si mesmo como artista que talvez outros projetos musicais ainda não tivessem exigido?
Acho que a resiliência e a capacidade de melhorar foram coisas que vivi muito por meio do estudo e da dedicação. Existe outro nível de preparo e de intensidade para a montagem de uma peça de teatro musical. Tive um acompanhamento muito próximo da minha fonoaudióloga, do meu professor de canto, do professor de dança, do fisioterapeuta e do personal. Tudo isso para me dar capacidade de performar.
São sete shows por semana durante dois meses. A demanda é muito grande. Fora os ensaios, que são seis dias por semana, das 14h às 22h. São ensaios para valer, estamos sempre usando a voz e o corpo.
Perceber que, por meio do estudo e da dedicação, consegui crescer como performer nesse tempo é muito gratificante. Acho que foi o meu maior desafio e o maior aprendizado que levo dessa experiência.
CNN Brasil: Percy começa a história descobrindo um universo ao qual pertence sem saber. Existe algo nessa jornada de identidade e pertencimento que conversa com a sua própria trajetória?
Muito. Eu me identifico com Percy em muitas coisas. Arrisco dizer que uma das únicas coisas com que não me identifico é que não sou filho de um deus e meu pai não foi ausente. Ele sempre foi muito presente.
Mas meu pai sempre foi muito do mar, sempre surfou, me inspirou a estar na natureza. Cresci indo à praia. Então, acho que essa seria minha relação de paternidade mais próxima com Poseidon.
Sobre todo o restante, fui diagnosticado com TDAH ainda muito novo. Passei por várias escolas também, não porque fui expulso, mas porque me mudei de cidade. Sofri bullying quando me mudei para o interior, na primeira escola em que estudei, porque era um garoto de São Paulo. Passei muito por esses desafios na infância e na adolescência, de adaptação, de me sentir diferente, de não me sentir igual a todo mundo, de não me sentir pertencente muitas vezes.
Acho que Percy tem um pouco disso tudo, até que descobre que o que achava que era sua maior fraqueza — essa questão de não pertencer, de ser diferente, o TDAH, a dislexia — é a maior força dele, o poder dele.
Em algum momento da minha vida, também identifiquei que talvez não pertencer a determinados grupos ou não me parecer com a maioria dos meus amigos da escola, que na época era algo ruim para mim, era justamente o que me tornava único.
Gostar de arte e preferir fazer uma coreografia, dançar, cantar ou aprender um instrumento a jogar futebol, por exemplo, foi o que me trouxe até aqui.
É isso que me permite fazer esse musical, seguir a carreira da música, ser cantor, ator, performer e trabalhar com moda. Tudo veio dessas paixões da infância, que eram diferentes das da maioria das pessoas.
Acho que Percy é um pouco sobre isso também.
CNN Brasil: E como foi transformar essas experiências pessoais em elementos da sua interpretação? Você sente que deu um pouco de João ao Percy e também recebeu algo do personagem?
Nesse caso, para mim, foi um facilitador. Mesmo tendo experiência com teatro, é uma montagem muito grande, uma produção muito grande, com dois meses em cartaz e muitos shows por semana. São muitas coisas novas.
Ter alguma coisa a que me apegar, com que me identifico e de que já me sinto próximo, que é o personagem, foi muito bom para construí-lo.
Fui buscando muito o que imaginava e lembrava da minha adolescência, das sensações de não me sentir pertencente, de sentir que não tinha um lugar para mim, e trazer isso para a cena.
Afinal, já faz uns dez, doze anos que isso aconteceu. Foi um exercício de dar e receber também do Percy.
Estamos construindo a peça no auditório de uma escola. Então, estamos todos os dias em contato com adolescentes. Acaba sendo um laboratório, porque vemos os perfis, a forma como eles vivem e se comportam. É uma maneira de trazer de volta as sensações que tínhamos na escola.
CNN Brasil: Percy já existe no imaginário dos fãs há muitos anos, com versões no cinema, na televisão e no teatro. Como foi construir o seu próprio Percy Jackson?
Quis ouvir muitos fãs. É a primeira vez que o musical vem para o Brasil, então, desde a Comic Con, comecei a ter contato mais direto com eles.
Fizemos encontros de fãs promovidos pela produção, conheci o elenco da série da Disney e comecei a ouvir como eles enxergavam o Percy. Essas trocas pessoais foram muito boas para a construção do personagem.
Na semana passada, fizemos uma sessão do primeiro ato para os fãs, um ensaio aberto. Foi muito legal sentir a reação, a energia deles, ouvir o feedback, olhar nos olhos e ver essa paixão pelo personagem.
Ver que conseguiram enxergar o Percy no que eu estava representando tornou tudo ainda mais especial. Deu um ânimo nesses últimos dias antes da estreia. Pensei: “Caramba, chegou nos fãs. Eles abraçaram, compraram esse Percy”.
Obviamente, estamos preocupados em entregar uma boa performance e uma boa produção de teatro musical, mas minha maior preocupação é fazer com que esses fãs sintam que estão assistindo, de fato, ao Percy que conhecem e com quem têm uma relação tão próxima há tantos anos.
CNN Brasil: Percy é um herói, mas está longe de saber exatamente o que está fazendo. Ele erra, é impulsivo e se sente deslocado. O que mais te interessa nessas imperfeições dele?
Acho que existe uma inocência no Percy. Ele não sabe nada, tudo é muito novo. Por isso, não dá tanta importância às coisas como os outros adolescentes do acampamento dão.
Os outros já têm essa expectativa, essa obsessão por serem reconhecidos pelos pais, por vencer uma missão, por serem chamados para uma missão ou ganhar uma luta.
Ele não tem nada disso. Não sabe nem o que é ser um semideus, um meio-sangue. Faz tudo de forma muito despretensiosa, muito inocente, muito pura.
E, por não saber de nada e não levar tudo tão a sério quanto os outros, acaba triunfando. Ganha as lutas, é chamado para uma missão, consegue completá-la e recuperar o raio. Tudo isso ele faz de forma muito despretensiosa. O único objetivo dele quando aceita a missão é salvar a mãe, trazê-la de volta do Mundo Inferior.
Acho que essa pureza e essa despretensão são muito importantes para a nossa vida. Se levamos tudo tão a sério, ao pé da letra e de forma obcecada pelos resultados, às vezes não conseguimos chegar lá.
Quando deixamos a vida nos conduzir e correspondemos com paixão, presença e verdade, acho que tende a dar mais certo. Percy tem isso. Ele está presente, com as melhores intenções, e as coisas acontecem para ele, mesmo sem querer.
CNN Brasil: A franquia tem uma base gigantesca e muito engajada de fãs. Existe uma pressão maior por interpretar justamente o protagonista, especialmente com a popularidade recente da série?
Existe muito essa expectativa de corresponder ao que os fãs têm pelo personagem. É natural. Não sou só o Percy Jackson, protagonista da história, mas o personagem que dá título ao musical. Naturalmente, a pessoa que vai assistir a “Percy Jackson” está indo ver o Percy Jackson, esperando o que aquele ator e aquele personagem vão entregar.
Existe uma pressão um pouquinho maior, mas não diria no sentido ruim da palavra. É uma expectativa de sentir que o público vai lá e fica feliz com o que está acontecendo.
Quando vi a paixão daqueles jovens fãs, adolescentes e adultos, gritando na Comic Con, só tive uma coisa em mente: “Meu Deus, preciso entregar isso da melhor forma possível”.
Estou feliz porque estamos caminhando para esse lugar.
CNN Brasil: O que as pessoas que já conhecem o João Lucas cantor vão descobrir sobre você quando assistirem ao musical?
Acho que vão conhecer outro lado meu, completamente diferente. Percy não se assemelha em nada ao que tenho apresentado no palco nos últimos anos. Até a voz, a forma como estou colocando a voz falada e a voz cantada dele, é diferente.
Alguns fãs meus foram ao ensaio aberto e assistiram junto com os fãs de Percy. O feedback deles foi: “Meu Deus, é um novo João. O que estamos vendo aqui é muito diferente”.
Acho isso muito bacana, porque não estou ali para fazer o João Lucas. Estou ali para representar Percy Jackson. Ele tem características muito próprias, muito únicas, que quisemos trazer.
CNN Brasil: Se esse musical abrir portas para outras produções, você gostaria que o teatro musical passasse a ocupar um espaço maior na sua carreira?
Pelo que estou vivendo até hoje, sim. Já me perguntaram isso, inclusive sobre fazer audições para outros personagens. Mas respondo que preciso esperar essa temporada acabar. Quero viver “Percy” intensamente, sem pensar muito no amanhã, se vou seguir ou não fazendo isso.
Pela minha paixão e pelo que estou vivendo nesse processo, já adiantaria que sim. Mas tento não colocar muito isso na cabeça, porque quero viver esse momento presente com toda a intensidade, paixão e amor do mundo.
Quando acabar a temporada e eu tirar uma ou duas semanas para descansar, posso voltar a pensar nisso. Se fosse me mover só pela paixão, sem pensar em agenda, cronograma ou estratégias, diria que com certeza.
CNN Brasil: Existe alguma cena que, durante os ensaios, fez você pensar: “Os fãs vão enlouquecer quando virem isso”?
Tem muitas coisas especiais. Acho que os fãs gostam muito da luta de Percy com Luke, quando Percy descobre que Luke roubou o raio e armou para ele. Luke era um amigo, então existe toda essa descoberta.
Também tem o momento em que Percy ainda está na escola, no museu, e acontece a primeira aparição da Fúria. Tem muito efeito especial.
A peça tem muitos efeitos especiais. Acho que os fãs vão gostar muito porque, diferentemente das montagens da Broadway ou de Londres, essa é uma produção com investimento maior, cenário maior e elenco maior.
Temos uma equipe dedicada aos efeitos especiais e às mágicas que acontecem durante o espetáculo. Os cenários são muito imersivos. Sinto que os fãs vão poder entrar nessa história através do que teremos no palco.
Escolher uma cena é difícil, mas diria que aquelas que carregam os efeitos especiais são as que mais vão impressionar.
Percy Jackson – O Ladrão de Raios: O Musical
Local: Teatro Liberdade – End. Rua São Joaquim, n.º 129 – Liberdade – São Paulo;
Abertura da casa: 1h antes do início do evento;
Data: a partir de 10 de outubro;
Duração: 2 horas;
Classificação: Livre;
Ingressos: a partir de R$ 60 pela Sympla ou na bilheteria do teatro.
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