A França enfrenta um cenário fiscal preocupante, marcado por dívida pública elevada, déficit persistente e juros crescentes. A dívida do país ultrapassou US$ 4 trilhões em junho, superando o tamanho da própria economia. Enquanto isso, o rendimento do título de 10 anos — referência no bloco europeu — atingiu o nível mais alto desde 2002.
A situação veio à tona em meio a uma onda de protestos estudantis que tomou o país. Estudantes mantiveram o bloqueio de escolas em diferentes regiões, e o governo se comprometeu a enviar cerca de 3 mil professores para suprir a escassez de profissionais na área de educação.
Três fatores negativos combinados
AO CNN Money, Guilherme Almeida, da Suno Research, avalia que o caso francês combina três fatores negativos simultaneamente.
“Primeiro, nós temos um estoque alto da dívida, passando dos US$ 4 trilhões, o que representa pouco mais de 120% da relação dívida-PIB. Segundo, nós temos um déficit persistente — a França não gera superávit orçamentário desde 1974, então estamos falando de pouco mais de cinco décadas. E, por último, nós temos o juro elevado, que inclusive se situa acima do crescimento nominal do PIB”, afirmou.
Segundo Almeida, pela aritmética simples, esse custo da dívida torna-se insustentável caso nenhuma medida seja adotada.
Ele também destacou fatores conjunturais agravantes, como os conflitos ao redor do globo — especialmente no Oriente Médio —, que pressionam o preço do barril de petróleo e geram pressões inflacionárias.
Além disso, o Banco Central Europeu conduz uma política monetária restritiva, e a França, por adotar o euro, não emite moeda própria.
Histórico fiscal e problema previdenciário
Almeida traçou um panorama histórico da situação fiscal francesa. Entre os anos 1970 e 1990, o juro era elevado, mas o estoque da dívida era baixo. Já entre 2000 e 2019, o Banco Central Europeu realizou compras de títulos públicos dos países do bloco, o que manteve o custo da dívida sob controle — chegando a períodos de juro negativo.
“Agora não temos essa política de compra de títulos por parte do Banco Central Europeu, ele está aumentando os juros, a França não emite moeda própria e está com o fiscal persistentemente deteriorado”, explicou.
O especialista também apontou o problema previdenciário como um agravante estrutural.
Segundo ele, a idade de aposentadoria na França é menor do que a média global e menor do que a de outros países da União Europeia e dos Estados Unidos, o que faz com que boa parte do orçamento seja direcionada ao financiamento previdenciário, gerando pressões adicionais sobre as contas públicas.
Risco de calote e impactos no Brasil
Sobre a possibilidade de um resgate pelo Banco Central Europeu — nos moldes do que ocorreu com Grécia, Portugal e Espanha —, Almeida destacou que existem dúvidas no mercado, pois a França não atenderia a alguns requisitos estabelecidos a partir de 2015, entre eles o corte de gastos.
“Isso leva a um risco de crédito maior e a exigência de uma remuneração acaba aumentando”, disse.
Ainda assim, o especialista ponderou que um calote não é o cenário base.
“O CDS, que mede uma espécie de seguro contra calote, está nas máximas da última década, mas a probabilidade implícita de default está em torno de 1%. Gera uma preocupação no mercado, o mercado passa a exigir uma remuneração maior para prazos mais longos, mas eu não diria que é algo que vá se materializar de fato no curto prazo”, concluiu.
Para o Brasil, Almeida observou que a tendência de alta nos juros longos ao redor do mundo pode fazer com que os juros longos brasileiros acompanhem esse movimento, especialmente nos vértices de 10 anos.
